Exame fora do colesterol de rotina pode revelar risco oculto de infarto e AVC

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Lipoproteína(a) é determinada principalmente pela genética, costuma não provocar sintomas e está elevada em cerca de uma em cada cinco pessoas.

Um exame de sangue ainda pouco conhecido pode revelar um risco cardiovascular que passa despercebido até mesmo em pessoas com resultados aparentemente normais nos testes tradicionais de colesterol. Trata-se da dosagem da lipoproteína(a), conhecida pela sigla Lp(a), uma partícula presente no sangue cuja concentração depende principalmente da genética e está associada a maior probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outras doenças cardiovasculares.

O problema é simples de entender, mas fácil de ignorar. A Lp(a) não costuma ser medida no exame de colesterol feito rotineiramente. O perfil lipídico convencional informa, entre outros dados, os níveis de LDL, HDL e triglicerídeos. Uma pessoa pode, portanto, passar anos acompanhando o colesterol sem saber que apresenta uma concentração elevada de Lp(a).

Essa lacuna ganhou importância em 2026. Uma nova diretriz elaborada pelo American College of Cardiology e pela American Heart Association passou a recomendar que a Lp(a) seja medida pelo menos uma vez durante a vida adulta. A orientação reflete o avanço das evidências sobre o papel dessa lipoproteína como fator independente de risco cardiovascular.

A Sociedade Europeia de Cardiologia segue uma linha semelhante. A atualização europeia sobre dislipidemias recomenda considerar a dosagem pelo menos uma vez na vida adulta. Além disso, classifica valores acima de 50 mg/dL como clinicamente relevantes na avaliação do risco.

Risco pode existir sem qualquer sintoma

A Lp(a) transporta colesterol pelo sangue e possui características que favorecem a formação de placas nas artérias, processos inflamatórios e alterações relacionadas à coagulação. Quando se acumula, pode contribuir para a aterosclerose, doença na qual placas estreitam progressivamente os vasos sanguíneos.

O perigo está justamente no silêncio. Cerca de 20% da população apresenta níveis elevados de Lp(a), segundo a American Heart Association. Na maioria das vezes, não há dor, mal-estar ou qualquer outro sinal que permita desconfiar do problema antes do aparecimento de uma complicação cardiovascular.

Os números ajudam a dimensionar o risco. A associação americana considera elevada uma concentração a partir de 125 nanomoles por litro — aproximadamente 50 mg/dL, embora as duas unidades não sejam diretamente intercambiáveis em todos os indivíduos. Nesse patamar, o risco cardiovascular de longo prazo aumenta. Em torno de 250 nmol/L, a probabilidade de infarto ou AVC pode chegar ao dobro daquela observada em pessoas com concentrações menores, dependendo também dos demais fatores de risco.

Isso não significa que alguém com Lp(a) alta necessariamente terá um infarto. O resultado precisa ser interpretado junto com idade, pressão arterial, colesterol LDL, diabetes, tabagismo, histórico familiar e outros elementos que influenciam a saúde cardiovascular.

A genética tem papel decisivo

Há outra característica que diferencia a Lp(a) do colesterol convencional. Seus níveis são determinados, em grande parte, pelos genes e costumam permanecer relativamente estáveis ao longo da vida. Por isso, para a maioria das pessoas, uma única medição pode ser suficiente para identificar esse fator de risco.

A indicação ganha ainda mais importância entre pessoas com histórico familiar de doença cardiovascular precoce, casos conhecidos de Lp(a) elevada na família ou hipercolesterolemia familiar. Quando um resultado muito alto é identificado, médicos também podem recomendar exames em parentes próximos, já que a característica pode ser herdada.

A alimentação, o exercício físico e a perda de peso, fundamentais para a saúde do coração, têm pouco efeito direto sobre a concentração da Lp(a). Isso não diminui a importância desses hábitos. O motivo é outro: mesmo quando não reduzem a lipoproteína, eles ajudam a controlar outros fatores capazes de se somar ao risco genético.

É exatamente aí que conhecer o resultado muda a prevenção.

Uma pessoa que descobre ter Lp(a) elevada pode precisar de acompanhamento mais atento do LDL, da pressão arterial, do diabetes, do peso e do tabagismo. Em alguns casos, o médico também pode avaliar o uso de medicamentos para reduzir o colesterol e diminuir o risco cardiovascular global.

Ainda não existe tratamento específico comprovado

A descoberta de uma Lp(a) elevada traz uma questão inevitável: existe tratamento?

Até agora, não há medicamento aprovado especificamente com comprovação de que reduzir a Lp(a) também diminua infartos e AVCs. Por isso, a estratégia atual concentra-se principalmente no controle rigoroso dos fatores de risco que podem ser modificados, especialmente o colesterol LDL.

Medicamentos utilizados contra o colesterol, como os inibidores da PCSK9, podem produzir alguma redução da Lp(a), além de baixar significativamente o LDL. Mas uma nova geração de terapias está sendo desenvolvida para agir diretamente sobre a produção da lipoproteína.

Entre as substâncias em estudos avançados estão pelacarsen, olpasiran e lepodisiran. Ensaios clínicos anteriores mostraram reduções expressivas dos níveis de Lp(a), chegando a mais de 90% em algumas pesquisas. A pergunta decisiva, porém, continua sendo investigada: diminuir drasticamente a concentração da partícula também evitará infartos, AVCs e mortes cardiovasculares?

Os resultados desses estudos poderão mudar de forma importante a prevenção cardiovascular nos próximos anos. Até lá, especialistas alertam para uma diferença fundamental: não ter atualmente uma terapia específica não significa que conhecer a Lp(a) seja inútil. O exame permite identificar pessoas que talvez precisem controlar com mais rigor tudo aquilo que pode ser controlado.

Um exame que pode mudar a avaliação de risco

Durante décadas, boa parte da prevenção cardiovascular ficou concentrada em números conhecidos do público, sobretudo o LDL, chamado popularmente de colesterol ruim. A Lp(a) acrescenta uma camada diferente à avaliação porque revela um risco que pode estar presente desde o nascimento e permanecer invisível nos exames tradicionais.

É justamente essa característica que explica a mudança das diretrizes médicas.

Para a maioria dos adultos, trata-se de um exame feito uma única vez. O resultado não substitui os testes de colesterol nem determina sozinho se alguém terá doença cardíaca. Mas pode revelar que aquela pessoa aparentemente saudável carrega um fator de risco adicional — e que talvez seja melhor descobri-lo antes que o primeiro sinal seja um infarto ou um AVC.