Terapia CAR-T: células modificadas em laboratório começam a ser testadas contra doenças autoimunes
Células CAR-T, já usadas contra alguns cânceres, começam a ser testadas em doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide.
A terapia CAR-T, já consolidada no tratamento de alguns tipos de câncer, começa a ser investigada como possível aliada contra doenças autoimunes, condições em que o sistema de defesa do organismo passa a atacar tecidos saudáveis. A técnica consiste em reprogramar células do próprio sistema imunológico para que reconheçam e eliminem um alvo específico, que, no caso do câncer, costuma ser um tumor.
Segundo o médico Ricardo Xavier, da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a grande promessa está em direcionar essas células apenas às defesas que atacam o próprio corpo. Ele discutiu o tema no último congresso nacional da especialidade e avaliou que, se essa estratégia funcionar, doenças como lúpus, artrite reumatoide e miosites poderiam ser estabilizadas. Para ele, seria a terceira grande mudança no tratamento dessas condições, depois dos medicamentos biológicos e dos medicamentos de pequenas moléculas.
Ensaios clínicos em fase inicial indicam que o método é seguro e consegue “congelar” o ataque do sistema imunológico contra o organismo. Ainda assim, os estudos são preliminares e não permitem afirmar que a técnica cura essas doenças.
O processo começa com a retirada de linfócitos T, um tipo de célula de defesa, de uma amostra de sangue do paciente. Em laboratório, essas células são editadas geneticamente para ganhar um receptor capaz de reconhecer os linfócitos B, responsáveis por produzir anticorpos e por manter a memória imunológica associada às doenças autoimunes.
Depois da edição, as células CAR-T são multiplicadas até atingir a quantidade necessária para o tratamento. Todo o procedimento é individualizado, ou seja, feito a partir das células de cada paciente.
A aplicação é feita por via intravenosa, em uma única infusão. Durante esse período, o paciente precisa ficar internado e monitorado continuamente, como ocorre em outros tratamentos com células modificadas.
A expectativa é que a terapia elimine as células envolvidas no ataque autoimune. Depois disso, o organismo passaria a produzir novas células, que, segundo a proposta, não teriam mais capacidade de agredir os tecidos do próprio corpo. Confirmar esse efeito de forma duradoura é justamente um dos pontos que os estudos precisam esclarecer.
Para pacientes, a novidade ainda está distante da rotina de tratamento, já que a técnica segue em fase de testes. Quem convive com lúpus, artrite reumatoide ou miosite deve conversar com o reumatologista antes de buscar qualquer alternativa terapêutica.


