A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar uma ferramenta presente no cotidiano de bilhões de pessoas. Ela acelera pesquisas médicas, auxilia diagnósticos, amplia a produtividade e transforma setores inteiros da economia. Mas, na mesma velocidade em que amplia oportunidades, também cria riscos que os governos ainda não conseguem acompanhar. Esse é o principal alerta do primeiro relatório científico global e independente sobre inteligência artificial divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Elaborado por um painel formado por 40 cientistas de diferentes regiões do mundo, o documento afirma que o desenvolvimento da IA ocorre em um ritmo superior à capacidade dos países de criar normas, mecanismos de fiscalização e políticas públicas capazes de garantir o uso seguro da tecnologia. Durante o lançamento do estudo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu a preocupação em uma frase: “A ciência está aqui. Não podemos mais dizer que não sabíamos”. Segundo ele, quanto mais a inteligência artificial evoluir sem regras compartilhadas internacionalmente, menor será a capacidade de governos e da sociedade influenciarem seus efeitos.
O relatório destaca que mais de um bilhão de pessoas já utilizam semanalmente ferramentas de inteligência artificial conversacional. Ao mesmo tempo, a tecnologia vem produzindo avanços considerados relevantes na descoberta de medicamentos, no desenvolvimento de vacinas, na detecção precoce de doenças como o câncer de mama, na agricultura de precisão e na pesquisa científica. Especialistas afirmam que a IA pode acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, desde que seja utilizada de forma responsável e acompanhada de investimentos em infraestrutura, educação digital e governança.
Ao lado dos benefícios, porém, cresce uma lista de riscos. O painel alerta para o aumento da desinformação produzida por sistemas capazes de criar textos, imagens e vídeos extremamente realistas, para o uso da IA em ataques cibernéticos, golpes financeiros e fraudes, além da possibilidade de agentes autônomos realizarem tarefas complexas sem supervisão humana adequada. Os pesquisadores também registram casos de sistemas que reforçam crenças equivocadas dos usuários, comportamento conhecido como “bajulação algorítmica”, associado, em situações extremas, a graves crises de saúde mental. Outro ponto de preocupação é a inexistência, até o momento, de garantias científicas de que sistemas altamente autônomos permanecerão sob controle humano à medida que suas capacidades aumentam.
Outro aspecto apontado pelo estudo é a desigualdade no acesso à tecnologia. Segundo a ONU, cerca de 75% da capacidade computacional dos 500 principais supercomputadores voltados para inteligência artificial está concentrada nos Estados Unidos, enquanto a China responde por aproximadamente 15%. Grande parte dos países em desenvolvimento não dispõe de infraestrutura, profissionais especializados nem recursos suficientes para desenvolver ou auditar sistemas próprios de IA, tornando-se dependentes de tecnologias criadas no exterior. Para os especialistas, sem cooperação internacional, investimentos e regras comuns, a inteligência artificial poderá ampliar desigualdades econômicas, comprometer direitos humanos e concentrar ainda mais poder em poucas empresas e governos.
O relatório será apresentado aos Estados-membros durante o primeiro Diálogo Global da ONU sobre Governança da Inteligência Artificial, marcado para os dias 6 e 7 de julho, em Genebra. A expectativa é que as discussões sirvam de base para a construção de princípios internacionais capazes de equilibrar inovação, segurança, transparência e responsabilidade no desenvolvimento da tecnologia. A avaliação do painel é que a inteligência artificial não é, por si só, benéfica ou prejudicial. Seu impacto dependerá das decisões tomadas agora por governos, empresas e pela sociedade.
IA também amplia desigualdades de gênero, alerta ONU Mulheres
Além do relatório principal, a ONU Mulheres divulgou recentemente um estudo apontando que sistemas de inteligência artificial continuam reproduzindo preconceitos de gênero presentes nos dados utilizados para seu treinamento. Segundo a agência, modelos de IA frequentemente associam mulheres a tarefas domésticas e de cuidado, enquanto vinculam homens a liderança, negócios e sucesso profissional.
A organização também alerta para o aumento da violência digital facilitada por inteligência artificial, incluindo a criação de imagens falsas (deepfakes), abuso online e assédio contra mulheres, jornalistas e defensoras de direitos humanos. Para a entidade, ampliar a participação feminina no desenvolvimento dessas tecnologias e incorporar critérios de igualdade de gênero nas políticas públicas será essencial para reduzir vieses e evitar que as desigualdades do mundo real sejam reproduzidas pelos algoritmos.
