Quando o ódio perde a vergonha: como as redes sociais ajudaram a tirar o extremismo das sombras

Grupos neonazistas desfilam em Washington (EUA) sem vergonha na cara

Durante décadas, depois da derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, parecia existir um consenso moral relativamente sólido em boa parte do Ocidente. Defender a superioridade racial, exibir símbolos nazistas, negar genocídios ou justificar perseguições a minorias era algo relegado aos cantos mais obscuros da sociedade. Não porque essas ideias tivessem desaparecido, mas porque havia um custo social elevado para quem as defendesse publicamente .Esse constrangimento, porém, começou a mudar com a revolução das redes sociais.

As plataformas digitais democratizaram a produção de conteúdo, conectaram bilhões de pessoas e ampliaram o acesso à informação como nunca antes. Mas também criaram um ambiente onde algoritmos passaram a decidir o que cada indivíduo vê, lê e compartilha. A promessa era oferecer conteúdo mais relevante. O efeito colateral foi outro: milhões de pessoas passaram a viver dentro de universos informacionais quase fechados, alimentados por recomendações que reforçam preferências já existentes.

Pesquisas publicadas na última década mostram que esses sistemas de recomendação tendem a favorecer a exposição repetida a conteúdos semelhantes aos consumidos anteriormente. O fenômeno, conhecido como “bolha de filtro”, reduz o contato com opiniões divergentes e fortalece a sensação de que determinada visão de mundo é amplamente compartilhada. Aos poucos, aquilo que antes parecia uma opinião marginal passa a parecer normal. O problema não está apenas na tecnologia. Está na forma como ela altera o comportamento humano.

A psicologia social demonstra que indivíduos cercados por pessoas que compartilham as mesmas crenças tendem a expressar posições de maneira mais intensa. O grupo oferece proteção psicológica. O medo da reprovação diminui. O constrangimento desaparece. O que antes seria dito apenas em ambientes privados passa a ser publicado para milhares de pessoas.É justamente nesse ambiente que movimentos extremistas encontraram terreno fértil.

Organizações dedicadas ao monitoramento do extremismo vêm documentando um crescimento consistente da circulação de propaganda neonazista, supremacista e fascista nas redes sociais. Em vez de utilizarem apenas slogans explícitos, muitos grupos passaram a empregar símbolos, memes, números e códigos aparentemente inocentes para driblar sistemas de moderação e identificar simpatizantes. Essa estratégia permite que mensagens de ódio circulem com aparência de humor, ironia ou simples provocação, facilitando o recrutamento de novos integrantes.

O fenômeno não se restringe a comunidades escondidas da internet. Diversos relatórios internacionais apontam que discursos racistas, antissemitas, xenófobos, misóginos e homofóbicos passaram a circular em espaços digitais de grande audiência, impulsionados pela lógica do engajamento. Plataformas que remuneram criadores de conteúdo acabam, muitas vezes, monetizando conteúdos altamente polarizadores, porque indignação, medo e conflito costumam gerar mais comentários, compartilhamentos e tempo de permanência do usuário.

Não significa que os algoritmos “escolham um lado”. Eles não possuem ideologia. Seu objetivo é maximizar atenção. O problema é que emoções negativas costumam ser muito mais eficientes para prender pessoas à tela do que conteúdos moderados ou conciliatórios.

Essa lógica beneficia qualquer discurso que desperte medo, revolta ou ressentimento. Entretanto, movimentos extremistas historicamente aprenderam a explorar esse mecanismo com enorme eficiência. Narrativas conspiratórias, teorias sobre substituição populacional, discursos de pureza nacional, ataques a imigrantes, minorias religiosas, pessoas LGBTQIA+, negros e judeus encontram nas redes sociais um ambiente onde a repetição constante pode produzir uma falsa sensação de legitimidade.

Isso não significa que toda pessoa conservadora, liberal ou de direita compartilhe dessas ideias. Tampouco significa que a radicalização seja exclusividade da extrema direita. Estudos sobre violência política mostram que diferentes formas de extremismo podem surgir em vários espectros ideológicos. Contudo, é igualmente verdadeiro que organizações neonazistas, grupos supremacistas brancos e movimentos assumidamente fascistas têm registrado crescimento de visibilidade e capacidade de mobilização em diversos países nos últimos anos, fenômeno amplamente documentado por pesquisadores, órgãos de segurança e entidades de direitos humanos. Outro aspecto preocupante é a transformação do extremismo em produto.

Influenciadores descobrem que discursos inflamados geram audiência. Plataformas remuneram criadores pelo alcance obtido. Campanhas de financiamento coletivo, venda de produtos, assinaturas e doações permitem que produtores de conteúdo radical construam verdadeiros modelos de negócio baseados na indignação permanente. O ódio deixa de ser apenas uma convicção ideológica para se tornar também uma atividade economicamente lucrativa. As consequências ultrapassam o ambiente virtual.

Quando símbolos nazistas reaparecem em escolas, quando ataques racistas são gravados para ganhar repercussão online, quando jovens reproduzem slogans fascistas como se fossem memes ou piadas, percebe-se que o espaço digital deixou de refletir apenas a sociedade. Ele passou a influenciá-la profundamente.

A história demonstra que regimes autoritários não surgem de um dia para o outro. Eles se constroem pela normalização gradual do intolerável. Primeiro vêm as piadas. Depois a desumanização de determinados grupos. Em seguida aparecem discursos que classificam pessoas como ameaça, inimigos internos ou cidadãos de segunda categoria. Quando essas ideias deixam de provocar indignação coletiva, a democracia já começa a perder parte de suas defesas.

É justamente por isso que neonazismo, fascismo, racismo, antissemitismo, homofobia e outras formas de discriminação não podem ser tratados apenas como “mais uma opinião” dentro do mercado de ideias. Não se trata de divergências comuns sobre economia, impostos ou políticas públicas. São ideologias que, em diferentes momentos históricos, defenderam ou justificaram perseguições, exclusões, violência política e violações sistemáticas de direitos humanos.

A história ensina que regime autoritário não nasce pronto. Ele se constrói aos poucos, normalizando o que antes era impensável. Primeiro vem a piada. Depois a desumanização de um grupo. Depois o discurso que trata gente como ameaça, inimigo interno, cidadão de segunda categoria. Quando isso para de causar indignação, a democracia já perdeu parte da sua defesa.

Combater esse fenômeno exige respostas que vão muito além da remoção de publicações. Educação midiática, transparência sobre o funcionamento dos algoritmos, responsabilização de quem promove crimes de ódio, fortalecimento das instituições democráticas e incentivo ao pensamento crítico fazem parte de uma estratégia mais ampla de proteção do debate público.

A internet não criou o extremismo. O preconceito, o autoritarismo e a intolerância existem há séculos. O que mudou foi a velocidade com que essas ideias conseguem encontrar audiência, formar comunidades e conquistar aparência de normalidade.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja impedir que pessoas expressem opiniões radicais. Seja impedir que a arquitetura das plataformas transforme preconceito em entretenimento, discriminação em algoritmo e ódio em modelo de negócios.

Porque nenhuma sociedade permanece democrática por muito tempo quando aqueles que pregam a exclusão, a violência e a negação da dignidade humana deixam de sentir vergonha de fazê-lo em público. Os Estados Unidos que o digam.