A manipulação das vontades pelas big techs: uma ameaça real à democracia

Nas Eleições 2026, o TSE será comandado por Nunes Marques e André Mendonça, dois ministros indicados por Bolsonaro e que podem liberar as redes sociais para influenciar o pleito.

O papel das grandes plataformas digitais nos processos eleitorais deixou de ser tema periférico e passou a ocupar o centro do debate democrático. Evidências acumuladas ao longo da última década indicam que redes sociais e empresas de tecnologia exercem influência direta sobre a circulação de informações, a formação da opinião pública e o ambiente político, especialmente em períodos eleitorais.

Empresas como Meta, Google, X (antigo Twitter) e TikTok concentram parcela significativa do debate público contemporâneo. Seus sistemas determinam quais conteúdos ganham visibilidade, quais narrativas se espalham e quais temas permanecem à margem. Essa intermediação não é neutra: trata-se de poder informacional exercido por corporações privadas, guiadas por interesses econômicos claros e operando sem controle democrático efetivo.

Big techs e interesses políticos convergentes

As plataformas digitais não atuam como partidos políticos, mas defendem um modelo de funcionamento baseado em baixa regulação, ampla exploração de dados e mínima responsabilização sobre conteúdos publicados. Esses interesses convergem, de forma recorrente, com agendas políticas que atacam mecanismos de controle estatal, rejeitam leis contra desinformação e transformam a “liberdade de expressão” em escudo para práticas predatórias.

Esse alinhamento não se dá apenas por afinidade difusa. Ele se expressa em entendimentos concretos, articulações públicas e convergência estratégica, como demonstram a circulação internacional de operadores políticos da direita e a crescente proximidade entre líderes autoritários e proprietários de plataformas digitais.

Algoritmos e o impacto sobre o debate público

Algoritmos são sistemas automatizados que organizam e priorizam conteúdos com base em critérios como engajamento, tempo de visualização e interação. Na prática, esses critérios favorecem conteúdos que despertam medo, raiva e indignação.

Esse funcionamento não é acidental. Ele amplia discursos polarizados, cria bolhas informacionais e empurra o debate político para o confronto permanente. Narrativas autoritárias e simplificadoras ganham vantagem estrutural, enquanto conteúdos informativos e complexos perdem alcance.

Think tanks e a engenharia da narrativa política

A disseminação dessas narrativas não ocorre de forma espontânea. Think tanks — organizações privadas financiadas por empresários e fundações ideologicamente orientadas — atuam como centros de produção estratégica de discurso político. Produzem argumentos, slogans e enquadramentos que circulam de maneira coordenada entre partidos, influenciadores digitais e redes sociais.

Ataques à imprensa, deslegitimação da ciência e questionamentos sistemáticos às instituições democráticas seguem padrões repetidos em diferentes países, adaptados apenas à linguagem local. Trata-se de método, não coincidência.

Coordenação internacional: articulação, não fantasia

A repetição de estratégias semelhantes em diversos países — ataques ao sistema eleitoral, retórica antissistema, culto ao líder e uso intensivo das redes — revela uma coordenação ideológica transnacional. Esse processo foi impulsionado por figuras centrais como Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, que percorreu países da Europa e da América Latina oferecendo organização política, orientação de comunicação digital e estratégias de guerra cultural a movimentos de extrema-direita.

Não se trata de teoria conspiratória, mas de articulação política aberta, documentada e financiada. A extrema-direita global opera em rede — e as plataformas digitais funcionam como sua principal infraestrutura.

O TSE no centro da disputa democrática de 2026

O cenário descrito torna ainda mais sensível o papel do Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2026. A condução do pleito pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, já suscita questionamentos legítimos sobre a disposição do TSE em enfrentar com firmeza as estratégias digitais da extrema-direita.

O alerta se agrava com um dado institucional relevante: a vice-presidência do tribunal será ocupada por André Mendonça, também indicado por Bolsonaro e publicamente identificado com o mesmo campo político. Pela primeira vez, presidente e vice do TSE durante uma eleição presidencial estarão ligados ao grupo político que atacou reiteradamente a Justiça Eleitoral e o próprio sistema de votação.

Não se trata de acusação de ilegalidade, mas de risco político-institucional concreto. Em um ambiente de polarização extrema, a credibilidade do TSE depende não apenas da legalidade formal, mas da percepção — e da prática — de independência.

O principal perigo não está em decisões explícitas, mas na autocontenção institucional. Hesitação na responsabilização de plataformas, cautela excessiva diante da desinformação organizada e interpretações restritivas sobre o papel da Justiça Eleitoral podem gerar uma assimetria prática, favorecendo quem já domina o ecossistema digital.

Democracia sob erosão contínua

A democracia não colapsa apenas por golpes explícitos. Ela se enfraquece pela erosão lenta de suas salvaguardas. A disputa política contemporânea ocorre nos feeds, nos algoritmos e na economia da atenção.

Quando a mediação desse ambiente fica nas mãos de corporações privadas e a autoridade eleitoral demonstra autocontenção diante de interesses poderosos, o voto permanece, mas sua autonomia se esvazia.

A presidência do TSE em 2026 não é questão administrativa. É um ponto crítico do equilíbrio democrático brasileiro. O desafio não será provar imparcialidade formal — isso a Constituição garante.
O desafio será demonstrar, na prática, que a Justiça Eleitoral continuará disposta a enfrentar quem transforma a desinformação em método e a democracia em obstáculo. Em disputas marcadas pela manipulação informacional, neutralidade formal pode se transformar em conivência funcional.

Entenda os conceitos

O que são algoritmos?
Algoritmos são mecanismos automatizados que controlam o fluxo de informações nas plataformas digitais. Eles decidem, de forma opaca, quais conteúdos ganham visibilidade e quais são empurrados para a irrelevância. Operam com base em métricas de engajamento e têm como objetivo maximizar lucro, não qualidade informativa. Ao privilegiar conteúdos que provocam choque, medo ou indignação, esses sistemas distorcem o debate público, amplificam a polarização e interferem diretamente na formação da opinião política dos eleitores, sem qualquer controle democrático.

O que são think tanks?
Think tanks são organizações privadas que atuam como fábricas de discurso político. Financiados por interesses econômicos e ideológicos, produzem narrativas, estratégias e enquadramentos que são disseminados de forma coordenada no espaço público. Longe de serem centros neutros de pesquisa, muitos operam como braços intelectuais de projetos de poder, fornecendo argumentos, slogans e linhas de ataque que circulam entre partidos, influenciadores e redes sociais, moldando o debate político de maneira deliberada e estratégica.