Ebola avança rapidamente no Congo e supera 2,5 mil mortes em três meses

A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) já matou 2.516 pessoas e avança em ritmo acelerado pelo leste do país. Dados divulgados nesta sexta-feira (21) pelas autoridades de saúde registram 5.290 casos desde que o surto foi declarado, em 15 de maio. A crise já é a maior enfrentada pelo país em número de casos e superou a epidemia de 2018 a 2020, até então a mais grave da história congolesa.

A velocidade de propagação preocupa as autoridades sanitárias. Metade das mortes ocorreu apenas nos últimos 20 dias, segundo Julien Harneis, coordenador sênior da ONU para o Ebola. A área atingida já é maior que a França e alcança seis províncias do leste do Congo: Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé.

O surto é provocado pelo vírus Ebola Bundibugyo, uma variante para a qual ainda não existe vacina ou tratamento especificamente aprovado. O país deverá receber 70 mil doses da vacina Ervebo, desenvolvida contra outra espécie do vírus. Desse total, 20 mil doses serão destinadas a um ensaio clínico e 50 mil à proteção de profissionais de saúde e trabalhadores da linha de frente, diante de indícios preliminares de que a vacina possa oferecer algum nível de proteção contra a variante atual.

A resposta também enfrenta dificuldades para identificar e acompanhar as cadeias de transmissão. Dados reunidos pela Associated Press mostram que menos de 10% dos casos detectados têm ligação conhecida com pessoas que estavam sendo monitoradas. Especialistas estimam ainda que apenas uma parcela das infecções esteja sendo identificada, o que aumenta o risco de circulação silenciosa do vírus entre comunidades e regiões.

Os profissionais de saúde estão entre os grupos mais atingidos. Em três meses, 160 trabalhadores da área contraíram Ebola e 43 morreram. Além do risco de contaminação, equipes médicas enfrentam ataques, destruição de ambulâncias e agressões em comunidades onde o medo da doença, a desinformação e a desconfiança em relação às autoridades dificultam o atendimento.

A epidemia ocorre em uma região marcada por décadas de conflitos armados, deslocamentos populacionais e serviços públicos precários. A mobilidade de moradores, inclusive de trabalhadores de áreas de mineração artesanal, torna o rastreamento de contatos ainda mais difícil. Problemas no sistema bancário também têm atrasado pagamentos às equipes que trabalham no combate à doença.

O financiamento é outro ponto crítico. A Organização Mundial da Saúde informou nesta semana que cerca de 60% dos US$ 115 milhões necessários para sua resposta haviam sido obtidos. Apesar do avanço da epidemia, a OMS avalia que ainda é possível controlar o surto nos próximos meses, desde que sejam ampliados rapidamente os recursos, o rastreamento de casos e a capacidade de atendimento.