O poder sem rosto influencia a política escondido atrás de uma falsa isenção.
Ao longo da história brasileira, as elites econômicas demonstraram notável habilidade em exercer poder sem assumir explicitamente suas posições políticas. Trata-se menos de uma ausência de posicionamento e mais de uma estratégia histórica: agir politicamente enquanto se apresenta como neutro, técnico ou “acima das ideologias”. Essa postura, que pode ser descrita como uma forma de covardia política — no sentido de evitar a exposição clara de interesses — aparece em diversos momentos da história do país.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa estratégia foi a construção do chamado mito da democracia racial. Durante grande parte do século XX, difundiu-se a ideia de que o Brasil seria uma sociedade harmonicamente miscigenada, livre dos conflitos raciais que marcaram países como os Estados Unidos. Essa narrativa foi popularizada por intelectuais como Gilberto Freyre, especialmente após a publicação de Casa-Grande & Senzala. Embora a obra de Freyre tenha valor acadêmico importante, sua interpretação foi frequentemente utilizada pelas elites e por setores do Estado para minimizar a persistência do racismo estrutural no país.
A ideia de “democracia racial” cumpria uma função política clara: ocultar desigualdades profundas herdadas da escravidão. O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir formalmente a escravidão e o fez sem implementar políticas de integração social para os libertos. Ainda assim, durante décadas, o discurso dominante sustentou que o racismo brasileiro seria inexistente ou irrelevante. Esse discurso serviu, na prática, para preservar privilégios sociais e evitar um debate público mais profundo sobre reparação e desigualdade racial.
No campo político contemporâneo, observa-se dinâmica semelhante na atuação de grandes conglomerados de comunicação. Empresas como Grupo Globo, Grupo Folha (controladora da UOL e da Folha de S.Paulo), Grupo Estado (do jornal O Estado de S. Paulo), além de redes como Record, SBT e Band, frequentemente afirmam operar sob o princípio da neutralidade jornalística. No entanto, críticos apontam que a linha editorial desses veículos historicamente se aproxima de posições políticas liberais ou conservadoras, especialmente em temas econômicos.
Isso não significa necessariamente que haja uma conspiração coordenada, mas sim que os meios de comunicação são instituições sociais inseridas em estruturas de poder econômico. Seus proprietários pertencem a grupos empresariais com interesses específicos, e esses interesses inevitavelmente influenciam a seleção de pautas, o enquadramento das notícias e o espaço concedido a determinadas vozes. Estudos na área de Sociologia da Comunicação e da Economia Política da Comunicação apontam que a concentração de propriedade na mídia tende a produzir visões de mundo alinhadas aos interesses das elites econômicas.
Neutralidade Enganosa
Esse padrão — agir politicamente enquanto se proclama neutro — reaparece em outros momentos decisivos da história nacional. No Golpe de Estado no Brasil, em 1964, por exemplo, setores empresariais, financeiros e midiáticos tiveram papel ativo na desestabilização do governo de João Goulart. No entanto, muitos desses grupos se apresentaram posteriormente como meros observadores dos acontecimentos ou como defensores da democracia ameaçada. Documentos históricos e pesquisas acadêmicas demonstram que parte significativa da elite econômica apoiou abertamente a intervenção militar — ainda que esse apoio tenha sido disfarçado sob o discurso da “defesa da ordem”.
Dentro dessa lógica histórica de atuação política disfarçada de neutralidade, um dos episódios mais emblemáticos ocorreu nas eleições presidenciais de 1989, as primeiras eleições diretas para presidente após o fim da ditadura militar. Na ocasião, a cobertura da TV Globo tornou-se alvo de fortes críticas após a edição do debate final entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, transmitido originalmente pela Rede Bandeirantes. No telejornal Jornal Nacional, exibido na véspera da votação, a emissora apresentou um resumo do confronto que, segundo críticos e pesquisadores da comunicação, destacou momentos considerados mais favoráveis a Collor e mais frágeis de Lula. A edição foi acusada de criar uma percepção de superioridade do candidato alagoano no debate, influenciando a opinião de milhões de eleitores em um momento decisivo da campanha.
Anos depois, o próprio Grupo Globo reconheceria publicamente que a edição do material foi um erro editorial. Em 2011, durante as comemorações de aniversário da emissora, um editorial do grupo admitiu que o resumo exibido no Jornal Nacional não refletiu adequadamente o equilíbrio do debate. O episódio tornou-se um caso clássico estudado na Sociologia da Comunicação e na Economia Política da Comunicação, sempre citado como exemplo de como decisões editoriais aparentemente técnicas podem produzir efeitos políticos profundos. Mais do que um simples erro jornalístico, o caso reforçou a percepção de que grandes meios de comunicação podem exercer influência eleitoral significativa enquanto mantêm publicamente o discurso de neutralidade.
Décadas depois, a mesma dinâmica se repetiu durante o Impeachment de Dilma Rousseff. Grandes veículos de comunicação afirmaram agir exclusivamente em nome da fiscalização do poder público. No entanto, inúmeros estudos apontam que a cobertura midiática adotou enquadramentos claramente desfavoráveis ao governo de Dilma Rousseff, contribuindo para consolidar uma narrativa política que acabou sustentando o processo de impeachment. Mais uma vez, o discurso dominante foi o da neutralidade jornalística, mesmo diante de evidências de forte alinhamento editorial.
A imprensa tem lado
A questão central, portanto, não é apenas o posicionamento ideológico da imprensa — algo que ocorre em praticamente todos os países —, mas a narrativa da completa imparcialidade. Em democracias maduras, muitos veículos assumem publicamente suas inclinações editoriais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a linha política da Fox News é amplamente reconhecida como de direita, pró- Trump, enquanto jornais como The New York Times ou The Washington Post são frequentemente associados a posições liberais, mais à esquerda. A transparência sobre essas inclinações permite ao público interpretar as informações com maior consciência crítica.
No Brasil, por outro lado, a defesa insistente da “isenção absoluta” pode funcionar como um escudo simbólico. Ao se apresentarem como meros intermediários neutros da informação, certos grupos midiáticos evitam discutir abertamente seus interesses econômicos e políticos. Essa estratégia reforça a idéia de que determinadas posições representam o “centro racional”, enquanto outras seriam ideológicas ou radicais.
A polarização política contemporânea — geralmente descrita como confronto entre esquerda e direita — torna esse fenômeno ainda mais visível. Parte significativa da elite econômica prefere não assumir publicamente suas preferências políticas, embora atue intensamente nos bastidores do debate público, seja por meio de financiamento de campanhas, influência editorial ou pressão institucional.
Assim, o problema talvez não seja simplesmente a existência de posições políticas na mídia ou nas elites — algo inevitável em qualquer sociedade —, mas a ausência de transparência sobre elas. Em uma democracia madura, o debate público tende a se fortalecer quando os diferentes atores sociais expõem com clareza seus interesses, valores e projetos de país.
Enquanto persistir o mito da neutralidade absoluta — seja na narrativa da democracia racial do passado ou na suposta isenção total do presente — o debate público brasileiro continuará marcado por ambiguidades. E, nessas zonas de silêncio, muitas vezes se escondem justamente as estruturas de poder que mais influenciam o rumo da sociedade.
