Segurança pública em 2026: debate real ou jogo eleitoral?

Foto: Agência Brasil/Tomaz Silva

Partidos de direita vão usar o tema para criminalizar os mais pobres, enquanto protegem corruptos e criminosos de colarinho branco. Nessa eleição, o tema que mais preocupa o brasileiro vira palco de disputa política — mas quem realmente está do lado de quem?

Não é novidade que a segurança pública mexe com o brasileiro. Pesquisas eleitorais mostram, eleição após eleição, que o medo da violência está entre as maiores angústias da população. Em 2026, esse sentimento vai ser disputado palmo a palmo na campanha presidencial. A questão é: o debate que vem por aí vai ser honesto — ou vai ser mais um espetáculo para inglês ver?

O tema que ninguém vai ignorar

Com 852 mil pessoas presas, índices alarmantes de homicídio e o crime organizado avançando sobre territórios que o Estado abandonou faz décadas, a segurança pública não é pauta de campanha por acidente. É porque dói. É porque mata. É porque chega na porta de casa.

Qualquer candidato que queira chegar ao Planalto em 2026 vai ter que falar sobre isso. O problema é como vão falar — e, principalmente, o que vão omitir.

“Lei e ordem” para quem?

O campo conservador chega para 2026 com o discurso afiado: mais polícia, penas mais duras, menos direitos para criminosos. Parece simples. Parece forte. Mas quando você olha de perto, uma pergunta desconfortável aparece: essa “lei e ordem” vale para todo mundo, ou só para alguns?

Os dados do sistema prisional respondem com brutalidade. Quase 70% dos presos no Brasil são negros. A maioria é jovem e pobre. Um em cada quatro nem foi condenado ainda — está esperando julgamento atrás das grades. O endurecimento penal que a direita defende tem endereço certo: a favela, a periferia, a comunidade que já não tem quase nada.

Enquanto isso, crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro — esses tramitam em outro ritmo, em outro mundo. As penas, quando vêm, vêm devagar. Os réus, em geral, respondem em liberdade.

Falar em “combate ao crime” sem tocar nessa assimetria não é honestidade. É discurso.

O Congresso como escudo dos poderosos

Os partidos conservadores são maioria no Congresso brasileiro. E usam esse poder de forma bastante seletiva quando o assunto é segurança pública.

De um lado, empurram projetos de endurecimento penal que, na prática, ampliam o encarceramento das populações mais vulneráveis. Do outro, travam discussões que poderiam financiar de verdade o combate ao crime.

Um exemplo concreto e revelador: as bets — as plataformas de apostas online que explodiram no Brasil nos últimos anos, sugando renda de famílias pobres e alimentando um mercado bilionário. Há evidências crescentes de que parte desse dinheiro circula em esquemas escusos. Mesmo assim, o Congresso conservador age para proteger esse setor, resistindo a tributações que poderiam gerar receita para políticas públicas de segurança.

É o mesmo Congresso que diz querer combater o crime — mas fecha os olhos quando o crime tem endereço nobre e patrocina campanha.

A estratégia também passa por empacotar o governo federal. Dificultam recursos, barram iniciativas, criam ruído político. E depois apontam para a violência nas ruas como se fosse exclusiva responsabilidade do Executivo.

A máquina de mentiras nas redes

Tem outro ingrediente nesse caldo que não dá para ignorar: a desinformação organizada.

Políticos de direita com milhões de seguidores construíram, nos últimos anos, uma infraestrutura de produção e distribuição de fake news sobre segurança pública. Vídeos editados, estatísticas adulteradas, casos isolados transformados em tendências nacionais, criminosos com passagens pelo sistema sendo apresentados como “resultado das políticas de esquerda”.

O mecanismo funciona porque o medo é real. Quando a pessoa tem medo, ela é mais vulnerável a aceitar narrativas que confirmem esse medo — mesmo que sejam mentira. E aí a mentira vira verdade nas timelines, nos grupos de WhatsApp, nas conversas de família.

Isso não é debate. É manipulação com fins eleitorais.

A pergunta que precisa ser feita

Então chegamos ao nó da questão: quando a campanha de 2026 trouxer a segurança pública para o centro do debate, o que o eleitor vai encontrar?

Vai encontrar propostas sérias, com financiamento real, que enfrentam o crime em todas as suas formas — inclusive aquelas que usam terno e gravata?

Ou vai encontrar um debate esportivo — gritaria de torcida organizada, onde cada lado defende o seu time, a plateia torce, e no fim do jogo nada muda para quem mora em comunidade, para quem perdeu filho para a violência, para quem vive com medo de andar na rua?

A segurança pública é um dos temas mais sérios que existem. Envolve vidas, direitos, dignidade. Merece mais do que ser transformada em munição eleitoral.

O eleitor que entender esse jogo antes de votar vai ter muito mais clareza sobre quem está, de fato, do seu lado — e quem só está usando o seu medo para chegar ao poder.