Há uma contradição presente há décadas em parte das igrejas neopentecostais brasileiras. Ao mesmo tempo em que condenam o candomblé, a umbanda e outras religiões de matriz africana, algumas delas incorporaram aos cultos práticas e uma linguagem muito próximas do universo religioso que combatem. O ritual do terreiro reaparece dentro do templo com outro nome e outro significado.
O fenômeno não é novo nem se baseia apenas na comparação entre cerimônias religiosas. Antropólogos, sociólogos e pesquisadores das religiões estudam há anos a relação entre o neopentecostalismo e as tradições afro-brasileiras. Um dos trabalhos mais conhecidos é do antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, professor da USP, que identificou uma relação de confronto, mas também de proximidade, entre esses grupos.
O caso mais estudado é o da Igreja Universal do Reino de Deus. Pesquisas mostram que seus cultos passaram a usar práticas como sessões de descarrego e retirada de encostos, além de objetos e substâncias aos quais são atribuídas funções espirituais. Água, sal, óleo, rosas e ervas aparecem em cerimônias de proteção, cura ou libertação. Esses elementos não pertencem exclusivamente às religiões de matriz africana. O que chama a atenção dos pesquisadores é a forma como são usados junto com uma linguagem que remete diretamente ao universo religioso afro-brasileiro.
Uma tese de doutorado do pesquisador Célio de Pádua Garcia, apresentada à Pontifícia Universidade Católica de Goiás, analisou justamente as apropriações e mudanças de significado de elementos afro-brasileiros pela Igreja Universal. Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes. Práticas reconhecidas no universo das religiões de matriz africana são incorporadas, recebem uma interpretação cristã e passam a fazer parte do combate às próprias crenças das quais se aproximam.
A sessão de descarrego é um dos exemplos mais claros. A possessão também permanece presente, mas a entidade passa a ser apresentada como demônio. Exus, pombagiras, encostos, trabalhos e despachos entram no vocabulário do culto para serem combatidos. Para expulsar Exu, no entanto, é preciso reconhecer sua presença dentro da narrativa religiosa. Para desfazer um “trabalho”, é preciso atribuir a ele algum poder. A religião que se pretende negar acaba fornecendo personagens e parte da linguagem usada para combatê-la.
A Igreja Universal rejeita essa interpretação. Dentro de sua visão religiosa, práticas aparentemente semelhantes às encontradas nas religiões afro-brasileiras têm fundamento bíblico e fazem parte da chamada batalha espiritual. É uma explicação teológica. Os estudos de antropologia e ciências da religião, porém, mostram outra coisa: existe uma relação histórica de aproximação, incorporação e mudança de significado entre esses universos religiosos.
Isso não significa que qualquer semelhança seja apropriação. O Brasil tem uma longa história de mistura e circulação de práticas religiosas. Catolicismo popular, crenças indígenas, tradições africanas, espiritismo e diferentes grupos cristãos se influenciaram durante séculos. Nenhuma religião brasileira importante se desenvolveu completamente isolada das demais.
A diferença está na forma como essa influência é tratada. Uma coisa é incorporar práticas de outra tradição religiosa. Outra é fazer isso enquanto essa mesma tradição é apresentada aos fiéis como manifestação do mal. Parte do neopentecostalismo absorveu elementos reconhecíveis do universo afro-brasileiro, deu a eles outros nomes e significados e, ao mesmo tempo, continuou condenando candomblé, umbanda e seus símbolos.
A palavra “macumba”, usada no título deste artigo, ajuda a mostrar essa contradição, mas precisa ser colocada em seu devido lugar. Ela não é sinônimo de candomblé ou umbanda e teve diferentes significados ao longo da história. No uso comum, porém, tornou-se também uma expressão depreciativa usada para classificar práticas de origem africana. É nesse sentido que aparece aqui: aquilo que durante anos foi chamado de “macumba” por seus adversários acabou, em parte, reproduzido e transformado dentro dos templos.
A discussão seria apenas religiosa se terminasse aí. Não termina. As religiões de matriz africana estão entre os principais alvos de denúncias de intolerância religiosa no Brasil. Dados do Disque 100 e pesquisas feitas com comunidades de terreiro registram agressões, ameaças, depredações e ataques nas redes sociais. Não é possível atribuir esses crimes ao conjunto dos neopentecostais, muito menos dos evangélicos. Fazer essa generalização seria incorreto.
Também não se pode ignorar o peso do discurso. Discordar de uma religião faz parte da liberdade de crença. Um cristão pode considerar errada a doutrina do candomblé, assim como um praticante do candomblé não precisa aceitar a doutrina cristã. O problema começa quando uma religião inteira, seus símbolos e suas entidades são apresentados de forma permanente como forças malignas que precisam ser combatidas.
Há ainda uma questão histórica. As religiões de matriz africana foram perseguidas durante décadas no Brasil. Terreiros sofreram ações policiais, objetos religiosos foram apreendidos e cerimônias foram tratadas como caso de polícia. Essa perseguição atingia religiões ligadas principalmente à população negra. É por essa razão que pesquisadores e integrantes dessas comunidades usam também a expressão racismo religioso para definir parte da violência sofrida hoje.
Nada disso autoriza colocar todos os evangélicos no mesmo grupo. Nem mesmo o neopentecostalismo é um bloco único. Há diferenças importantes entre igrejas e existem pastores e comunidades evangélicas que defendem publicamente a liberdade de culto e condenam ataques aos terreiros. Os estudos sobre incorporação de práticas afro-brasileiras se concentram em determinados grupos, com destaque para a Igreja Universal.
Feita essa distinção, permanece um fato difícil de contornar. Parte do neopentecostalismo brasileiro combate há anos religiões com as quais mantém uma relação muito mais próxima do que admite. Incorporou práticas, palavras e símbolos, mudou seus significados e colocou esse repertório a serviço de outra fé.
O problema não está na influência. Religiões sempre influenciaram umas às outras. Está em negar essa influência enquanto se condena quem ajudou a construí-la. A “macumba” que alguns aprenderam a demonizar do lado de fora ganhou outros nomes quando atravessou a porta do templo. Neopentecostais se tornaram neomacumbeiros.
