FIES: como grupos educacionais privados transformaram financiamento público em lucro bilionário

Recursos públicos do Fies impulsionaram expansão de faculdades privadas, favoreceram grandes grupos como Cogna, Yduqs e Ânima e mantêm ensino de baixa qualidade.

O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) foi criado para abrir portas do ensino superior a estudantes de baixa renda. Mas, com o tempo, ele acabou nas mãos de grupos educacionais privados que lucraram bilhões, enquanto cursos caros e muitas vezes mal avaliados lotearam vagas financiadas com dinheiro público.

A matemática é fria, mas o resultado é humano: políticas públicas que deveriam promover inclusão acabaram abastecendo fortunas privadas — e levantando uma pergunta que, até hoje, ressoa entre estudantes e educadores: quem realmente se beneficia com o Fies?

Nomes que viraram gigantes à sombra do Fies

O crescimento do ensino superior privado no Brasil, nas últimas duas décadas, esteve diretamente ligado ao acesso de milhões de estudantes ao Fies. E alguns grupos educacionais se destacaram no processo:

  • Cogna Educação (antiga Kroton) — Um dos maiores grupos educacionais do país, controlador de marcas como Universidade Pitágoras, Anhanguera e Unopar. Por muitos anos, o Fies representou parcela relevante da receita líquida da Cogna e de suas instituições, com contratos garantidos por financiamento público.
  • Yduqs (inclui Estácio e Wyden) — Dono da tradicional Estácio de Sá e de diversas outras faculdades pelo Brasil, o grupo ampliou sua presença nacional com base no aumento de matrículas financiadas pelo Fies.
  • Ânima Educação — Outro grande grupo, controlador de instituições como Universidade Veiga de Almeida e Unijorge, conhecido por aquisição agressiva de faculdades nos últimos anos.
  • Uniasselvi / Vitru Educação — Embora menor que Cogna e Yduqs, também cresceu com aporte de estudantes financiados pelo Fies e virou alvo de investimentos de fundos nacionais e internacionais.

Esses grupos fizeram uso intenso das regras do programa para ampliar matrículas, capturar receita estável e atrair investidores, transformando o Fies em um dos principais motores de crescimento do ensino superior privado no Brasil.

Grupos atuaram politicamente para barrar mudanças no Fies

Não foi só no mercado financeiro que o setor privado atuou. Quando o governo tentou mudar regras do Fies para exigir mais controle e qualidade, vários desses mesmos grupos — sob guarda-chuvas de representações setoriais como a Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares)entraram com ações judiciais e pressões políticas para frear as mudanças.

Em algumas disputas, empresas como Estácio e grupos ligados a Cogna/Educação Ânima e outros players foram citados como desafiando legalmente medidas que poderiam restringir o acesso fácil ao financiamento, argumentando que isso penalizaria estudantes — quando, na verdade, muitos desses mesmos estudantes estavam sendo captados para garantir receita às próprias instituições.

Recursos públicos alimentaram crescimento privado e baixa qualidade

O resultado dessa dinâmica é visível nos números: quase metade dos contratos do Fies em Medicina está em cursos mal avaliados, segundo o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Isso significa que recursos públicos estão sendo direcionados a instituições cuja formação profissional não atinge os padrões mínimos de qualidade.

Essa distorção aconteceu porque o modelo de financiamento garante receita para as faculdades privadas sem vincular diretamente a qualidade da formação ao repasse dos recursos. Em outras palavras: quanto mais alunos financiados, melhor para o caixa das empresas — não necessariamente para a formação do estudante.

Quem paga a conta no fim

Para o estudante, a realidade é dura. A dívida estudantil aumenta, muitas vezes sem que a formação corresponda à promessa de um emprego melhor. Enquanto isso, os grandes grupos educacionais — alguns deles negociados na bolsa de valores e com valor de mercado bilionário — somam receitas crescentes, sustentadas pelas mensalidades financiadas pelo Fies, pelos aportes de investidores e pelas compras e fusões de instituições menores.

O financiamento público que deveria ser uma chance de mobilidade social acabou sendo, em muitos casos, um instrumento de lucro privado, com consequências reais para o acesso, a qualidade da formação e a equidade no ensino superior.

O Fies foi essencial para milhões de brasileiros acessarem a universidade. Contudo, a falta de mecanismos fortes de controle de qualidade e a forte presença política e econômica de grandes grupos educacionais privados transformaram o programa em um negócio lucrativo para poucos, deixando muitas vezes em segundo plano a formação de qualidade e o verdadeiro propósito social do financiamento público.


COMO O FIES ENRIQUECEU O ENSINO PRIVADO

Linha do tempo do dinheiro público e da explosão de matrículas

🕰️ ANTES DE 2010 — FIES EXISTIA, MAS NÃO ERA UM NEGÓCIO

Situação geral

  • O Fies funcionava como política complementar, não estrutural.
  • Faculdades privadas ainda dependiam majoritariamente de pagamento direto do aluno.
  • Inadimplência era um risco real para as instituições.

Números-chave

  • 2005
    • Contratos ativos: ~300 mil
    • Gasto público anual: ~R$ 1,2 bilhão
  • 2010
    • Contratos ativos: ~475 mil
    • Gasto público anual: ~R$ 1 bilhão

👉 Resumo
Até 2010, o Fies ajudava estudantes, mas não sustentava o caixa das faculdades. O programa era relevante, porém limitado.


2010 A 2014 — O FIES VIRA MOTOR DE LUCRO

Aqui ocorre a virada de chave.

O que mudou

  • Expansão agressiva do Fies durante os governos Lula/Dilma.
  • Juros baixos, carência longa e financiamento quase integral.
  • Faculdades percebem que:
    • o pagador agora é o governo;
    • o risco de inadimplência praticamente desaparece.

Explosão dos números

  • 2011
    • Contratos: ~623 mil
    • Gasto público: ~R$ 4 bilhões
  • 2012
    • Contratos: ~755 mil
    • Gasto público: ~R$ 8,9 bilhões
  • 2013
    • Contratos: ~1,13 milhão
    • Gasto público: ~R$ 12,5 bilhões
  • 2014 (pico)
    • Contratos: ~1,9 milhão
    • Gasto público: ~R$ 13,7 bilhões

👉 Em 2014, 1 em cada 4 estudantes do ensino superior privado estava no Fies.


POR QUE ISSO ENRIQUECEU AS FACULDADES

Aqui está o ponto central — e incontornável:

1️⃣ Pagamento garantido

  • O governo paga diretamente à instituição.
  • Não há atraso.
  • Não há calote.
  • Não há negociação.

➡️ Risco zero para a faculdade.


2️⃣ Fim da inadimplência

  • O estudante pode até não pagar sua dívida depois.
  • Isso não afeta a instituição.
  • O prejuízo fica com o Tesouro Nacional, não com a faculdade.

➡️ O risco sai do privado e vai para o Estado.


3️⃣ Mensalidades infladas

  • Com o governo pagando, o preço deixa de ser um freio.
  • Cursos como Medicina passaram a cobrar R$ 8 mil, R$ 10 mil, R$ 12 mil por mês.
  • Reajustes elevados se tornaram comuns.

➡️ O mercado se descola da renda real do estudante.


4️⃣ Receita previsível = valorização bilionária

  • Fluxo de caixa estável.
  • Crescimento acelerado de matrículas.
  • Grupos educacionais:
    • abriram capital,
    • atraíram fundos,
    • compraram concorrentes.

➡️ O Fies virou base de valuation de empresas como Kroton/Cogna, Estácio/Yduqs, Ânima.


DEPOIS DE 2015 — O ROMBO APARECE

  • 2015
    • Contratos: ~1,6 milhão
    • Gasto público: ~R$ 15 bilhões
  • Governo freia o programa.
  • Descobre-se:
    • alta inadimplência dos estudantes;
    • cursos mal avaliados sustentados pelo Fies;
    • dependência excessiva das faculdades.

Mas o dinheiro já havia irrigado o sistema privado.


RESUMO FINAL, SEM RODEIOS

  • Antes de 2010:
    Fies ajudava estudantes.
  • Depois de 2010:
    Fies passou a sustentar faculdades.
  • O governo virou:
    • fiador,
    • pagador,
    • amortecedor de risco.
  • As instituições:
    • receberam em dia,
    • reajustaram preços,
    • cresceram,
    • enriqueceram.

📌 Enquanto isso, o risco ficou com o estudante endividado e com o contribuinte.

O Fies reduziu o risco das faculdades privadas a zero, garantiu pagamento em dia, inflou mensalidades e transformou financiamento estudantil em modelo de negócio altamente lucrativo.