A Copa do Mundo de 2026 começa hoje (quinta-feira (11)) cercada pela atmosfera festiva que apenas o futebol é capaz de criar. Durante as próximas semanas, bilhões de pessoas acompanharão gols, celebrações, rivalidades históricas e histórias de superação espalhadas por estádios nos Estados Unidos, México e Canadá.
Mas, por trás da festa que promete unir torcedores de todos os continentes, existe uma contradição política difícil de ignorar. O principal anfitrião do torneio é um país que endureceu a perseguição a imigrantes, ampliou deportações e transformou a segurança nas fronteiras em uma de suas principais bandeiras políticas. E à frente desse país está um homem que sonha há anos em ser reconhecido como um promotor da paz mundial, mas bombardeia escolas e mata meninas iranianas e ataca a infraestrutura do país e deixa milhares sem água.
Donald Trump nunca escondeu sua obsessão pelo Prêmio Nobel da Paz. Ao longo dos últimos anos, repetiu inúmeras vezes que merecia a honraria, citando negociações diplomáticas, acordos internacionais e iniciativas que, segundo ele, ajudaram a reduzir conflitos pelo mundo. Durante a campanha que o levou de volta à Casa Branca, prometeu que seu segundo mandato seria marcado pelo fim das guerras, não pelo início de novas. Apresentou-se como um negociador nato, alguém capaz de sentar adversários à mesa e produzir resultados onde outros líderes haviam fracassado. Disse, inclusive, que acabaria a guerra entre a Ucrânia e a Rússia no primeiro dia de mandato. Mentiu e viu o Nobel ir para a venezuelana Maria Corina Machado (que, vergonhosamente, foi até a Casa Branca presentear Trump com a medalha do Nobel).
No lugar do Nobel surgiu algo que muitos enxergaram como uma pífia e risível compensação. Às vésperas da Copa do Mundo, a FIFA criou uma inédita premiação ligada à promoção da paz e a entregou justamente ao presidente americano. O gesto foi celebrado por aliados de Trump, mas recebeu críticas imediatas de organizações de direitos humanos, jornalistas e especialistas em governança esportiva. Para os críticos, havia algo de profundamente desconfortável em ver a maior entidade do futebol mundial homenagear um líder político num momento em que sua política externa estava cada vez mais associada a imagens de destruição e sofrimento humano.
A ironia se tornou ainda mais evidente porque o prêmio chegou justamente quando os conflitos no Oriente Médio voltavam a ocupar as manchetes globais. Enquanto Trump era fotografado recebendo uma homenagem relacionada à paz, Gaza continuava acumulando ruínas, mortes e denúncias internacionais. O apoio político, militar e diplomático oferecido pelos Estados Unidos às operações israelenses colocou a Casa Branca no centro de um debate que já ultrapassou a esfera militar e entrou definitivamente no campo jurídico e moral. Organizações humanitárias, especialistas da ONU e diversos governos passaram a questionar não apenas as ações de Israel, mas também o papel desempenhado por seus aliados mais próximos.
Ao mesmo tempo, a escalada militar envolvendo o Irã trouxe novos elementos para essa discussão. Entre os episódios que provocaram indignação internacional estão os ataques que atingiram uma escola de meninas e instalações ligadas ao abastecimento de água da população civil. As imagens que emergiram desses episódios percorreram o mundo e alimentaram questionamentos sobre os limites da guerra moderna. Para juristas especializados em direito internacional humanitário, ataques contra estruturas civis essenciais e locais frequentados por crianças estão entre os temas mais sensíveis analisados por organismos internacionais. Israel e EUA têm atacado sistematicamente alvos civis como estratégia militar.
É nesse ponto que a narrativa construída por Trump começa a colidir com uma realidade menos confortável. O presidente que voltou ao poder prometendo encerrar conflitos e evitar novas guerras agora vê seu governo associado a operações militares que despertam pedidos de investigação e cobranças por responsabilização internacional. Ninguém sabe até onde essas discussões poderão chegar. O que já está claro, porém, é que a imagem do pacificador global passou a conviver com outra muito menos favorável: a de um líder acusado por críticos de oferecer respaldo político a ações que produziram algumas das cenas mais chocantes dos conflitos recentes; ameaçar “retirar da face da terra” milhões de pessoas e atacar alvos civis, matando estudantes.
A contradição ganha contornos quase cinematográficos justamente hoje, quando a Copa do Mundo abre suas portas ao planeta. Os discursos oficiais falarão de união entre povos, respeito mútuo, diversidade e convivência pacífica. Jogadores entrarão em campo representando nações que muitas vezes estão separadas por disputas políticas, religiosas e culturais profundas. O futebol, mais uma vez, tentará vender a ideia de que existem espaços onde as diferenças podem ser deixadas de lado. Mas a hipocrisia será revelada nos telejornais noturnos que exibirão imagens da cerimônia de abertura e alegria dos gols junto com imagens de bombardeios e notícias de mais civis mortos, atacados, exatamente, por um dos anfitriões da Copa e seus aliados.
Como conciliar o discurso da paz com o apoio a campanhas militares que deixaram rastros de destruição? Como celebrar a integração entre os povos em um país que transformou a repressão à imigração em uma de suas principais marcas políticas? E como sustentar a imagem de candidato ao Nobel da Paz quando organizações humanitárias discutem possíveis responsabilidades por ações que atingiram civis?
Talvez nenhuma dessas perguntas tenha resposta imediata. Mas elas estarão presentes durante todo o Mundial.
Quando a bola começar a rolar, Donald Trump certamente aparecerá sorrindo diante das câmeras, cercado pela grandiosidade do maior evento esportivo do planeta e carregando consigo um prêmio de paz criado pela FIFA. Ainda assim, por trás das cerimônias, dos discursos e das fotografias cuidadosamente produzidas, continuará existindo uma sombra que nem mesmo a festa do futebol consegue esconder: a distância cada vez maior entre o legado de paz que ele gostaria de construir e as guerras que insistem em acompanhar seu nome.
