EUA celebram 250 anos de independência sob calor extremo, apagamento histórico e isolamento internacional

Imagem: Gemini AI

A data que simboliza o nascimento daquela que já foi chamada de ‘a maior democracia presidencial do mundo’ chegou cercada por contrastes difíceis de ignorar. O aniversário de 250 anos da independência dos Estados Unidos reúne multidões, fogos de artifício e cerimônias históricas, mas também expõe um país dividido política e socialmente — e uma celebração que, cada vez mais, carrega a marca pessoal de um único homem: o presidente Donald Trump.

Neste 4 de julho de 2026, milhões de americanos celebram o chamado Semiquincentenário da independência em meio a uma das ondas de calor mais intensas já registradas para a data, a um ambiente de forte polarização política, a uma disputa aberta sobre quem tem o direito de contar a história do país e a um isolamento diplomático crescente dos Estados Unidos em relação a seus aliados tradicionais. Tudo isso enquanto o país é, simultaneamente, palco da fase decisiva da Copa do Mundo da Fifa, marcada por denúncias de perseguição a imigrantes, torcedores e até árbitros.

Uma celebração histórica em um momento delicado

Em 4 de julho de 1776, as Treze Colônias aprovaram a Declaração de Independência, rompendo oficialmente os laços com o Império Britânico e dando origem aos Estados Unidos. Dois séculos e meio depois, o país preparou uma das maiores comemorações de sua história, com desfiles, apresentações culturais, encenações, festivais gastronômicos, shows, exibições militares e espetáculos de fogos espalhados pelo país — com maior concentração em Washington, Nova York, Filadélfia e Boston.

Mas o simbolismo da data acabou capturado por uma disputa política que atravessa praticamente todas as decisões nacionais desde a posse de Trump para o segundo mandato: o que deve — e o que não deve — ser lembrado sobre a formação dos Estados Unidos.

Calor extremo muda a programação

Se a história já garantia um dia memorável, o clima tratou de torná-lo ainda mais excepcional. Uma intensa onda de calor atingiu grande parte da costa leste americana justamente durante as festividades: em Washington, os termômetros ultrapassaram os 39°C, com sensação térmica próxima dos 46°C.

As consequências foram imediatas. O tradicional desfile de 4 de julho na capital foi cancelado por questões de segurança. A Grande Feira Americana (Great American State Fair) precisou interromper temporariamente suas atividades depois que dezenas de pessoas apresentaram sintomas relacionados ao calor, com diversos atendimentos médicos e hospitalizações. Outras cerimônias, como a tradicional leitura pública da Declaração de Independência, foram transferidas para ambientes fechados. Autoridades meteorológicas mantiveram alertas de calor extremo para milhões de pessoas em diversos estados.

O espelho d’água que virou piada nacional — e custou milhões

Nenhum símbolo resume melhor a “marca pessoal” que Trump imprimiu ao aniversário quanto a reforma do espelho d’água do Lincoln Memorial, no National Mall — o mesmo espaço onde Martin Luther King Jr. discursou em 1963.

Em abril, Trump anunciou pessoalmente o projeto, dizendo ter se inspirado após um amigo alemão comentar que o local estava “sujo” e “detonado”. Segundo o próprio presidente, a obra ficaria pronta em duas semanas, custaria entre US$ 1,5 milhão e US$ 2 milhões, e deixaria o fundo do espelho d’água pintado de um tom de “azul bandeira americana” — em vez da opção, orçada em cerca de US$ 300 milhões, de trocar todo o granito histórico da estrutura, que remonta a 1922.

A realidade foi bem diferente. O custo do projeto praticamente octuplicou, chegando a US$ 16 milhões, em meio a um calor e umidade típicos de junho em Washington que provocaram uma proliferação de algas verdes na superfície recém-pintada. Uma segunda empresa precisou ser contratada, usando tecnologia de “nanobolhas” para neutralizar as algas — um reparo emergencial que sozinho custou US$ 1,7 milhão e que, segundo relatos, acabou descascando parte da nova pintura azul. Uma organização de preservação histórica chegou a processar o governo, alegando que a cor escolhida contraria documentos históricos que especificam um acabamento escuro, pensado para criar a “ilusão de maior profundidade” na reflexão da água — daí o nome “espelho d’água”. Ironicamente, a reforma de 2012, mais abrangente, havia custado US$ 34 milhões ao longo de dois anos — hoje o novo projeto, menor em escopo, já consumiu quase metade desse valor por causa dos contratempos.

O episódio virou símbolo de um padrão mais amplo do segundo mandato: decisões pessoais e pouco planejadas de Trump sobre monumentos e espaços públicos de Washington — incluindo a construção de um salão de baile na Casa Branca, sem consulta ao Congresso, a historiadores ou a órgãos de preservação, que, inicialmente foi anunciado como sem custos para o contribuinte, mas que agora, sabe-se, vai tirar mais de um bilhão de dólares dos cofres públicos e do bolso dos americanos.

A tentativa de reescrever quem foi escravizado, quem resistiu e quem construiu o país

Paralelamente às celebrações, a Casa Branca conduz uma ofensiva sistemática contra a forma como museus, parques nacionais e sítios históricos federais retratam a escravidão, o racismo e a luta pelos direitos civis — uma campanha que ganhou urgência redobrada justamente por causa do aniversário de 250 anos.

Em agosto de 2025, Trump determinou que seus advogados revisassem o acervo do Smithsonian, alegando que os museus enfatizavam demais “o quão ruim foi a escravidão” e pouco falavam sobre “sucesso” e “conquistas” do país. A Casa Branca chegou a divulgar uma lista com 20 exposições consideradas ideologicamente “divisivas”, a maioria vinculada ao Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana (NMAAHC). Em março de 2026, um decreto presidencial atribuiu ao vice-presidente JD Vance o poder de revisar toda a programação do Smithsonian e remover o que a Casa Branca classifica como “ideologia imprópria”.

Os efeitos já são concretos. O Serviço de Parques Nacionais recebeu ordens para retirar painéis e sinalizações sobre escravidão em diversos parques históricos, incluindo a remoção da fotografia conhecida como “The Scourged Back” — o registro das cicatrizes nas costas de um homem que fugiu da escravidão — e informações sobre o ataque abolicionista de John Brown em Harpers Ferry. No President’s House Site, na Filadélfia — onde o próprio George Washington manteve pessoas escravizadas enquanto ocupava a presidência —, painéis sobre escravidão foram retirados por ordem federal em janeiro de 2026, provocando forte reação de historiadores e da comunidade local. Um estudo do governo sobre uma antiga região de plantations na Louisiana, reconhecida por sua “integridade excepcional” para contar a história do sistema escravista, foi retirado da lista de possíveis tombamentos históricos.

O simbolismo chegou até o calendário de acesso gratuito aos parques nacionais: em 2026, o Dia da Bandeira — que coincide com o aniversário de Trump — passou a ser data de entrada gratuita, enquanto o Dia de Martin Luther King Jr. e o Juneteenth (que celebra o fim da escravidão nos EUA) foram excluídos da lista, algo que não ocorria no ano anterior. Artefatos emprestados ao museu afro-americano, como uma bíblia usada por Martin Luther King Jr., também foram devolvidos a seus proprietários originais em meio à pressão federal sobre a instituição — oficialmente por “rotação de rotina”, mas em um momento que alimenta o clima de apreensão entre curadores e pesquisadores negros.

Organizações como a Associação para o Estudo da Vida e História Afro-Americana (ASALH) classificam o movimento como uma tentativa de reescrever a narrativa nacional, removendo qualquer menção a atos racistas que moldaram a história do país. Críticos comparam a estratégia — que inclui ainda a revisão de currículos escolares e a possível proibição de livros como “O Projeto 1619” nas lojas de museus federais — a episódios históricos de apagamento cultural por regimes autoritários.

Tarifaço: da “Independência Econômica” ao caos nos mercados

O segundo mandato de Trump também foi marcado por uma guerra comercial ampla, batizada por ele mesmo de “Dia da Libertação”, que impôs tarifas de importação entre 11% e 50% sobre dezenas de países a partir de abril. A medida provocou retaliação imediata do Canadá, da China e da União Europeia, além de negociações emergenciais de outros parceiros comerciais para evitar sanções adicionais.

O tarifaço contribuiu para a redução das projeções de crescimento do PIB americano feitas pelo Federal Reserve e pela OCDE, além de elevar as expectativas de recessão. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que a lei usada por Trump para justificar as tarifas — a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, de 1977 — na verdade não autorizava esse tipo de medida, um revés jurídico para a Casa Branca. Ainda assim, o governo seguiu ajustando alíquotas ao longo do ano, criando exceções pontuais para parceiros como Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Argentina e a própria União Europeia em produtos específicos de aço e alumínio — um sinal de que a política tarifária segue sendo usada como instrumento de barganha diplomática, e não apenas econômica.

O afastamento dos aliados históricos

Enquanto celebra a independência em casa, Washington enfrenta um dos momentos de maior desconfiança com seus aliados tradicionais em décadas. A tensão diplomática com a Dinamarca por causa do interesse declarado de Trump em comprar a Groenlândia segue sem solução. No início do conflito militar dos EUA com o Irã em meados de 2026, Trump pediu apoio naval de aliados da Otan para reabrir o Estreito de Ormuz — e recebeu uma sequência pública de recusas: Alemanha, Grécia, Itália e outros países europeus rejeitaram o pedido, alegando que a ação unilateral americana no Oriente Médio não configurava uma missão da aliança. Trump chegou a ameaçar a Otan com um “futuro muito ruim” caso os aliados não colaborassem, e se declarou publicamente “decepcionado” com a Europa, com a Otan e com o primeiro-ministro britânico Keir Starmer.

Como reflexo dessa erosão de confiança mútua, Trump anunciou a retirada de milhares de soldados americanos da Alemanha, medida que abalou a confiança alemã na parceria militar e alimentou especulações sobre o futuro da própria aliança. Em fevereiro, o “Conselho da Paz” criado por Trump para tratar da reconstrução de Gaza reuniu delegações de dezenas de países, mas teve a ausência notável de praticamente toda a Europa e do Canadá — um retrato simbólico do isolamento diplomático que acompanha o aniversário de 250 anos.

Tarifas, deportações e a Copa do Mundo que ninguém queria manchar

Se o tarifaço afeta a relação econômica dos EUA com o mundo, a política migratória tem afetado diretamente o maior evento esportivo do planeta, que os Estados Unidos sediam neste momento ao lado de México e Canadá: a Copa do Mundo da Fifa de 2026.

Levantamento da Human Rights Watch mostra que, entre janeiro de 2025 e março de 2026, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) prendeu 167 mil pessoas apenas nas 11 cidades americanas que sediam partidas do torneio. A Anistia Internacional e mais de 100 organizações de direitos humanos emitiram alertas de viagem explícitos para torcedores, jogadores e dirigentes, citando risco de discriminação racial na fronteira e revistas invasivas. Uma pesquisa com hotéis das cidades-sede constatou reservas de turistas muito abaixo do esperado.

Entre os episódios mais emblemáticos está o do árbitro somali Omar Artan, escalado pela Fifa para atuar no torneio, que teve sua entrada negada em Miami mesmo com passaporte e visto válidos — um fato sem precedentes na história das Copas do Mundo, incluindo edições sediadas por regimes autoritários no passado. Cerca de um quarto das seleções classificadas para o torneio enfrenta algum tipo de restrição de visto ou proibição de viagem imposta pelo governo Trump. Organizações de direitos humanos também documentaram a detenção de um imigrante em um estádio enquanto assistia a um jogo com os filhos, a prisão de atletas durante treinamentos e a deportação de um jovem jogador para Honduras no mesmo dia de sua formatura no ensino médio.

Não existe, segundo entidades de direitos humanos, qualquer orientação oficial que impeça agentes do ICE de atuar dentro ou nos arredores dos estádios durante os jogos — o que levou coalizões de torcedores e grupos civis a pressionar patrocinadores do torneio por uma espécie de “trégua” informal da imigração enquanto durar a competição. Das 104 partidas do Mundial, 78 acontecem em território americano, incluindo toda a fase eliminatória a partir das quartas de final — ou seja, justamente a etapa mais decisiva da Copa ocorre no país onde a entrada de estrangeiros é hoje mais incerta.

Patriotismo em meio à divisão

As celebrações também evidenciam um sentimento recorrente entre muitos americanos: o orgulho pelo país convive com preocupações sobre o futuro da democracia. Nas ruas de Washington, visitantes afirmam que o aniversário representa liberdade religiosa, direitos civis e oportunidades econômicas. Outros lamentam que um momento histórico esteja sendo ofuscado pela polarização política, pelas disputas ideológicas e pelo clima de confronto permanente entre democratas e republicanos. Pesquisas recentes mostram que a confiança nas instituições permanece baixa, cenário refletido até nas comemorações da independência.

Segurança reforçada e tensão nas ruas

O forte esquema de segurança é outro traço marcante das comemorações: ruas bloqueadas em Washington, barreiras cercando monumentos históricos e milhares de agentes federais acompanhando os eventos. A presença de integrantes do grupo extremista Patriot Front marchando nas proximidades do Capitólio aumentou a tensão durante parte das celebrações, enquanto autoridades monitoram possíveis manifestações políticas em áreas de grande concentração de público.

Uma data que convida à reflexão

Embora o espetáculo visual continue impressionando milhões de pessoas, o aniversário de 250 anos revela um país que celebra sua trajetória olhando simultaneamente para o passado e para um futuro cercado de desafios — e que, sob o comando de Trump, tem optado por editar boa parte desse passado em vez de enfrentá-lo.

Os Estados Unidos seguem sendo uma das maiores potências econômicas, militares e tecnológicas do planeta. Mas questões como polarização política, apagamento histórico, imigração, tarifas, desconfiança dos aliados e desigualdade social aparecem hoje como alguns dos principais testes para a democracia americana. O Semiquincentenário, assim, não representa apenas uma comemoração histórica: funciona como espelho — tão instável e verde quanto o do Lincoln Memorial — de um país que segue influenciando o mundo inteiro enquanto tenta responder a uma pergunta que atravessa gerações: como preservar os ideais proclamados em 1776 com um presidente que, claramente, usa a Casa Branca para estabelecer seu conceito pessoal de mundo e usufruir da Presidência enriquecendo a si e sua família, diante de toda uma nação?