Michelle Bolsonaro invoca o respeito às mulheres, mas seu passado político cobra coerência

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Ao denunciar ter sido desrespeitada por Flávio Bolsonaro, ex-primeira-dama reacende um debate inevitável: por que silenciou diante dos ataques de Jair Bolsonaro contra mulheres durante décadas?

A política brasileira é pródiga em ironias. Poucas, porém, são tão eloquentes quanto a que tomou conta do noticiário nesta semana. Michelle Bolsonaro surgiu publicamente para denunciar que foi tratada com desrespeito pelo senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou ter sido humilhada, menosprezada e desconsiderada dentro da própria família.

Toda mulher tem o direito de denunciar quando se sente desrespeitada. Isso não deveria sequer ser objeto de discussão. O que torna o episódio politicamente relevante, contudo, é a trajetória pública da própria Michelle Bolsonaro e o ambiente político que ela ajudou a construir e defender.

Durante anos, Michelle foi a principal fiadora da imagem de Jair Bolsonaro junto ao eleitorado feminino e evangélico. Enquanto o então presidente acumulava declarações consideradas ofensivas às mulheres, ela permaneceu ao seu lado, sem manifestações públicas de reprovação.

A lista desses episódios é extensa.

Em 2014, Jair Bolsonaro disse à então deputada Maria do Rosário que ela “não merecia ser estuprada porque era muito feia”. A declaração provocou repúdio nacional e internacional e terminou em condenações judiciais. Não se tratava de uma frase dita em ambiente privado, mas de uma fala proferida no Congresso Nacional, repetida posteriormente diante das câmeras.

Ao longo de sua carreira política, Bolsonaro também colecionou ataques verbais contra jornalistas mulheres. Chamou profissionais da imprensa de “idiotas”, “patéticas”, “canalhas”, “vergonha do jornalismo” e, em diversas entrevistas, utilizou o constrangimento público como estratégia de enfrentamento político. Organizações de defesa da liberdade de imprensa denunciaram reiteradamente esse comportamento como uma tentativa de intimidar mulheres jornalistas.

Em outro episódio amplamente conhecido, afirmou ter “fraquejado” ao nascer sua única filha mulher, transformando uma declaração de cunho machista em piada recorrente durante eventos públicos.

As controvérsias nunca impediram Michelle Bolsonaro de defender o marido. Pelo contrário. Ela tornou-se uma das vozes mais importantes na tentativa de suavizar sua imagem diante do eleitorado feminino, apresentando Jair Bolsonaro como um homem de família e um cristão comprometido com valores conservadores.

Ao mesmo tempo, Michelle consolidou sua própria identidade política apoiada em um discurso religioso profundamente conservador.

Em diferentes eventos evangélicos, defendeu a submissão da mulher ao marido como princípio bíblico, afirmando que a esposa deve respeitar e obedecer ao homem dentro do casamento. Para seus apoiadores, trata-se de uma interpretação legítima das Escrituras. Para críticos, a mensagem reforça estruturas patriarcais que historicamente colocam mulheres em posição de inferioridade dentro das relações familiares.

É justamente por isso que sua denúncia contra Flávio Bolsonaro provoca um debate que vai muito além do conflito doméstico.

Quando Michelle afirma que nenhuma mulher merece ser tratada com desrespeito, a pergunta que inevitavelmente retorna é: onde estava essa indignação quando outras mulheres eram alvo de ataques públicos do principal líder político que ela escolheu defender?

Onde estava essa defesa quando Maria do Rosário ouviu que não merecia ser estuprada?

Onde estava quando jornalistas eram constrangidas em entrevistas transmitidas para todo o país?

Onde estava quando comentários depreciativos sobre mulheres se repetiam ao longo de quase três décadas de vida pública de Jair Bolsonaro?

Essas perguntas não diminuem o direito de Michelle denunciar aquilo que considera uma ofensa. Mas expõem uma contradição política difícil de ignorar.

A coerência é um dos pilares da credibilidade pública. Quem reivindica respeito universal às mulheres inevitavelmente será confrontado com sua própria história e com as escolhas que fez quando outras mulheres ocupavam o lugar de vítimas.

O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas uma crise familiar para revelar algo maior: a dificuldade de sustentar um discurso de defesa das mulheres depois de anos legitimando um projeto político marcado por sucessivas declarações consideradas machistas.

A política costuma cobrar coerência. Nem sempre ela aparece nas urnas. Mas quase sempre reaparece na memória coletiva.

E essa memória lembra que o respeito às mulheres não pode ser um princípio seletivo, acionado apenas quando a violência simbólica bate à própria porta. Se é um valor, precisa valer para todas. Inclusive para aquelas que pensam diferente, fazem perguntas incômodas ou ocupam o outro lado da disputa política.