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A Globo repete o erro: da edição do debate em 1989 ao almoço de 2026, quando a política se encontra com o poder da televisão

Por Repórter Capixaba ·
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Em 1989, a Rede Globo entrou para a história da televisão brasileira por um episódio que ainda hoje alimenta discussões sobre a influência da mídia nas eleições presidenciais. No confronto entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, a emissora exibiu, no Jornal Nacional, uma edição do debate que foi acusada de favorecer o candidato do PRN. Trinta e sete anos depois, a relação entre a família Marinho e um candidato da direita volta a levantar questionamentos sobre a fronteira entre cortesia institucional, interesses políticos e responsabilidade jornalística.

O episódio de 1989 não foi um detalhe irrelevante da campanha. No dia 14 de dezembro, Collor e Lula participaram do último debate do segundo turno, transmitido por um pool de emissoras. No dia seguinte, a Globo apresentou uma seleção dos melhores momentos de Collor e dos trechos considerados desfavoráveis a Lula. A edição provocou protestos, questionamentos públicos e uma ação do PT na Justiça Eleitoral. Posteriormente, a própria emissora decidiu transmitir debates políticos na íntegra, sem edição. O registro está no acervo histórico da Globo.

A eleição terminou em 17 de dezembro, com a vitória de Collor, que recebeu 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula. Não há como estabelecer, de maneira objetiva, quantos votos foram influenciados pela edição televisiva. Mas o episódio permanece como um marco da discussão sobre o poder dos meios de comunicação de interferir na percepção dos eleitores, especialmente quando a disputa é apertada e a televisão ocupa posição central na formação da opinião pública.

O que veio depois tornou a lembrança ainda mais amarga para milhões de brasileiros. Em março de 1990, já na Presidência, Collor anunciou um plano econômico que bloqueou parte dos recursos depositados em cadernetas de poupança, contas correntes e outras aplicações financeiras. Valores acima do limite estabelecido ficaram retidos no Banco Central por 18 meses. A medida atingiu diretamente famílias que haviam guardado dinheiro durante anos e provocou uma ruptura profunda na relação de confiança entre os cidadãos e o sistema financeiro. O plano não conseguiu controlar a inflação de forma duradoura e foi seguido por recessão, desemprego e desgaste político.

Esse foi o resultado da aposta do mais poderoso grupo de mídia do país em um candidato de direita. E reforça a crítica do peso que uma grande emissora pode exercer na disputa eleitoral e a dimensão das consequências que decisões políticas, tomadas depois da vitória nas urnas, podem produzir na vida da população.

O roteiro reaparece?

Em 16 de outubro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, almoçou com João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais da empresa, na sede da emissora, no Rio de Janeiro. O encontro ocorreu no mesmo dia em que Flávio participou de uma entrevista no Jornal Nacional. A reunião foi apresentada como institucional, mas a ausência de um encontro equivalente com Lula provocou questionamentos sobre a simetria de tratamento entre os candidatos.

Em uma eleição presidencial, a credibilidade de uma emissora depende não apenas da qualidade das perguntas feitas diante das câmeras, mas também da clareza sobre suas relações institucionais fora delas.

A história de 1989 recomenda cautela. Naquele ano, a controvérsia não nasceu de uma declaração explícita de apoio a Collor, mas de uma escolha editorial concreta: quais imagens mostrar, quais falas destacar e que impressão produzir no público. A influência política da televisão não depende necessariamente de um anúncio de preferência. Pode estar na seleção dos fatos, no enquadramento da notícia e na distribuição desigual de espaço e atenção.

Este ano, os constantes ataques a ministros específicos do STF, como Alexandre de Moraes, responsável pela condenação dos golpistas que tentaram mudar o resultado democrático das eleição de Lula e as denúncias mais fortes contra o filho do presidente do que contra a relação do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, responsável pelo maior escândalo financeiro do Brasil, mostram claramente uma preferência da TV Globo pelo candidato alinhado à direita.

O que está em jogo para quem depende dos programas sociais

Em 2026, a discussão também alcança a política social. Flávio Bolsonaro apresentou propostas para reformular a relação entre o Estado e os beneficiários do Bolsa Família, incluindo a retomada de um período de transição de dois anos para famílias que aumentem a renda. A campanha afirma que a intenção é incentivar a autonomia financeira, e não extinguir o programa. Também foi anunciada a proposta de criar um Ministério da Prosperidade, com atribuições relacionadas à assistência social, à qualificação profissional e ao microcrédito.

Essas propostas ainda precisam ser avaliadas em seus detalhes, especialmente quanto ao financiamento, aos critérios de permanência nos programas e às garantias para famílias que não consigam manter a renda obtida. Mudanças na assistência social podem alterar a vida de milhões de pessoas.

O risco que merece atenção é o de a disputa eleitoral ser reduzida a imagens, encontros e declarações de efeito, enquanto questões decisivas para a população ficam em segundo plano. O eleitor precisa saber o que cada candidato pretende fazer com o Bolsa Família, a Previdência, o salário mínimo, a saúde e a educação. Precisa conhecer os custos das propostas, os mecanismos de financiamento e os efeitos esperados sobre as famílias de baixa renda. Algo que a Globo não está disposta a deixar que seja amplamente discutido.

A memória de 1989 serve como advertência, não como prova de que a história se repetirá. Collor venceu, governou e tomou decisões que atingiram duramente a população. A Globo, por sua vez, ficou marcada pela controvérsia em torno da edição do debate. Em 2026, o almoço entre João Roberto Marinho e Flávio Bolsonaro recoloca em pauta a responsabilidade de uma empresa de comunicação que tem enorme alcance nacional.

A questão não é presumir que o encontro determine o resultado eleitoral ou que uma candidatura represente, inevitavelmente, o fim de direitos sociais. É exigir que os fatos sejam transparentes, que os candidatos sejam submetidos ao mesmo rigor e que as propostas capazes de afetar a vida dos brasileiros sejam discutidas com profundidade.

Após o resultado, a Globo e seus jornalistas voltarão a repetir que fazem um jornalismo isento e tentarão nos convencer que não jogaram sujo para interferir na eleição, exatamente como fizeram com Fernando Collor.

Em uma democracia, a televisão não vota, mas participa da construção do ambiente em que milhões de pessoas decidem seu voto. Por isso, a lembrança de 1989 continua pertinente: quando o poder de informar se aproxima demais do poder de influenciar, a sociedade tem o direito de cobrar explicações. E quando estão em jogo a poupança, a renda e a proteção social, o preço de uma escolha política mal avaliada pode ser pago por quem tem menos condições de suportá-lo.

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