Entre casarões coloniais marcados pelo tempo e as águas calmas do rio Cricaré, o Porto de São Mateus guarda uma das histórias mais importantes — e também mais dolorosas — do Espírito Santo. Durante décadas, o lugar viu prosperidade econômica, embarques de farinha de mandioca, café e cana-de-açúcar, mas também testemunhou um dos capítulos mais sombrios da história brasileira: o tráfico de pessoas escravizadas.
Agora, uma nova mobilização reúne universidades, órgãos públicos e instituições de preservação para tentar mudar o destino desse patrimônio histórico. A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) anunciou sua entrada em um grupo de cooperação que pretende transformar o antigo porto em um espaço vivo, ocupado pela cultura, pela pesquisa e pela comunidade. Mais do que recuperar prédios antigos, a proposta busca devolver significado a um dos locais mais emblemáticos do norte capixaba.
Um patrimônio que vai além da arquitetura
O Porto de São Mateus é um daqueles lugares em que cada parede parece guardar uma história. Localizado às margens do rio Cricaré, o sítio histórico foi um dos principais motores econômicos da região durante o século XIX.
Por ali circulavam mercadorias que abasteciam diferentes partes do país. A farinha de mandioca produzida no norte capixaba seguia em grandes embarcações, acompanhada posteriormente pelo café e pela cana-de-açúcar, produtos que ajudaram a consolidar a economia regional.
Mas essa prosperidade conviveu com uma realidade brutal. O porto também funcionou como um importante mercado de escravos e entrou para a história nacional por ter registrado, em 1856, a apreensão do último navio negreiro clandestino conhecido a operar na costa brasileira, mesmo após a proibição oficial do tráfico transatlântico.
É justamente essa dualidade — riqueza econômica e violência histórica — que torna o local um patrimônio de valor inestimável.
A Ufes entra na reconstrução da história
A participação da Ufes representa um novo passo no processo de revitalização.
A universidade passará a integrar uma parceria liderada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), com participação prevista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), da Prefeitura de São Mateus e do Banco do Nordeste.
A ideia é formalizar um acordo de cooperação para desenvolver ações permanentes no sítio histórico, utilizando pesquisa acadêmica, extensão universitária, atividades culturais e projetos artísticos como instrumentos de preservação e ocupação do espaço.
Durante reunião realizada entre representantes da universidade e do Ministério Público, foram discutidos diagnósticos da situação atual do porto e os encaminhamentos necessários para transformar o espaço em um ambiente mais seguro, frequentado e valorizado.
A proposta parte de um princípio cada vez mais adotado em políticas de preservação: patrimônio histórico não sobrevive apenas com restauração física. Ele precisa ser vivido.
Revitalizar não significa apenas restaurar
Nos últimos anos, o Porto de São Mateus já recebeu investimentos expressivos em infraestrutura.
O Governo do Espírito Santo concluiu uma ampla requalificação urbana, com recursos superiores a R$ 10 milhões, voltada à recuperação dos espaços públicos, melhoria da acessibilidade, drenagem, pavimentação e integração entre o porto e a parte alta da cidade. As intervenções também buscaram preservar a identidade arquitetônica do conjunto histórico, respeitando as diretrizes de tombamento estadual.
Durante as obras, outro aspecto chamou atenção dos especialistas.
Escavações supervisionadas pelo Iphan revelaram artefatos arqueológicos do século XIX e vestígios ainda mais antigos, reforçando que a área possui relevância não apenas arquitetônica, mas também arqueológica. Parte desse material continua em análise para aprofundar o conhecimento sobre a ocupação histórica da região.
O desafio agora é devolver vida ao lugar
Experiências internacionais mostram que recuperar edifícios históricos é apenas a primeira etapa.
Sem pessoas circulando, atividades culturais, turismo, educação e participação comunitária, muitos centros históricos acabam voltando ao abandono poucos anos depois.
É justamente por isso que a entrada da universidade é considerada estratégica.
Instituições de ensino costumam atuar como produtoras de conhecimento, memória e inovação social. Projetos de extensão, visitas escolares, pesquisas, exposições, oficinas, festivais culturais e atividades permanentes podem transformar o antigo porto em um espaço de convivência e educação patrimonial.
A expectativa é que a ocupação contínua também fortaleça o turismo histórico do município e gere impactos positivos para o comércio local.
Entre avanços e debates
Apesar dos investimentos realizados, o processo de revitalização também despertou discussões entre moradores e representantes da sociedade civil.
Em 2025, lideranças comunitárias defenderam maior participação popular nas decisões sobre as obras e questionaram algumas intervenções urbanísticas, especialmente em relação à acessibilidade, ao paisagismo e à preservação das características históricas do local. O debate reforçou que revitalizar um patrimônio exige diálogo constante entre poder público, especialistas e comunidade.
Essa participação tende a ganhar ainda mais importância na nova etapa, voltada para a ocupação cultural do espaço.
Preservar para compreender o futuro
Em um país onde boa parte da memória material desaparece sob abandono ou falta de investimento, iniciativas como essa possuem um significado que ultrapassa São Mateus.
Preservar o Porto não significa celebrar apenas seu passado econômico.
Significa reconhecer que ali também ocorreram episódios fundamentais para compreender a formação social brasileira. É permitir que novas gerações conheçam, no próprio território, tanto as conquistas quanto as feridas que ajudaram a construir o Espírito Santo.
A revitalização, portanto, não é apenas uma obra de engenharia ou arquitetura.
É um exercício de memória coletiva.
E, quando universidade, instituições públicas e sociedade caminham juntas, aumenta a chance de que esse patrimônio deixe de ser apenas um cenário do passado para voltar a ocupar um lugar vivo na identidade capixaba.
