Tem aluno que nunca saiu da própria cidade e agora vai dormir fora de casa pela primeira vez, só para ver um foguete que ele mesmo construiu subir no céu. Tem professor que separou parte das férias para acompanhar a turma numa viagem de ônibus de mais de dez horas. Tem escola pública do interior competindo lado a lado com colégio particular de capital, sem distinção nenhuma. E tem, no meio disso tudo, um objetivo simples: mostrar que ciência também se aprende com as mãos sujas de terra e os olhos fixos no horizonte. É esse o clima que toma conta, a partir desta segunda-feira (3), do Hotel Fazenda Ribeirão, em Barra do Piraí, no interior do Rio de Janeiro, palco da Jornada de Foguetes 2026.
Uma disputa que já dura o ano inteiro
A Jornada não nasceu do nada. Ela é a etapa final de uma corrida que começou lá atrás, em maio, quando milhares de estudantes de escolas públicas e privadas, urbanas e rurais, disputaram a Olimpíada Brasileira de Foguetes (Obafog) — uma das modalidades da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), uma das maiores competições científicas voltadas a crianças e adolescentes no país.
Só que nem todo mundo chega até aqui. As equipes precisam ter se destacado nos lançamentos do dia 15 de maio para ganhar o convite. E o critério não é pouco: segundo o regulamento da própria olimpíada, só avançam os times cujos foguetes ultrapassaram distâncias como 90 ou 100 metros, dependendo do modelo utilizado — ou, no caso dos projetos mais avançados, apogeus acima de 50 metros de altura. De cada escola, apenas os três melhores times seguem adiante.
No total, 18 equipes de todo o país vão passar pela experiência ao longo dos próximos meses. Dezesseis delas competem entre agosto e dezembro deste ano; as duas restantes fecham o calendário só em fevereiro de 2027, entre os dias 22 e 25. A primeira leva chega a Barra do Piraí já nesta segunda e fica até quinta-feira, dia 6.
Muito mais do que subir um foguete
Quem pensa que os alunos vão apenas apertar um botão e assistir o lançamento se engana. É o que garante o coordenador da OBA e da Obafog, o astrônomo e professor João Batista Garcia Canalle, que conhece a fundo cada detalhe da iniciativa. Para ele, reduzir a Jornada a uma disputa por troféu é não entender o que realmente está em jogo ali.
“Não é uma simples competição. Os estudantes lançam foguetes, são premiados. Saem com troféus de campeão, vice-campeão, menção honrosa. O importante é que aprendem a fazer outros tipos de foguetes e comunicação oral, quando expõem o foguete e a base que construíram e trouxeram”, contou Canalle à Agência Brasil.
E o aprendizado começa literalmente com a mão na massa — ou melhor, com a mão no vinagre e no bicarbonato de sódio. As turmas do ensino médio vão construir e lançar foguetes usando essa reação química clássica, que libera gás e impulsiona o projétil para cima. Já os estudantes do sexto ao nono ano do ensino fundamental trabalham com uma versão mais simples, movida a água e ar comprimido. É ciência de verdade, mas explicada de um jeito que qualquer criança consegue enxergar acontecendo diante dos olhos.
Durante os dias de evento, os participantes ainda passam por oficinas de construção e lançamento de dois modelos inéditos de foguete, um deles equipado com sistema eletrônico que solta o paraquedas automaticamente na descida. Também assistem a palestras de equipes universitárias que já constroem foguetes de grande porte — um contato direto com quem, mais adiante, pode se tornar colega de profissão.
Canalle resume bem o que espera ver quando a Jornada terminar: “Eles saem sabendo muito mais do que quando chegaram. Isso é muito importante.”
Como vai funcionar a programação
A logística já está em movimento. A equipe organizadora viaja para Barra do Piraí neste domingo (2), um dia antes da chegada oficial de alunos e professores. A cerimônia de abertura acontece na segunda-feira, das 20h às 22h, e é ali que os participantes já colocam a mão em projetos mais complexos, envolvendo eletrônica e sistemas de paraquedas.
Nos dias seguintes, a rotina é intensa: atividades das 8h às 22h. Só na quinta-feira o ritmo muda — o expediente vai até o meio-dia, horário reservado para a entrega de prêmios às equipes vencedoras.
Fora da parte técnica, a proposta é transformar o evento numa imersão completa no universo espacial. Segundo Canalle, alunos e professores também vão observar o céu à noite, participar de sessões de planetário e acompanhar de perto os lançamentos — uma experiência sensorial que dificilmente se replica dentro de uma sala de aula convencional.
Quem está por trás da iniciativa
A Jornada de Foguetes é organizada pela Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). O projeto também conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Centro Universitário Facens, do BTG Pactual, da Bizu Space e da Força Aérea Brasileira — uma rede de instituições públicas e privadas que sustenta, ano após ano, uma das ações mais consolidadas de popularização da ciência espacial entre jovens no Brasil.
Vale lembrar o tamanho do fenômeno que alimenta essa jornada final. Só em 2025, a OBA reuniu mais de 1,5 milhão de participantes e distribuiu 90.856 medalhas em todo o país. A Obafog, por sua vez, teve mais de 330 mil inscritos e entregou 25.868 medalhas — números que ajudam a entender por que chegar a Barra do Piraí é motivo de orgulho para qualquer estudante, não importa de onde ele venha.
Enquanto isso, lá fora, o interesse pelo espaço segue crescendo junto com projetos como a missão Artemis, que promete devolver o ser humano à Lua nos próximos anos. Para Canalle, esse tipo de notícia funciona quase como combustível extra para a curiosidade da garotada — o tipo de motivação que nenhuma aula expositiva sozinha consegue provocar. </br>
