Vitória, segunda-feira 19 de outubro de 2026
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Europa paga a conta dos erros de Trump e sofre com revoltas

Por Repórter Capixaba ·
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Roberto Andrade/Repórter Capixaba

A Europa enfrenta uma crise de protestos violentos clamando por melhorias sociais em moradia, educação, saúde e qualidade de vida. o noticiário dessa semana mostra milhares de jovens em manifestações em cidades francesas pedindo melhorias na educação; Na Itália, os protestos são por melhorias na qualidade de vida como um todo; na Albânia e na Espanha os protestos se espalham contra a corrupção e moradias dignas. Tudo isso, mostra que o foco dos governantes esteve fora de lugar nos últimos anos. Especialmente após a ascensão de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos e vitórias da Centro-Direta e Direita em diversos países europeus. A crítica de Lula à corrida armamentista ganha força diante das contradições de Donald Trump e do dilema moral enfrentado pelos governos europeus: como financiar a defesa externa sem sacrificar o bem-estar da população? Antes de comprar mais armas, os governos precisam explicar para quem governam e como pretendem atender às necessidades dos governados.

Na tribuna das Nações Unidas, Luiz Inácio Lula da Silva fez uma advertência que ultrapassa as diferenças ideológicas entre governos: trilhões de dólares alimentam uma nova corrida armamentista enquanto a diplomacia perde força, os conflitos se multiplicam e necessidades humanas continuam sem resposta. Em seu discurso de 22 de setembro, o presidente brasileiro criticou a incapacidade da ONU de conter as guerras e defendeu investimentos em educação, saúde e redução das desigualdades. A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: qual é o sentido de governos mobilizarem recursos gigantescos para a guerra enquanto tantos cidadãos lutam para ter acesso a moradia, serviços públicos de qualidade e segurança social?

A resposta não pode ser simplista. A defesa de um país é uma responsabilidade legítima do Estado, e a invasão russa da Ucrânia demonstra que a ameaça militar não é imaginária. Mas segurança não se resume a arsenais, tropas e fronteiras protegidas. Também significa assegurar condições dignas de vida. Quando o orçamento militar cresce e as necessidades sociais permanecem sem resposta, os governantes têm a obrigação de explicar suas escolhas — e de demonstrar que a proteção do território não está sendo tratada como mais importante do que a proteção das pessoas.

É nesse ponto que a política externa de Donald Trump expõe uma contradição difícil de ignorar.

Trump e a incoerência das sanções contra a Rússia

Durante meses, Trump pressionou países que compram petróleo russo, ameaçando impor tarifas elevadas a importadores como a Índia. A justificativa era aumentar o custo econômico da guerra conduzida por Vladimir Putin e forçar Moscou a negociar. Entretanto, em 17 de outubro, o presidente norte-americano suspendeu a aplicação de medidas previstas em uma nova legislação de sanções contra a Rússia, alegando interesse nacional. A decisão foi anunciada quando as penalidades estavam prestes a entrar em vigor e beneficiou países que continuam dependendo da energia russa, entre eles a Índia. <Cite refs={[“turn983859news16″,”turn983859news18”]}/>

O problema não está apenas na mudança de posição. Governos podem rever políticas diante de novas circunstâncias, e o custo da energia é uma preocupação legítima. A questão é a falta de coerência entre o discurso usado para pressionar outros países e a disposição de flexibilizar as próprias medidas quando interesses comerciais, energéticos ou diplomáticos entram em jogo.

A Reuters informou que a suspensão também pode facilitar a conclusão de um acordo comercial entre Washington e Nova Délhi. O secretário de Estado, Marco Rubio, reconheceu que as negociações comerciais foram consideradas na decisão. Isso torna a situação ainda mais reveladora: aquilo que era apresentado como uma questão de segurança internacional passou a ser negociado em conjunto com interesses econômicos norte-americanos. <Cite refs={[“turn983859news16”]}/>

É legítimo questionar a moralidade de uma política que exige sacrifícios de outros países, ameaça seus mercados e depois abre exceções quando isso atende aos interesses de Washington. A incoerência não prova, por si só, incapacidade de discernimento; demonstra, porém, que a aplicação das medidas não segue um princípio uniforme. Para os aliados, a consequência é a incerteza: se as regras mudam conforme a conveniência do governo norte-americano, até que ponto suas garantias e exigências podem ser consideradas confiáveis?

A Ucrânia fica mais vulnerável — e a Europa precisa rever suas escolhas

Para Volodymyr Zelensky e os países europeus que apoiam a Ucrânia, a decisão tem consequências que vão além da diplomacia. A pressão econômica sobre Moscou é um dos instrumentos utilizados para limitar os recursos que sustentam a guerra. A flexibilização de sanções e tarifas pode abrir espaço para a continuidade das receitas russas com energia, embora o efeito concreto dependa do alcance das medidas suspensas, dos volumes comercializados e de outros fatores econômicos. Não se pode afirmar que uma única decisão determine o curso da guerra, mas tampouco ignorar que ela pode enfraquecer a estratégia de pressão sobre o Kremlin.

A tensão entre Trump e Zelensky já vinha preocupando autoridades ucranianas. Em reportagem publicada em 17 de outubro, a Reuters apontou que o atrito entre os dois presidentes ameaça comprometer apoios norte-americanos considerados importantes para a defesa de Kyiv. A suspensão de sanções, somada às incertezas sobre o apoio militar e de inteligência dos Estados Unidos, aumentou o temor de que Moscou obtenha vantagens estratégicas. <Cite refs={[“turn983859news19”]}/>

É aqui que a Europa precisa encarar sua própria responsabilidade. Sob pressão de Trump e diante da ameaça russa, os países europeus ampliaram seus compromissos militares. Segundo o Conselho da União Europeia, os gastos com defesa dos Estados-membros chegaram a 418 bilhões de euros em 2025, e a estimativa para 2026 é de 454 bilhões — um aumento projetado de 75,3% em relação a 2021. <Cite refs={[“turn983859search0”]}/>

Esses números não significam automaticamente que a mesma quantia tenha sido retirada de escolas, hospitais ou programas habitacionais. Os orçamentos nacionais são complexos, e parte do aumento militar pode ser financiada por receitas adicionais, endividamento ou mudanças em outras despesas. Mas a dimensão do investimento impõe uma pergunta política e moral incontornável: quais prioridades estão sendo estabelecidas e quem arcará com seus custos? No final, o dinheiro que financia as nações tem apenas uma origem: o cidadão.

A Europa não erra necessariamente ao investir em defesa. O erro seria aceitar, sem debate público suficiente, que a corrida armamentista determine o horizonte de suas sociedades. A ameaça externa não pode servir de justificativa permanente para negligenciar a crise habitacional, a qualidade da educação, o acesso à saúde e a proteção social. Defender a Ucrânia e proteger a população europeia não deveriam ser objetivos tratados como mutuamente excludentes; cabe aos governos buscar uma estratégia que sustente ambos.

Quando isso não acontece, vemos eclodir os protestos como os que acontecem atualmente na França, Espanha, Itália e Bélgica, apenas para citar alguns.

O custo moral de uma segurança sem bem-estar

A contradição europeia é particularmente grave porque as dificuldades de acesso à moradia, as pressões sobre os serviços públicos e o descontentamento com o custo de vida têm causas acumuladas ao longo de anos. Não seria correto atribuir todos esses problemas ao aumento dos gastos militares. Ainda assim, a nova prioridade dada à defesa exige que os governos expliquem como pretendem evitar que a população seja chamada a pagar a conta por meio de serviços insuficientes, maior endividamento ou perda de proteção social.

O mesmo princípio vale para os Estados Unidos. Trump construiu parte de sua atuação internacional sobre ameaças comerciais, exigências aos aliados e demonstrações de força. Agora, ao suspender medidas que ele próprio apresentou como instrumentos de pressão contra a Rússia, seu governo precisa explicar o que mudou, quais objetivos foram alcançados e que garantias existem de que a flexibilização não beneficiará a capacidade russa de sustentar a guerra. Sem respostas claras, a política externa corre o risco de parecer menos uma estratégia consistente de segurança e mais uma sucessão de decisões incoerentes, amadoras, negociadas conforme a conveniência do momento.

O calendário político norte-americano também importa. As eleições legislativas de novembro podem alterar o equilíbrio de forças no Congresso, e a Reuters relatou que uma eventual derrota republicana na Câmara dos Representantes poderia limitar parte da agenda de Trump. O resultado, porém, ainda não está definido. O que já se pode avaliar é o custo da instabilidade criada quando aliados não sabem se as decisões de Washington serão mantidas ou revistas de acordo com as circunstâncias. <Cite refs={[“turn983859news17”]}/>

Lula tem razão ao questionar a corrida armamentista

O argumento apresentado por Lula na ONU merece ser levado a sério não porque venha de um presidente brasileiro, mas porque coloca no centro do debate uma questão que as grandes potências frequentemente deixam em segundo plano: o desenvolvimento humano. Quando recursos públicos são direcionados para a defesa, é legítimo perguntar quais ameaças estão sendo enfrentadas, quais resultados se espera obter e quais necessidades da população continuam sem atendimento.

Essa cobrança não deve poupar ninguém. A Rússia precisa responder pela invasão da Ucrânia e pelas consequências de sua agressão. Os governos europeus precisam justificar suas prioridades orçamentárias e demonstrar que a defesa não será financiada à custa do abandono social. E Trump precisa explicar por que ameaça países por suas compras de energia russa e, depois, flexibiliza as próprias medidas quando interesses norte-americanos entram na equação.

A crítica também exige reconhecer que reduzir gastos militares sem considerar ameaças reais pode deixar populações vulneráveis à agressão. A paz não se decreta, e a diplomacia não funciona apenas com boas intenções. Mas a segurança militar tampouco garante, sozinha, sociedades estáveis, justas e protegidas.

O ponto central é outro: governos não podem exigir confiança irrestrita quando suas decisões mudam conforme a conveniência, nem pedir sacrifícios ilimitados em nome de uma segurança que não se traduz em dignidade para quem vive dentro de suas fronteiras.

Antes de exigir que os cidadãos paguem mais pela guerra, os governos precisam demonstrar que fizeram tudo o que podiam pela paz. E, enquanto compram armas para proteger suas nações, não podem esquecer que uma nação também é feita de pessoas que precisam de escolas, moradia, saúde e segurança social. Esse é o dilema moral que atravessa a Europa, os Estados Unidos e o restante do mundo — e é por isso que a advertência de Lula merece ser discutida para além das fronteiras brasileiras.

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