Vacina brasileira contra dengue mantém proteção por pelo menos cinco anos, aponta estudo científico

imagem: divulgação

A vacina brasileira contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan continua protegendo contra a doença por pelo menos cinco anos após a aplicação. O dado vem de um estudo de longo prazo publicado na revista científica Nature Medicine, que acompanhou milhares de voluntários no Brasil.

Os resultados indicam que o imunizante mantém 80,5% de eficácia contra casos graves de dengue ou com sinais de alerta, além de apresentar bom perfil de segurança ao longo do período analisado.

A vacina, conhecida como Butantan-DV, é considerada um marco na pesquisa nacional. Trata-se da primeira vacina do mundo contra a dengue aplicada em dose única, o que simplifica o esquema de vacinação e aumenta a adesão da população.

Estudo acompanhou mais de 16 mil voluntários

Para chegar aos resultados, pesquisadores acompanharam mais de 16 mil participantes em diferentes regiões do país. Cerca de 10 mil receberam a vacina, enquanto aproximadamente 6 mil receberam placebo, formando o grupo de comparação.

Durante os cinco anos de acompanhamento, nenhuma pessoa vacinada desenvolveu dengue grave nem precisou de hospitalização pela doença.

Quando se observa todos os casos da doença — inclusive os mais leves — a eficácia geral ficou em cerca de 65%. Entre pessoas que já haviam tido dengue antes da vacinação, a proteção foi ainda maior, chegando a 77,1%.

Especialistas consideram esses números relevantes para um vírus complexo como o da dengue, que possui quatro sorotipos diferentes e circula de forma intensa em regiões tropicais.

Dose única facilita vacinação em larga escala

Um dos pontos mais valorizados pelos pesquisadores é o esquema de dose única. Em muitas campanhas de vacinação, parte da população não retorna para completar esquemas com duas ou mais aplicações.

Nesse contexto, a estratégia pode ampliar o alcance da imunização.

Além disso, a vacina foi desenvolvida para proteger contra os quatro sorotipos do vírus da dengue, característica essencial para evitar casos graves da doença.

Quem pode receber a vacina hoje

A vacina foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pessoas entre 12 e 59 anos.

Apesar de ter sido testada também em crianças a partir de dois anos, os dados mostram que a eficácia diminui mais rapidamente nesse grupo após alguns anos. Por isso, novas pesquisas estão em andamento para avaliar a necessidade de reforço nessa faixa etária.

Estudos também começaram a analisar a resposta imunológica em idosos, que concentram a maior taxa de mortalidade por dengue no Brasil.

Estratégia do SUS e produção nacional

A prioridade inicial do imunizante é atender o Sistema Único de Saúde (SUS). O governo federal iniciou estratégias piloto e a vacinação de profissionais da saúde enquanto a produção é ampliada.

A expectativa é aumentar a capacidade de fabricação da vacina em até 30 vezes nos próximos anos, permitindo uma expansão gradual da campanha para toda a população elegível.

Além de reforçar o sistema público brasileiro, o imunizante pode se tornar um produto estratégico para países da América Latina, onde epidemias de dengue são frequentes.

Dengue continua sendo desafio de saúde pública

Mesmo com o avanço das vacinas, especialistas lembram que o controle da dengue depende de várias medidas. A principal delas continua sendo o combate ao mosquito transmissor, o Aedes aegypti.

O Brasil registrou milhões de casos nos últimos anos. Embora haja queda recente nas notificações, a doença ainda provoca milhares de hospitalizações e mortes todos os anos.

Por isso, a vacinação surge como uma nova ferramenta — importante, mas complementar — às estratégias de eliminação de criadouros do mosquito.

Se os resultados observados nos estudos se confirmarem em larga escala, o país pode estar diante de um passo decisivo para reduzir o impacto de uma das doenças tropicais mais persistentes da América Latina.