A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras não representa apenas uma mudança semântica na forma como Washington enxerga o crime organizado brasileiro. Ela inaugura um novo capítulo na relação entre Brasil e Estados Unidos e abre uma série de dúvidas sobre soberania nacional, segurança, economia e até sobre os limites legais da atuação de políticos brasileiros junto a governos estrangeiros.
O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado norte-americano e passa a valer em junho. A justificativa oficial é que PCC e CV se transformaram em estruturas criminosas transnacionais com capacidade de operar além das fronteiras brasileiras, movimentando drogas, armas, lavagem de dinheiro e redes financeiras clandestinas em diversos países da América Latina e também nos Estados Unidos.
A medida foi comemorada publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que afirmou ter solicitado pessoalmente a Donald Trump, ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio a inclusão das facções na lista de organizações terroristas. O próprio governo americano reconheceu que o tema foi discutido durante encontros realizados em Washington. A designação foi anunciada poucos dias depois das reuniões.
Mas, por trás do discurso de combate ao crime, especialistas em relações internacionais enxergam uma questão mais complexa: quando os Estados Unidos classificam um grupo estrangeiro como terrorista, não estão apenas criando mecanismos financeiros contra ele. Estão construindo uma justificativa jurídica para ampliar sua capacidade de atuação internacional.
Lula reage com dureza e acusa Bolsonaro de estimular interferência estrangeira
A resposta do governo brasileiro foi imediata — e incomumente agressiva no campo diplomático.
Poucas horas após o anúncio de Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a decisão como uma ameaça à soberania nacional e acusou integrantes da família Bolsonaro de atuarem nos Estados Unidos contra os interesses do próprio país.
Durante discurso público, Lula afirmou que o Brasil “não aceitará ser tratado como uma republiqueta” e criticou diretamente o secretário de Estado americano, Marco Rubio, responsável pelo anúncio. O presidente disse que o combate ao crime organizado é responsabilidade das instituições brasileiras e rejeitou qualquer possibilidade de tutela estrangeira sobre a política de segurança nacional.
Nos bastidores, ministros do Palácio do Planalto trataram a medida como um movimento político articulado pela família Bolsonaro junto à administração de Donald Trump. Em nota oficial, o governo classificou como “deplorável” a atuação de parlamentares brasileiros que buscaram apoio estrangeiro para pressionar o próprio Estado brasileiro. O texto afirma que a segurança pública não pode ser utilizada como instrumento de disputa eleitoral nem servir de pretexto para interferências externas.
O tom subiu ainda mais quando Lula acusou o senador Flávio Bolsonaro de praticar uma espécie de “traição à pátria” ao pedir aos Estados Unidos medidas que podem gerar impactos econômicos, financeiros e diplomáticos sobre o Brasil. Segundo o presidente, combater PCC e CV é obrigação permanente do Estado brasileiro, mas permitir que uma potência estrangeira enquadre grupos criminosos nacionais como organizações terroristas cria um precedente perigoso para futuras intervenções.
A preocupação do governo não se limita à retórica diplomática. Técnicos da área econômica passaram a avaliar possíveis reflexos da decisão sobre bancos, investimentos internacionais e sistemas financeiros brasileiros. Integrantes do governo chegaram a mencionar riscos indiretos para operações ligadas ao Pix, diante da ampliação do monitoramento financeiro internacional que costuma acompanhar classificações de terrorismo feitas pelos Estados Unidos.
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, reforçou a posição oficial ao declarar que a cooperação internacional contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e crime organizado é necessária, mas advertiu que “pretexto para intervenção é inaceitável”. A declaração resume o temor central do governo: que a nova classificação abra caminho para futuras ações unilaterais americanas sob o argumento do combate ao terrorismo.
A reação brasileira também tem um componente histórico. Desde a redemocratização, governos de diferentes orientações ideológicas resistiram à tentativa de equiparar facções criminosas a grupos terroristas. O argumento sempre foi o mesmo: terrorismo possui motivação política ou ideológica, enquanto PCC e Comando Vermelho operam principalmente para obtenção de lucro por meio do narcotráfico, da extorsão e de mercados ilegais. Para o Planalto, misturar esses conceitos cria uma brecha jurídica que pode ser utilizada futuramente para justificar sanções econômicas, operações extraterritoriais e aumento da influência americana sobre questões internas do Brasil.
O precedente latino-americano
A experiência de outros países mostra que a classificação de organizações criminosas como terroristas costuma ser acompanhada por aumento da presença operacional dos Estados Unidos.
Foi o que aconteceu com as FARC na Colômbia, durante décadas classificadas como organização terrorista por Washington. O enquadramento serviu de base para o fortalecimento do Plano Colômbia, que envolveu bilhões de dólares em recursos militares, inteligência, treinamento de forças locais e operações conjuntas.
Nos últimos anos, a mesma lógica foi aplicada a cartéis mexicanos. Sob o argumento do combate ao narcoterrorismo, setores do governo Trump passaram a defender operações extraterritoriais, ações de inteligência ampliadas e até ataques contra lideranças criminosas fora do território americano.
É justamente esse histórico que preocupa integrantes do governo brasileiro.
Autoridades brasileiras temem que a classificação do PCC e do CV seja utilizada futuramente como justificativa para pressões diplomáticas, sanções econômicas, monitoramento financeiro de empresas brasileiras e, em cenários extremos, tentativas de intervenção operacional sob a bandeira do combate ao terrorismo.
O risco econômico invisível
A primeira consequência pode não vir pelas armas, mas pelo mercado financeiro.
Quando uma organização entra na lista de terrorismo dos Estados Unidos, qualquer pessoa, empresa ou instituição financeira que mantenha relações consideradas indiretas com ela pode passar a ser investigada ou sancionada.
O problema é que PCC e CV possuem presença territorial em centenas de municípios brasileiros.
Em várias regiões, empresas de transporte, postos de combustíveis, mineradoras, construtoras, fintechs, distribuidoras de gás, provedores de internet e comerciantes convivem diariamente com áreas controladas por facções.
A partir da nova classificação, bancos internacionais e fundos de investimento podem aumentar o nível de cautela ao operar no Brasil.
O temor foi verbalizado pelo próprio Ministério da Fazenda, que reconheceu potenciais impactos sobre investimentos e percepção de risco do país.
O exemplo mais próximo está no México. Em diversos momentos, instituições financeiras reduziram operações em áreas consideradas contaminadas pela influência dos cartéis, receosas de sofrer punições das autoridades americanas.
Terrorismo ou crime organizado?
Outro ponto controverso é a própria definição de terrorismo.
Tradicionalmente, organizações terroristas possuem motivação política, religiosa ou ideológica. Seu objetivo central é pressionar governos ou sociedades por meio do medo e da violência.
PCC e CV praticam atos extremamente violentos, controlam territórios e desafiam o Estado brasileiro. No entanto, pesquisadores da área de segurança pública costumam classificá-los como organizações criminosas voltadas principalmente ao lucro.
A mudança promovida pelos Estados Unidos amplia consideravelmente o conceito tradicional de terrorismo.
Críticos da medida afirmam que essa flexibilização permite que a categoria seja utilizada como instrumento geopolítico, especialmente em disputas internacionais.
A atuação de Flávio Bolsonaro
A participação de Flávio Bolsonaro adicionou um componente político à decisão.
Ao celebrar publicamente a medida e afirmar que atuou para convencer autoridades americanas, o senador colocou em debate uma questão delicada: até onde um parlamentar brasileiro pode atuar junto a uma potência estrangeira para pressionar o próprio Estado brasileiro?
Juristas ouvidos por diversos veículos apontam que a simples defesa pública da medida não configura crime.
Porém, dependendo do conteúdo das negociações realizadas, da eventual existência de informações estratégicas compartilhadas ou de ações destinadas a constranger instituições brasileiras perante governos estrangeiros, poderiam surgir discussões jurídicas envolvendo temas como atuação contra interesses nacionais, improbidade política, interferência em assuntos de soberania nacional ou até questionamentos relacionados à Lei de Segurança Nacional em interpretações mais amplas substituídas pela legislação de defesa do Estado Democrático de Direito.
Até o momento, entretanto, não há acusação formal nem investigação conhecida relacionada à atuação de Flávio Bolsonaro nesse episódio.
O debate sobre as milícias
Outro aspecto que gerou críticas foi a ausência das milícias brasileiras na lista anunciada pelos Estados Unidos.
A exclusão ocorreu apesar de relatórios do Ministério Público, da Polícia Federal e de comissões parlamentares apontarem que grupos milicianos exercem controle armado sobre territórios, exploram atividades econômicas ilegais, praticam extorsão e acumulam influência política em diversas regiões do Rio de Janeiro.
A discussão inevitavelmente remete à família Bolsonaro.
Jair Bolsonaro e seus filhos negam qualquer ligação com milicianos e jamais foram condenados por esse tipo de associação.
Ainda assim, episódios envolvendo pessoas ligadas ao chamado Escritório do Crime alimentam questionamentos há anos.
Entre os fatos frequentemente citados estão homenagens prestadas por integrantes da família Bolsonaro a policiais posteriormente investigados por vínculos com grupos paramilitares, além da proximidade política com figuras que se tornaram alvos de investigações sobre milícias no Rio de Janeiro.
O caso mais conhecido envolve Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope morto em 2020 durante operação policial na Bahia. Antes de se tornar um dos nomes mais associados ao Escritório do Crime, ele recebeu homenagens na Assembleia Legislativa do Rio por iniciativa do então deputado Flávio Bolsonaro. Mãe e ex-esposa de Adriano também trabalharam no gabinete do parlamentar, fato revelado durante as investigações do caso das rachadinhas.
Embora esses episódios tenham sido amplamente explorados politicamente, não resultaram em condenação judicial de Flávio Bolsonaro por ligação com milícias.
Ainda assim, a ausência desses grupos na lista americana gerou questionamentos entre especialistas e setores da oposição, que enxergam uma seletividade política na medida.
O Brasil diante de uma nova doutrina americana
O anúncio de Washington ocorre em um momento de mudança na política externa dos Estados Unidos.
A gestão Trump vem ampliando o uso da categoria “narcoterrorismo” para justificar ações mais agressivas contra organizações criminosas na América Latina.
A estratégia pode aumentar a cooperação internacional contra facções que movimentam bilhões de dólares e espalham violência pelo continente.
Mas também cria um precedente delicado.
Ao permitir que uma potência estrangeira determine quais organizações dentro do território brasileiro devem ser enquadradas como ameaça terrorista global, abre-se uma discussão que vai além da segurança pública.
O debate passa a envolver soberania, influência política, dependência econômica e os limites da atuação internacional sobre problemas que, até agora, eram considerados essencialmente brasileiros.
No curto prazo, PCC e CV enfrentarão mais pressão financeira e maior monitoramento internacional.
No longo prazo, porém, a pergunta que permanece sem resposta é outra: quando uma potência estrangeira passa a definir os inimigos internos de um país, quem controla os limites dessa intervenção?
