Brasília amanheceu em silêncio naquele domingo. Era 8 de janeiro de 2023. Um dia comum no calendário, mas que logo entraria para a história como um dos momentos mais graves desde o fim da ditadura militar.
Horas depois, o silêncio virou ruído. Gritos, vidro quebrado, móveis destruídos. E uma pergunta que ainda ecoa: como foi possível chegar até ali?
Milhares de manifestantes radicalizados invadiram e depredaram os prédios que simbolizam o coração da República — o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Não foi protesto. Foi ataque direto às instituições. Um gesto calculado para produzir caos, instabilidade e ruptura.
Não havia ali bandeiras da democracia. Havia pedidos explícitos por intervenção militar. Havia negação do resultado eleitoral. Havia a recusa em aceitar a alternância de poder — princípio básico de qualquer regime democrático.
O dia em que as instituições foram violadas
A invasão ocorreu de forma coordenada. As barreiras de segurança foram rompidas com facilidade desconcertante. Dentro dos prédios, cenas que chocaram o país: obras de arte históricas destruídas, gabinetes depredados, símbolos da República pisoteados.
No Congresso, os plenários foram ocupados. No STF, salas foram vandalizadas. No Planalto, imagens mostraram invasores circulando por áreas restritas, como se o Estado tivesse, por algumas horas, perdido o controle de si mesmo.
Era impossível não lembrar do ataque ao Capitólio, nos Estados Unidos, dois anos antes. O roteiro era semelhante. A motivação, também.
Ainda naquela noite, o governo federal decretou intervenção na segurança pública do Distrito Federal. A ordem foi restabelecida. Mas o estrago — material, institucional e simbólico — já estava feito.
Não foi um surto. Foi um projeto
Com o passar dos dias, uma narrativa tentou se impor: a de que tudo não passou de um “excesso”, um “ato isolado”, um “descontrole emocional coletivo”.
Mas os fatos desmontaram essa versão.
As investigações mostraram financiamento, logística, transporte organizado, comunicação em massa e incentivo sistemático à ruptura institucional. Não foi improviso. Foi tentativa de golpe.
E o Estado brasileiro decidiu reagir.
A maior investigação da história recente
A Polícia Federal abriu a Operação Lesa Pátria, uma das maiores já realizadas no país. O trabalho foi extenso e minucioso. Quebra de sigilos bancários e telefônicos. Análise de mensagens. Rastreamento de transferências. Identificação por imagens.
O cerco avançou sobre quem esteve na linha de frente, mas também sobre financiadores, articuladores e agentes públicos que falharam — ou colaboraram.
Os processos chegaram ao Supremo Tribunal Federal por uma razão simples: os crimes não eram comuns. Eram crimes contra o Estado Democrático de Direito.
E aqui está um ponto central, muitas vezes distorcido no debate público.
As condenações se basearam, principalmente, na Lei nº 14.197, sancionada em 2021. Uma lei recente, com pouco mais de quatro anos de vigência, aprovada pelo Congresso e que substituiu a antiga Lei de Segurança Nacional.
Ela tipifica, de forma clara, crimes como tentativa de golpe de Estado, abolição violenta da ordem democrática e associação criminosa armada. A lei existia. Estava em vigor. E foi aplicada.
Penas duras, decisões históricas
As primeiras condenações começaram a sair ainda em 2023. E chamaram atenção.
Não apenas pelo número de réus, mas pela firmeza das penas. Houve sentenças superiores a 14, 15 e até 24 anos de prisão, somando diferentes crimes. Além disso, multas coletivas foram impostas para ajudar a reparar os prejuízos causados ao patrimônio público — danos que chegaram à casa das dezenas de milhões de reais.
Para o STF, não havia ambiguidade possível. O que aconteceu em 8 de janeiro não foi exercício de liberdade de expressão. Foi violência política organizada.
A reação política: quando a punição incomoda
Foi nesse momento que o debate deixou o campo jurídico e ganhou força no Congresso.
Setores da direita passaram a questionar não os crimes, mas as penas. O discurso mudou. Falava-se em “exagero”, “perseguição”, “desproporcionalidade”. Na prática, duas estratégias ficaram evidentes.
A primeira foi a tentativa de aprovar um projeto de anistia aos envolvidos nos atos golpistas. A proposta virou bandeira política, mobilizou bases eleitorais e segue como instrumento de pressão sobre o Judiciário.
A segunda estratégia foi mais silenciosa — e mais eficaz. O Congresso aprovou mudanças nos critérios de dosimetria das penas, alterando a forma como condenações são calculadas. Oficialmente, o argumento era técnico. Nos bastidores, o objetivo era claro: reduzir punições futuras e abrir caminho para revisões.
É duro dizer, mas necessário: parte do Legislativo reagiu não ao ataque à democracia, mas ao fato de ele ter sido punido.
Mais do que um episódio, um divisor de águas
O 8 de janeiro não terminou naquele domingo. Ele continua vivo no debate político, no Judiciário e na memória coletiva do país.
O episódio revelou fragilidades, mas também deixou um recado inequívoco: democracia não é ausência de conflito; é a capacidade de enfrentá-lo dentro da lei.
A legislação é recente. As feridas também. O embate entre responsabilização e anistia segue aberto. Mas algo mudou.
Depois de 8 de janeiro, ficou mais difícil fingir que ataques às instituições são apenas “opinião”. Ficou mais claro que liberdade não inclui destruir o próprio regime que a garante.
A democracia brasileira saiu ferida. Mas não caiu. E talvez essa seja a principal resposta daquele dia: ela resistiu — porque decidiu reagir.
