O dinheiro que manda na economia dos Estados Unidos hoje não vem mais do trabalho da maioria das pessoas. Ele brota do capital — lucros corporativos, ações e tecnologia — deixando a renda do trabalhador para trás. Essa mudança está remodelando o mercado, ampliando desigualdades e levantando perguntas graves sobre o futuro do emprego, dos salários e da própria demanda na economia.
Capital x Trabalho: uma divisão cada vez maior
Dados recentes mostram que o “capital share” — a parcela da renda nacional que vai para acionistas, empresas e detentores de ativos — cresceu fortemente nas últimas décadas. Enquanto isso, a quota da renda que vai para os trabalhadores (salários e benefícios) caiu para níveis historicamente baixos. Segundo estatísticas oficiais dos EUA, essa participação do trabalho na renda caiu para cerca de 53,8% do Produto Interno Bruto no terceiro trimestre de 2025, o menor nível desde que os registros começaram, na década de 1940.
Esse movimento não é um acidente do ciclo econômico. É estrutural — resultado de décadas de tecnologia, globalização e mudanças institucionais que ampliaram a vantagem do capital sobre a força de trabalho.
A lógica da nova economia: tecnologia e eficiência
Nos últimos 40 anos, empresas conseguem gerar mais valor com menos empregados. Gigantes tecnológicas como Nvidia exemplificam essa tendência: valor de mercado altíssimo e proporcionalmente poucos trabalhadores diretamente envolvidos na produção. Isso porque modelos baseados em software, dados e inteligência artificial escalam sem aumentar emprego.
Essa “economia capital-light” é altamente lucrativa e reforça a concentração de riqueza em mãos de acionistas e executivos de topo. Mesmo quando o PIB cresce, os salários não acompanham o ritmo dos lucros corporativos, deixando a maioria da população com uma fatia cada vez menor do que produzem coletivamente.
O papel da inteligência artificial
A inteligência artificial acelera ainda mais esse descompasso. Pesquisas apontam que, na medida em que a IA é adotada, trabalhos repetitivos e mesmo tarefas especializadas podem ser automatizados. Trabalhadores com alto nível educacional ou habilidades específicas tendem a captar ganhos, enquanto o restante enfrenta riscos de deslocamento ou estagnação salarial.
Ao mesmo tempo, a IA impulsiona produtividade e lucros — reflexo que beneficia mais os detentores de capital do que quem depende de salários.
Desigualdade em crescimento
O impacto dessa dinâmica vai além das contas empresariais. Quando a renda do trabalho tem participação menor no total, a desigualdade de renda tende a crescer. Estudos acadêmicos mostram que aumentos na parcela do capital estão associados a maior desigualdade da renda superior — especialmente entre os mais ricos — e menor mobilidade para a maioria da população.
Nos Estados Unidos e em várias economias desenvolvidas, a concentração de riqueza nas mãos de um pequeno grupo é consistente com essa mudança de regime econômico.
Por que isso importa?
A diminuição da participação do trabalho na renda tem efeitos econômicos e sociais profundos:
1. Menor poder de compra dos trabalhadores
Quando salários não crescem na mesma proporção que os lucros, a capacidade de consumo da maioria diminui, o que pode frear o crescimento econômico no médio prazo.
2. Tensão política e social
Desigualdades crescentes alimentam frustrações e polarizações políticas. Movimentos por salários dignos, tributação de grandes fortunas e reformas fiscais ganham força nos debates públicos.
3. Redefinição do contrato social
Economistas discutem se modelos tradicionais de emprego e proteção social ainda respondem à realidade de uma economia em que o trabalho humano contribui menos para o crescimento total. Reformas em educação, tributação e redistribuição podem ser necessárias para mitigar os impactos mais duros dessa transição.
O que vem pela frente
Especialistas sugerem que sem políticas públicas que incentivem uma distribuição mais equitativa da renda, a economia pode entrar em um ciclo difícil: mais capital concentrado, menos renda para trabalhadores, consumo estagnado e maior fragilidade do sistema econômico. A adoção de tecnologias como IA continuará a influenciar essa dinâmica, pressionando ainda mais os trabalhadores tradicionais.
É um momento de escolha: fortalecer a participação do trabalho na economia com políticas e instituições renovadas ou aceitar um modelo em que a riqueza está firmemente centralizada no capital.
A situação no Brasil
No Brasil, o movimento é semelhante, embora com características próprias. Dados do IBGE e de estudos do Ipea indicam que a participação dos salários na renda nacional também vem encolhendo ao longo dos últimos anos, especialmente após a pandemia. Mesmo em períodos de crescimento do PIB, os ganhos ficaram concentrados em setores intensivos em capital, como o financeiro, o agronegócio de larga escala e grandes grupos industriais. Para o trabalhador médio, o reflexo tem sido outro: renda pressionada, informalidade elevada e dificuldade real de recuperação do poder de compra.
A automação e o uso crescente de tecnologias digitais ampliam esse descompasso. Empresas conseguem produzir mais com menos gente, enquanto milhões de brasileiros seguem presos a ocupações de baixa remuneração ou vínculos frágeis, como aplicativos e trabalho intermitente. O resultado é um país onde o lucro cresce mais rápido do que o salário, aprofundando desigualdades históricas. Sem políticas que fortaleçam a renda do trabalho — seja por qualificação, inovação inclusiva ou redistribuição — o risco é cristalizar um modelo econômico que cresce nos números, mas falha em melhorar a vida da maioria.
