Por Roberto Andrade
A Democracia pressupõe que o cidadão escolha de maneira livre e de acordo com a sua consciência aqueles que deseja que sejam seus representantes. Mas quando um presidente dos Estados Unidos assume claramente que o mundo deve se moldar à ideologia dele ou será punido por isso, seja militar ou economicamente e informa que não tem escrupúlos em interferir nas eleições em outros países, o que isso demonstra?
Nos Estados Unidos estão as sedes e vivem os proprietários das maiores empresas de tecnologia em midias sociais do planeta e todos são constantemente vistos com Donald Trump. Essas chamadas big techs usam suas plataformas para bombardear o cidadão com apenas uma linha de pensamento, enquanto bloqueia qualquer pensamento em contrário e já foi provado que interferiram no livre fluxo de informações afetando eleições.
Em vários países, inclusive o Brasil, magistrados usam suas canetas para divulgar investigações sobre membros de apenas um espectro político, enquanto protegem o outro lado. Isso não começou agora, lembram da Operação Lava Jato quando o então juiz Sergio Moro e o promotor Deltan Dalagnol se associaram para beneficiar Jair Bolsonaro? Prenderam Lula e o mantiveram no noticiário como condenado por meses. Moro virou Ministro da Justiça e Deltan foi eleito Deputado Federal. Depois mostrou-se a farsa e Lula absolvido pôde voltar à cena política.
Nessas eleições temos o mesmo uso dos inquéritos para manter na mídia como investigado o filho do presidente Lula e isso tem um peso claro no noticiário. Jacque Wagner candidato do PT ao Senado é outro que não sai dos noticiários por conta do escândalo do Banco Master. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, candidato do outro espectro político e com ligações documentadas com Daniel Vorcaro quase não aparece no noticiário da grande mídia ligado ao Master. Segue apenas como candidato à presidência. Apesar de a Polícia Federal estar investigando para onde foi o dinheiro que Vorcado deu para o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Nada vaza para a Imprensa sobre o andamento do inquérito que investiga suas ligações e sobre o dinheiro, que até hoje não teve prestação de contas.
Esse é jogo da direita e da extrema direita, usar seus canais de poder para através de informação e contra informação influenciar o pensamento do eleitor.
Fazem isso quando políciais e militares usam suas associações e linhas de comando para divulgar apenas uma ideologia; quando religiosos se aproveitam da boa fé dos fiéis para demonizar apenas uma corrente de pensamento; quando a mídia oculta de seus leitores suas preferências e escondida sob uma falsa insenção divulga informações que atingem a apenas um grupo político. Tudo é um jogo articulado e é ingênuo quem pensa que esses atores que caminham nas sombras não conversam entre si. Jantares em residências com convidados especiais ajustam estratégias e movimentam as peças que irão convergir num resultado específico.
Nenhum desses atores, isoladamente, decide uma eleição. Juntos, porém, influenciam decisivamente o ambiente em que ela acontece.
O que isso mostra? Hoje, uma eleição pode ser tecnicamente impecável e, ainda assim, deixar milhões de pessoas com a sensação de que disputaram uma corrida em que alguns largaram muitos metros à frente dos demais. Não porque as urnas tenham sido fraudadas, mas porque o ambiente que antecedeu ao voto passou a ser o verdadeiro campo de batalha da política.
Durante boa parte do século XX, derrubar uma democracia exigia tanques nas ruas, quartéis mobilizados e a suspensão explícita das liberdades. No século XXI, esse roteiro mudou. Os tanques deram lugar aos algoritmos. Os generais dividiram espaço com plataformas digitais. A censura aberta foi substituída pela inundação seletiva de informações. E a batalha mais importante passou a ocorrer antes mesmo de o eleitor chegar à cabine de votação.
As evidências acumuladas na última década mostram que eleições em diferentes partes do mundo deixaram de ser disputadas apenas entre candidatos. Elas passaram a ser alvo de campanhas internacionais de influência, operações de desinformação, manipulação algorítmica, uso estratégico de inteligência artificial e pressões exercidas por atores econômicos e políticos que muitas vezes transcendem as fronteiras nacionais.
Não se trata mais de episódios isolados. Trata-se de uma transformação estrutural da democracia contemporânea.
A informação tornou-se a principal arma política
O escândalo da Cambridge Analytica mostrou que milhões de perfis foram utilizados para direcionar propaganda política personalizada. Investigações nos Estados Unidos concluíram que a Rússia promoveu campanhas coordenadas para influenciar a eleição presidencial de 2016. Desde então, relatórios da União Europeia, da OTAN, da ONU e de centros independentes passaram a registrar operações semelhantes atribuídas também a outros Estados, incluindo China e Irã. O objetivo raramente é convencer toda a população. Basta aprofundar divisões, aumentar a polarização e reduzir a confiança nas instituições. A democracia não precisa ser destruída. Basta ser suficientemente desacreditada.
As Big Techs tornaram-se atores políticos globais
As maiores plataformas digitais do planeta concentram um poder sem precedentes na história da comunicação. São empresas privadas capazes de decidir, por meio de algoritmos, quais conteúdos alcançarão centenas de milhões de pessoas e quais permanecerão praticamente invisíveis.
Embora essas empresas afirmem que seus sistemas buscam melhorar a experiência dos usuários e combater abusos, pesquisadores vêm demonstrando que os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos capazes de gerar maior engajamento — frequentemente os mais polarizadores, emocionais ou controversos. Essa dinâmica altera o ambiente em que o eleitor constrói sua percepção da realidade.
Quando proprietários dessas plataformas assumem posições políticas explícitas ou defendem a intervenção em debates eleitorais internacionais, surge inevitavelmente uma questão de soberania: até que ponto democracias nacionais podem permanecer independentes quando parte relevante de sua esfera pública está sob controle de empresas sediadas em outros países? E esses proprietários são amigos ou aliados de um presidente que claramente quer moldar o mundo ao gosto dele.?
O poder das instituições depende da confiança
Nenhuma democracia funciona sem instituições fortes. Mas instituições fortes não significam instituições infalíveis. Sempre que decisões judiciais, investigações, operações policiais ou atos administrativos passam a ser percebidos por parcelas expressivas da sociedade como seletivos, instala-se um problema que vai além do caso concreto.
A legitimidade institucional depende tanto da imparcialidade quanto da percepção pública dessa imparcialidade. A confiança, uma vez perdida, dificilmente é recuperada.
A política entrou nas igrejas, nos quartéis e nas redações
Outro fenômeno marcante das democracias contemporâneas é o desaparecimento das antigas fronteiras entre política e instituições sociais.
Lideranças religiosas passaram a participar de campanhas eleitorais de forma cada vez mais intensa. Associações de militares e policiais frequentemente manifestam posições políticas públicas. Veículos de comunicação são acusados de selecionar pautas segundo preferências editoriais.
Ao mesmo tempo, grupos políticos de diferentes orientações passaram a construir seus próprios ecossistemas de mídia, reduzindo o espaço para um debate compartilhado.
O resultado é uma sociedade em que diferentes grupos já não discordam apenas das opiniões uns dos outros. Discordam dos próprios fatos. Daí a proliferação das Fake News como instrumento de desinformação política, contaminando de forma absurda o debate político.
A liberdade pode ser reduzida sem que ninguém perceba
A democracia pressupõe liberdade de escolha. Mas liberdade de escolha não existe quando o ambiente informacional é sistematicamente distorcido. Se algoritmos priorizam determinados conteúdos e campanhas coordenadas inundam redes sociais; se governos estrangeiros tentam influenciar eleições e operações de desinformação substituem o debate racional; se a confiança nas instituições desaparece. Então a pergunta deixa de ser apenas quem venceu uma eleição.
Passa a ser outra, muito mais profunda: até que ponto o eleitor realmente escolheu de forma livre?
A democracia continua existindo. Mas mudou de campo de batalha.
A grande ilusão do nosso tempo é imaginar que a democracia morre apenas quando tanques cercam o Congresso ou quando eleições deixam de existir. A direita brasileira percebeu que errou ao tentar o golpe usando a força e com a ajuda da direita internacional tenta outro método: unir-se, mentir e destruir o debate.
As democracias podem continuar realizando eleições regulares, mantendo tribunais, parlamentos e constituições enquanto, silenciosamente, o espaço onde a opinião pública é formada vai sendo capturado por interesses econômicos, tecnológicos, políticos e geopolíticos.
Essa captura não ocorre necessariamente por um único ator nem por uma conspiração centralizada. Ela resulta da convergência de incentivos: plataformas que lucram com engajamento, governos que buscam ampliar influência, grupos políticos que exploram a polarização, setores econômicos que financiam narrativas e organizações capazes de mobilizar milhões de pessoas.
O maior risco para as democracias do século XXI talvez não seja a fraude na contagem dos votos.
É a manipulação sistemática das condições em que esses votos são formados.
Porque uma eleição só é verdadeiramente livre quando também é livre o caminho percorrido pelo cidadão até a urna. E essa liberdade, hoje, tornou-se o bem mais disputado da política mundial.
Essa não é uma teoria conspiratória. Basta olhar para o que ocorreu nos últimos dez anos.
Os Estados Unidos investigaram a interferência russa na eleição de 2016. A União Europeia criou novas regras para enfrentar campanhas digitais de influência. Diversos países passaram a monitorar operações estrangeiras de desinformação. O escândalo da Cambridge Analytica revelou como dados pessoais foram utilizados para direcionar propaganda política em escala inédita. As maiores democracias do planeta discutem, hoje, o poder político acumulado pelas Big Techs.
Ou seja, a interferência sobre eleições deixou de ser exceção. Tornou-se um problema permanente das democracias contemporâneas. E Trump e a direita e a extrema-direita internacional entenderam isso rapidamente. Com bilhões de dólares no bolso e poder tecnológico começaram a atacar as democracias e conquistar governos. Basta olhar para a América Latina.
A fim da regras
Quando metade do país passa a acreditar que o jogo eleitoral não é igual para todos os envolvidos; que há regras que favorecem um lado e perseguem outro, mesmo sem consenso sobre essa percepção, instala-se um problema político de enormes proporções.
É nesse ponto que a democracia deixa de ser apenas um sistema de votação e passa a depender da qualidade do ambiente informacional.
No Brasil as eleições de 2026 estão claramente contaminadas por esse jogo. A cada momento, uma notícia busca levar à polarização. Trump retira o visto da embaixadora brasileira; Milei chama Lula de Ladrão; Eduardo Bolsonaro visita Marco Rubio; Mendonça entra em conflito com Superintendente da Polícia Federal; Flavio Bolsonaro diz que urnas não são confiáveis; pesquisa mostra que Flávio está crescendo e se aproximando de Lula. Nada é por acaso.
O maior risco do século XXI é o cidadão chegar à urna depois de meses submetido a uma disputa desigual de narrativas, algoritmos, campanhas digitais, interesses econômicos e decisões institucionais cuja coerência ele já não consegue enxergar. O Brasil está vivendo isso nesse momento.
Democracia e confiança são como unha e carne. A democracia sobrevive de votos. A confiança da percepção dos fatos confirmados. Ela não se impõe por decisão judicial, por manchetes, por algoritmos ou por discursos oficiais.
Ela precisa ser conquistada todos os dias, pela coerência das instituições, pela transparência de seus atos e pela convicção de que critérios semelhantes serão aplicados a todos, independentemente do sobrenome, do partido ou do governo de ocasião.
Quando essa confiança desaparece, a eleição continua existindo. A democracia, porém, começa a perder sua substância. E é essa a batalha que vamos travar em 2026: pela alma do nosso país.
