Vitória, quarta-feira 21 de outubro de 2026
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O voto que não pede desculpas: porque tantos ainda votam em Flávio Bolsonaro apesar das denúncias de corrupção!

Por Repórter Capixaba ·
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Imagem: Google AI

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, mesmo com o caso Master e a rachadinha no currículo. Para boa parte do eleitor, o que move o voto não é o candidato, é o adversário. E mudar de lado custa mais do que errar junto com o grupo.

Mais de 56 milhões de brasileiros olharam a urna em 4 de outubro e escolheram Flávio Bolsonaro. O senador terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, e os dois voltam às urnas em 25 de outubro. Não foi voto de quem não sabia de nada.

O eleitor sabia. Sabia da rachadinha. Flávio foi denunciado em novembro de 2020 por organização criminosa, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e peculato, num caso que investigava repasses de salários de servidores do seu antigo gabinete na Alerj a Fabrício Queiroz. O processo não chegou ao mérito. O TJ do Rio arquivou a denúncia porque as provas foram anuladas pelo STJ. Não houve absolvição. Houve um processo que morreu antes do julgamento.

Sabia também do Banco Master. Em maio, Flávio confirmou que pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre o pai, mas negou irregularidade. Um dos contatos para cobrar pagamentos aconteceu na véspera da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025. No dia 18, o Banco Central liquidou o Master. Depois, o senador admitiu ter ido à casa do banqueiro após a primeira prisão, para “colocar ponto final” na relação.

Nada disso o tirou do jogo. Por quê?

O voto contra

A primeira resposta está nos números. Na Quaest de 14 de outubro, Flávio é rejeitado por 54% dos eleitores; Lula, por 53%. Os dois são mais rejeitados do que queridos. Num quadro assim, a eleição deixa de ser escolha e vira veto. O eleitor não vota em Flávio. Vota contra Lula.

Antipetismo não é birra de ocasião. A ciência política brasileira estuda o fenômeno há anos. Os pesquisadores David Samuels e Cesar Zucco mostraram que existe no país uma identidade negativa tão forte quanto a partidária: gente que não se define pelo que apoia, mas pelo que rejeita. Pesquisa Ipsos-Ipec indicou que o PT chegou a 2026 com a menor taxa de simpatizantes da sua história, 27%, e a maior rejeição entre anos eleitorais, 37%.

Para esse eleitor, o escândalo do outro lado pesa pouco. O medo do lado de cá pesa muito.

O sobrenome

A segunda resposta é o nome na cédula. Flávio não construiu o próprio eleitorado. Herdou. Quando lançou a candidatura, em dezembro de 2025, tinha 2% na pesquisa espontânea. Na Ipsos-Ipec daquele mês, Jair aparecia com 18% de citações espontâneas; Flávio, com 2%. Dez meses depois, liderava o primeiro turno.

O sobrenome funciona como marca. Quem compra a marca não lê a bula de cada produto. Compra a promessa de pertencer.

A manada

E aqui chegamos à pergunta incômoda: por que tanta gente vota sabendo que pode sair perdendo?

A psicologia tem um nome para isso desde os anos 1950: dissonância cognitiva. Leon Festinger estudou um grupo que esperava o fim do mundo numa data marcada. O mundo não acabou. Os mais engajados não abandonaram a crença. Reforçaram. Quem já investiu muito numa convicção prefere reinterpretar os fatos a admitir o erro.

Mas a lógica não é a de que admitir o erro confirma o lugar na manada. É o contrário. Admitir o erro ameaça esse lugar. O psicólogo Dan Kahan, de Yale, chama isso de cognição protetora da identidade. Para um indivíduo, mudar de opinião sobre um candidato rende quase nada: seu voto, sozinho, não decide eleição. Já romper com o grupo custa caro. Custa o almoço de domingo, o grupo da igreja, a turma do trabalho, o lugar na conversa. A conta é racional, só que de outra racionalidade. Não é sobre o país. É sobre pertencer.

Por isso o escândalo vira “perseguição”. A denúncia vira “narrativa”. O eleitor não está mentindo para os outros. Está se protegendo.

O preço

O problema é que a fatura chega. Quem vota por identidade abre mão de cobrar resultado. O político sabe disso. Se o voto está garantido pelo ódio ao adversário, a prestação de contas vira detalhe. Esse é o risco real, e ele não é exclusivo de um lado.

A democracia funciona quando o eleitor consegue punir quem erra, inclusive quem ele escolheu. Quando a pergunta deixa de ser “esse candidato merece meu voto?” e passa a ser “quem eu odeio mais?”, quem perde não é a esquerda nem a direita. É o eleitor. No domingo, ele vai votar. Na segunda, vai pagar a conta.

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