Deputados e Senadores aprovas aumento de privilégios para servidores do Legislativo federal

Austeridade para os outros, aumentos de gastos para si: o Congresso e a arte de contradizer o próprio discurso.

Deputados e senadores adoram subir à tribuna — ou às redes sociais — para repetir o mesmo refrão: o Brasil gasta demais, o Estado é inchado, o Executivo precisa “fazer o dever de casa”. Falam em ajuste fiscal com a convicção de quem se coloca como fiscal severo do dinheiro público. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para dentro do próprio Congresso para perceber o paradoxo. Ou melhor: a hipocrisia.

Enquanto cobram contenção de gastos do governo federal, os mesmos parlamentares aprovam, sem constrangimento, medidas que ampliam privilégios e criam novas brechas para o dinheiro público escorrer sem controle. Foi assim com as emendas parlamentares — muitas delas envoltas em opacidade, critérios políticos nebulosos e baixa rastreabilidade. E agora, mais uma vez, é assim com o pacote de reajustes, gratificações e benefícios concedidos aos servidores da Câmara e do Senado.

O reajuste aprovado não é apenas uma correção inflacionária ou uma reorganização técnica de carreiras. Ele cria gratificações generosas, permite indenizações fora do teto constitucional e institui uma licença compensatória que, na prática, fere o espírito do limite salarial do funcionalismo público. É o velho truque dos “penduricalhos”: o teto permanece no papel, mas a remuneração real passa tranquilamente por cima dele.

E então vem o detalhe que transforma o debate em algo quase caricatural. Em um país onde milhões de trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, o Congresso aprova para si e para sua estrutura uma lógica de trabalho que prevê até um dia de folga a cada três dias trabalhados. Uma escala que, se apresentada para o setor privado ou para serviços essenciais, seria tratada como delírio. Curiosamente, esse mesmo Parlamento se recusa até a discutir seriamente o fim da escala 6×1, realidade dura para trabalhadores do comércio, da indústria e dos serviços.

Você já percebeu como o discurso muda conforme o interesse? Quando o tema é salário mínimo, aposentadoria ou política social, a palavra da vez é “responsabilidade fiscal”. Quando o assunto envolve o próprio Congresso, o ajuste vira flexível, criativo, quase elástico. O dinheiro aparece. As regras se dobram. O teto vira sugestão.

O argumento usado para justificar os benefícios é sempre o mesmo: a complexidade do trabalho legislativo, a necessidade de quadros qualificados, o ritmo intenso das votações. Tudo isso pode até ser verdadeiro. Mas não explica por que esse reconhecimento nunca vem acompanhado de transparência absoluta, debate público amplo e, principalmente, coerência com o discurso de austeridade imposto aos outros Poderes e à sociedade.

O Congresso se comporta como um condomínio de luxo que exige corte de gastos na cidade inteira, mas não abre mão da piscina aquecida, do jardineiro extra e da segurança privada reforçada. A conta, claro, fica para o contribuinte — o mesmo que escuta sermões sobre sacrifícios necessários para equilibrar o país.

No fim das contas, o problema não é apenas o valor do reajuste ou o número de dias de folga. O problema é o recado político. Quando deputados e senadores ampliam privilégios enquanto cobram ajuste fiscal, eles não apenas drenam recursos públicos: corroem a confiança, alimentam o cinismo e aprofundam a distância entre o Estado e a população.

E depois se perguntam, com ar perplexo, por que tanta gente já não acredita em quase nada do que sai de Brasília.