O mistério do Sol finalmente começou a ser desvendado? Imagens inéditas revelam “redemoinhos” que aquecem nossa estrela

Divulgação: NASA

Você já parou para pensar no quanto o Sol é bizarro? Ele está ali no céu, brilhando todos os dias, mas esconde um enigma que intrigava os cientistas há mais de meio século.

A lógica diz que, quanto mais longe você se afasta de uma fogueira, mais frio fica o ar. Certo? Pois com o Sol acontece justamente o contrário. A superfície dele gira em torno dos 6.000 °C. Mas a corona — a atmosfera mais externa da estrela — passa facilmente dos milhões de graus.

Parecia uma conta que não fechava. Até agora.

Imagens com um nível de detalhe nunca visto antes, capturadas pelo telescópio solar Daniel K. Inouye, no Havaí, parecem ter encontrado a peça que faltava nesse quebra-cabeça. O estudo, publicado na prestigiada revista Nature, revelou estruturas minúsculas na superfície solar: feixes dourados e redemoinhos de plasma com menos de 20 quilômetros de largura.

Para a escala do Sol, isso é quase como enxergar um grão de areia na praia.

Ondas de plasma no oceano de fogo

Esses redemoinhos não surgiram do nada. Os astrônomos identificaram nas imagens um fenômeno físico conhecido como instabilidade de Kelvin-Helmholtz.

Sabe quando o vento sopra forte sobre a água do mar e forma aquelas ondas perfeitas que se dobram antes de quebrar? Ou quando você despeja leite no café e vê as duas cores se misturarem em espirais? A ideia é exatamente a mesma.

No Sol, isso acontece quando o plasma superaquecido se move em altíssima velocidade ao lado de camadas mais lentas. O atrito entre elas cria um rodamoinho magnético. É como se o campo magnético da estrela fosse trançado como uma corda bem apertada.

E é aí que a mágica — ou melhor, a física — acontece.

Quando essas “tranças” magnéticas se contorcem além do limite, elas se rompem bruscamente. A tensão acumulada se libera de uma só vez, espalhando energia em minúsculas escalas até que ela se transforme em calor puro. É esse processo contínuo que injeta energia na corona e a faz ferver a milhões de graus.

O telescópio no topo do vulcão

Chegar a essa conclusão exigiu o máximo da tecnologia humana. O telescópio Inouye fica no topo do vulcão Haleakalā, na ilha de Maui, e é hoje o observatório solar mais potente do planeta.

Para o cientista Friedrich Wöger, do Observatório Solar Nacional dos Estados Unidos, o feito é histórico. São, sem dúvida, as imagens de maior resolução da superfície do Sol já registradas pela humanidade. O astrônomo David Kuridze, que participou da análise, não escondeu o entusiasmo ao ver os dados pela primeira vez: a reação foi um simples “Uau, como conseguimos enxergar algo tão pequeno?”.

E a descoberta vai muito além de satisfazer a curiosidade dos astrônomos.

Compreender a dinâmica desses campos magnéticos é crucial para a vida aqui na Terra. As tempestades solares — causadas por essas mesmas erupções de energia — têm força suficiente para nocautear redes elétricas, desorientar satélites de GPS e interromper comunicações globais.

Agora, sabendo exatamente onde e como a energia do Sol se acumula antes de explodir, a ciência dá um passo gigante não só para entender a nossa estrela, mas também para nos proteger dos humores dela.