O dia 25 amanhece diferente. Você sente isso antes mesmo de abrir os olhos completamente. A casa ainda guarda o cheiro da ceia de ontem — aquela fartura que cada família conseguiu reunir, seja muito ou pouco, mas sempre com capricho. Peru ou chester, farofa, arroz à grega, as sobras da mesa generosa que celebrou a véspera. E agora, na manhã seguinte, tem movimento novo: passos descalços correndo pelo corredor, papel de presente rasgado sem cerimônia nenhuma, gritinhos de surpresa. As crianças acordam cedo — muito cedo — porque Papai Noel passou. Ele veio durante a noite, enquanto todo mundo dormia, e deixou os presentes embaixo da árvore. Aquele carrinho pedido, a boneca sonhada, o jogo que estava na cartinha. E tem aquele sorriso — meio bobo, meio menino — que só o Natal consegue arrancar da gente, em qualquer idade. É manhã de 25 de dezembro, quando o mundo tira o pé do acelerador por algumas horas e a gente se pergunta, ainda com cara de sono: por que essa data nos toca tanto?
Na raiz de tudo está um menino chamado Jesus. Ele não nasceu em berço de ouro, não teve festa de lançamento, nenhum presente embrulhado esperando por ele. Chegou ao mundo numa estrebaria improvisada, cercado de palha e simplicidade. E mesmo assim — ou talvez exatamente por isso — trouxe consigo uma mensagem que atravessou dois mil anos sem perder a potência: amor ao próximo, generosidade sem esperar retorno, perdão que liberta. No meio da correria que domina os outros 364 dias do ano, o Natal insiste em sussurrar que a fé não precisa de holofotes. Ela é discreta, íntima. Mas quando encontra chão fértil, transforma.

E aí, na mesma manhã, tem as crianças procurando sinais do outro protagonista: Papai Noel. O velhinho de barba branca que, dizem, passou pela casa durante a noite e deixou presentes embaixo da árvore. Por trás do personagem de roupa vermelha e trenó voador, existe uma história real: a de São Nicolau, um bispo turco do século IV que ficou conhecido por ajudar famílias pobres em segredo, sem alarde, sem selfie. Com o passar dos séculos, ele ganhou renas, gorro, propaganda de refrigerante e virou símbolo global do Natal. Principalmente do lado mais comercial dele — aquele que a gente critica, mas que também faz parte da festa.
Entre o presépio na estante e a árvore piscando na sala, o Natal acontece justamente aí: no intervalo. Jesus nos convida a olhar para dentro, a repensar quem somos e como vivemos. Papai Noel nos empurra para fora, para o gesto de dar, de surpreender, de fazer o olho de alguém brilhar. Um traz profundidade, o outro traz leveza. Um propõe transformação, o outro cria encanto — sobretudo para quem ainda tem idade (ou coração) para acreditar que milagres podem caber dentro de uma caixa embrulhada.
Nesta manhã de 25 de dezembro, talvez a gente não precise escolher um lado. Dá para ter fé e fantasia na mesma sala. O sagrado e o lúdico podem sentar à mesma mesa. O problema nunca foi ganhar presente — é esquecer por que estamos presenteando. Não é o comércio em si — é quando ele toma o lugar inteiro que deveria ser ocupado pelo afeto, pela presença, pelo “eu pensei em você”.

Quando o papel já virou confete no chão, o café começa a gorgolejar na cozinha e a casa finalmente desperta por completo, sobra o que realmente importa: gente. O encontro real, sem filtro. A mesa farta (ou simples, tanto faz), o abraço apertado, a conversa que não tem pressa de acabar. O Natal não mora no trenó nem fica guardado só na manjedoura. Ele acontece no gesto que fica, naquilo que a gente leva no peito depois que as luzes se apagam e a rotina volta.
Papai Noel passa uma vez por ano, deixa o presente e vai embora. Jesus, se a gente abrir a porta, fica. Finca raiz. Vira companhia para os dias cinzentos de janeiro, fevereiro, o ano inteiro.
E talvez essa seja a melhor notícia que esta manhã de Natal tem para nos dar: que o melhor presente não vem embrulhado. Ele vem vivo.
