Vitória, terça-feira 20 de outubro de 2026
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Reis de Kush controlavam produção de objetos reais em oficina de faiança no Sudão

Oficina de faiança no Templo de Sanam, no Sudão, mostra como os reis de Kush controlavam matérias-primas, trabalhadores e objetos destinados à realeza.

Por Roberto Andrade ·
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Reis de Kush controlavam a produção de objetos de prestígio por meio de uma oficina de faiança descoberta no Templo de Sanam, em Napata, antiga capital do Império de Kush, no atual Sudão. A pesquisa, publicada na revista Antiquity, indica que o Estado supervisionava matérias-primas, trabalhadores e artigos destinados à realeza.

A faiança é um material colorido e esmaltado usado na confecção de contas, amuletos e pequenas estatuetas. O local era usado para fabricar esses objetos, e a descoberta oferece pistas sobre como a elite kushita administrava recursos, mão de obra e produtos ligados à realeza.

A equipe foi liderada por Rennan Lemos, da Universidade de Durham, e Kathryn Howley, da Universidade de Nova York. As escavações ocorreram entre 2018 e 2020.

O templo foi erguido pelo rei Taharqo no século 7 a.C., e a oficina é de meados do mesmo século. Entre os vestígios há três estruturas para acender fogo, duas bacias de tijolos de barro, centenas de contas, pequenas conchas e resíduos em camadas de cinzas.

Entre os achados está um shabti de faiança, também chamado de ushabti ou shawabti. Essas estatuetas funerárias eram colocadas em sepultamentos reais no Egito e na Núbia.

A oficina produzia essas peças para o cemitério real de Nuri. Para os pesquisadores, isso indica que os objetos ali fabricados eram destinados exclusivamente aos reis, ligando diretamente o artesanato à autoridade da realeza kushita.

A localização também chamou atenção. A fabricação de faiança gerava fumaça espessa e odores fortes, por isso oficinas egípcias desse tipo costumavam ficar na periferia das cidades. Em Sanam, porém, o espaço funcionava ao lado de um importante complexo religioso.

Segundo a equipe, essa proximidade sugere ligação entre o artesanato, as instituições religiosas e o poder real. Os templos tinham papel importante na economia núbia, e a presença da oficina ali aponta para um possível controle estatal da produção no período Napata médio.

Outro destaque é a técnica. No Egito, os produtores usavam calcário como fonte de cal, mas esse material é escasso em grande parte do Sudão. Os artesãos de Sanam trituravam conchas no lugar dele.

As conchas vinham do Mar Vermelho, região distante do Vale do Nilo. Isso sugere uma rede de abastecimento controlada pelo Estado. Para Lemos, a escolha representa uma inovação técnica, e não uma simples imitação de métodos egípcios.

O estudo também amplia o conhecimento sobre o Império de Kush. Os reis kushitas governaram o Egito no século 8 a.C., mas ainda se sabe menos sobre a organização política e econômica da Núbia do que sobre a egípcia. Trabalhos anteriores tratavam Kush como cópia do Egito, interpretação que pesquisas recentes questionam.

Enquanto os governantes egípcios exerciam poder sobre a terra e a agricultura, a autoridade kushita também se expressava pelo domínio de objetos valorizados e de sua produção. Para os autores, as duas sociedades construíram formas distintas de organização política no antigo nordeste da África.

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