Número de separações envolvendo brasileiros com 60 anos ou mais aumentou 80,5% em dez anos; Estados Unidos e países europeus também registram mudança no perfil etário dos divorciados.
O número de divórcios envolvendo pessoas com 60 anos ou mais cresceu no Brasil na última década, em um movimento que também vem sendo observado nos Estados Unidos e em países europeus. Dados das Estatísticas do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que foram registrados 49.936 divórcios nessa faixa etária em 2013. Em 2023, foram 90.150. O aumento foi de 80,5% em dez anos.
O crescimento do número absoluto de separações não significa, porém, que a taxa de divórcio entre idosos tenha aumentado na mesma proporção. A população brasileira envelheceu durante o período, ampliando o número de pessoas com 60 anos ou mais. Para medir a probabilidade de divórcio seria necessário considerar também o número de pessoas casadas em cada faixa etária.
Ainda assim, séries históricas do IBGE indicam mudanças no comportamento dos brasileiros mais velhos. Em 1984, a taxa de divórcio entre mulheres com 60 anos ou mais era de 0,31 para cada mil mulheres casadas dessa idade. Em 2004, havia aumentado para 1,30 por mil. Em 2014, chegou a 1,47 por mil.
As taxas permaneciam inferiores às observadas entre pessoas de meia-idade. Em 2014, por exemplo, os maiores índices femininos estavam concentrados principalmente entre 35 e 49 anos. Portanto, os dados não permitem afirmar que os idosos sejam o grupo que mais se divorcia no Brasil. Eles mostram, no entanto, que as separações se tornaram mais frequentes nessa parcela da população.
Brasil registrou mais de 428 mil divórcios em 2024
O Brasil registrou 428.301 divórcios em 2024, segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE. Desse total, 350.407 ocorreram pela via judicial e 77.894 foram realizados por meio de escrituras extrajudiciais.
O número representou uma redução de 2,8% em comparação com 2023, quando foram contabilizados 440.827 divórcios. A queda ocorreu depois de dois anos consecutivos de crescimento.
A idade média dos brasileiros no momento do divórcio também aumentou. Em 2024, os homens tinham, em média, 44,1 anos quando se divorciaram. Entre as mulheres, a média era de 41 anos.
Há diferenças regionais. No Sul, a idade média no divórcio chegou a 45,4 anos entre os homens e 42,5 anos entre as mulheres. No Sudeste, onde está o Espírito Santo, as médias foram de 44,2 e 41,4 anos, respectivamente.
Esses números não representam especificamente os divórcios de pessoas idosas, mas ajudam a mostrar o perfil etário das separações no país.
Fenômeno é chamado de “divórcio grisalho”
Pesquisadores utilizam a expressão gray divorce, ou “divórcio grisalho”, para estudar separações ocorridas em idades mais avançadas. A definição mais utilizada nos estudos acadêmicos inclui pessoas com 50 anos ou mais, embora pesquisas recentes também analisem separadamente aqueles que passaram dos 65.
Uma das principais pesquisadoras do assunto é a socióloga Susan Brown, da Bowling Green State University, nos Estados Unidos. Brown e a pesquisadora I-Fen Lin acompanham há anos as mudanças nas taxas de divórcio entre americanos mais velhos.
Estudo das pesquisadoras mostrou que a taxa de divórcio entre americanos com 50 anos ou mais dobrou entre 1990 e 2010. Pesquisas posteriores identificaram diferenças dentro desse próprio grupo. O crescimento passou a se concentrar principalmente entre pessoas com 65 anos ou mais.
Atualmente, cerca de quatro em cada dez pessoas que se divorciam nos Estados Unidos têm 50 anos ou mais. Aproximadamente uma em cada dez tem pelo menos 65 anos.
A mudança ocorre enquanto os divórcios diminuem entre adultos americanos mais jovens. Por isso, pesquisadores consideram o envelhecimento das separações uma transformação específica na estrutura familiar do país, e não simplesmente consequência de um aumento geral dos divórcios.
Inglaterra e País de Gales também registraram aumento
Dados oficiais da Inglaterra e do País de Gales mostram movimento semelhante nos números absolutos.
Entre 2005 e 2015, o total de divórcios caiu 28%. No mesmo período, o número de homens com 65 anos ou mais que se divorciaram aumentou 23%. Entre as mulheres dessa faixa etária, o crescimento chegou a 38%.
A análise do Office for National Statistics (ONS), responsável pelas estatísticas oficiais britânicas, acrescenta uma ressalva importante. Quando o crescimento da população idosa e do número de pessoas casadas nessa faixa etária é considerado, a taxa de divórcio dos maiores de 65 anos apresentou estabilidade relativa no período analisado.
A diferença entre número absoluto e taxa é relevante também para a análise brasileira. Países que passam por um processo acelerado de envelhecimento terão naturalmente mais pessoas idosas casadas e, consequentemente, um universo maior de possíveis separações.
Pesquisas realizadas em outros países europeus também identificaram crescimento dos divórcios em idades mais avançadas. Estudos encontraram mudanças em países como Noruega, Suécia, França, Holanda e Áustria, embora a intensidade varie de acordo com o período e a população analisados.
Maior expectativa de vida é uma das explicações
O aumento da longevidade está entre os fatores apontados pelos pesquisadores para explicar as separações em idades mais avançadas.
Pessoas que chegam aos 60 ou 65 anos atualmente têm uma expectativa de vida maior do que gerações anteriores. Isso amplia o período de convivência depois da aposentadoria e depois que os filhos deixam a residência familiar.
Outro fator estudado é a chamada síndrome do ninho vazio. A saída dos filhos modifica a organização doméstica e reduz atividades que durante anos fizeram parte da rotina do casal.
A aposentadoria também pode alterar a convivência. Pessoas que permaneciam separadas durante grande parte do dia devido ao trabalho passam a compartilhar mais tempo e atividades dentro de casa.
Pesquisadores também apontam mudanças culturais. O divórcio tornou-se socialmente mais aceito nas últimas décadas e pessoas que chegam atualmente à terceira idade tiveram maior contato com separações ao longo da vida adulta.
Além disso, segundos casamentos apresentam historicamente maior risco de divórcio do que primeiras uniões. Parte da população que hoje chega aos 60 ou 70 anos já passou por uma separação e constituiu outra família, o que também influencia as estatísticas.
Autonomia financeira das mulheres influencia separações
A maior participação feminina no mercado de trabalho é outro fator analisado em pesquisas sobre o divórcio em idades avançadas.
As mulheres que atualmente chegam aos 60 anos tiveram participação profissional maior do que as gerações anteriores. Renda própria, aposentadoria e patrimônio individual podem reduzir a dependência econômica dentro do casamento.
No Brasil, dados do Registro Civil mostram que as mulheres têm participação relevante na iniciativa das separações litigiosas. Em 2023, cerca de 60% dos divórcios não consensuais foram requeridos por mulheres.
O percentual abrange todas as idades e, portanto, não pode ser utilizado para afirmar que as mulheres iniciam a maioria dos divórcios depois dos 60. Ele indica, entretanto, uma mudança na participação feminina nos processos de separação.
A antropóloga Mirian Goldenberg, que pesquisa envelhecimento e relações de gênero no Brasil, relaciona parte das mudanças observadas entre mulheres mais velhas à ampliação da autonomia financeira e à redução da obrigação social de permanecer casada.
Divórcio tardio pode ter impacto financeiro maior
As consequências econômicas da separação também mudam de acordo com a idade.
Pessoas que se divorciam aos 60 ou 70 anos têm menos tempo para recompor patrimônio e poupança. A separação pode exigir a divisão de imóveis, investimentos, aposentadorias e outros bens acumulados durante décadas.
Nos Estados Unidos, pesquisa de Susan Brown e I-Fen Lin encontrou impacto econômico maior entre as mulheres. O estudo estimou queda média de 45% no padrão de vida feminino após o divórcio em idades mais avançadas. Entre os homens, a redução foi de aproximadamente 21%.
A diferença está relacionada, entre outros fatores, à desigualdade salarial acumulada ao longo da vida profissional e aos períodos em que mulheres permaneceram fora do mercado de trabalho para cuidar dos filhos ou da família.
O divórcio tardio também pode modificar as redes familiares de apoio. Pesquisas americanas identificaram efeitos sobre a relação entre pais idosos e filhos adultos, inclusive na prestação de cuidados durante o envelhecimento.
Tema começa a ser discutido no Espírito Santo
No Espírito Santo, o chamado divórcio grisalho também passou a ser abordado no campo jurídico.
A advogada e pesquisadora Patricia Novais Calmon, mestre em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), publicou estudos sobre divórcio tardio e seus efeitos no Direito das Famílias e da Pessoa Idosa.
Entre as questões jurídicas envolvidas estão divisão patrimonial, pensão, aposentadoria, sucessão, moradia e organização dos cuidados necessários durante o envelhecimento.
Os dados públicos disponíveis nesta apuração, entretanto, não permitem estabelecer uma taxa recente específica de divórcio entre pessoas com 60 ou 65 anos ou mais no Espírito Santo. Por isso, não é possível afirmar que o crescimento observado no conjunto do Brasil tenha ocorrido na mesma proporção entre os capixabas.
Casamentos depois dos 60 também aumentaram
O crescimento dos divórcios não ocorre isoladamente. O número de casamentos envolvendo brasileiros mais velhos também aumentou.
Dados do Registro Civil mostram que aproximadamente 60 mil casamentos envolveram pessoas com mais de 60 anos em 2018. Em 2022, foram cerca de 75 mil, crescimento próximo de 23%.
Os dois movimentos mostram mudanças nas formas de relacionamento na população idosa. Pessoas mais velhas estão se divorciando, mas também iniciando novas uniões.
As estatísticas disponíveis não sustentam a afirmação de que pessoas com mais de 60 ou 65 anos já se divorciam mais do que os adultos mais jovens no Brasil. Também não permitem concluir que o aumento observado seja uniforme entre diferentes países.
O que os levantamentos do Brasil, dos Estados Unidos e de países europeus indicam é o crescimento da participação das pessoas mais velhas nas separações e uma mudança no comportamento conjugal de gerações que permanecem por mais tempo na vida adulta e na velhice.
