Há histórias que o tempo tenta empurrar para o canto da sala. Ficam ali, silenciosas, como fotografias antigas sem legenda. No Espírito Santo, um livro recém-disponibilizado na internet puxa essas histórias de volta para o centro — e faz isso com cuidado, método e, sobretudo, respeito.
A obra Afro-brasileiros/as no Espírito Santo: Memórias e Trajetórias Educacionais reúne biografias de personalidades negras que tiveram papel decisivo na construção social, política e cultural do Estado. O acesso é gratuito. Um detalhe que muda tudo. Porque memória, quando circula, deixa de ser privilégio.
O livro integra a Coleção Canaã, organizada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, em parceria com pesquisadores ligados à Universidade Federal do Espírito Santo e ao Instituto Federal do Espírito Santo. O projeto nasce com um propósito claro: registrar trajetórias negras a partir de quem viveu, lutou e pensou o Espírito Santo por dentro.
Não é exagero dizer que essas páginas revelam um outro mapa do Estado. Um mapa humano. Ali aparecem educadores que transformaram salas de aula em espaços de resistência, advogados que enfrentaram tribunais hostis, comunicadores que abriram microfones quando a voz negra ainda era tratada como ruído, e lideranças políticas que desafiaram a lógica da exclusão.
Entre os nomes retratados está Albuíno Cunha de Azeredo, reconhecido como o primeiro governador negro do Espírito Santo e figura central da política capixaba no início do século XX. Sua trajetória ajuda a entender como a presença negra no poder sempre existiu — ainda que muitas vezes tenha sido apagada dos registros oficiais.
Também ganham destaque médicos, professores, militantes e vereadores que atuaram diretamente nas comunidades, longe dos holofotes, mas perto das pessoas. São histórias que não cabem em notas de rodapé. Pedem texto inteiro. Pedem escuta.
A organização da obra ficou a cargo de pesquisadores com longa atuação nos estudos afro-brasileiros, ao lado da direção do Arquivo Público Estadual. O resultado é um trabalho sólido, mas longe de ser frio. Há método acadêmico, sim, mas há também afeto, memória oral e compromisso com a verdade histórica.
Esse movimento dialoga com outras iniciativas de resgate da presença africana e afro-brasileira no Espírito Santo, como estudos sobre quilombos, manifestações culturais tradicionais, educação antirracista e políticas de memória. Aos poucos, peças dispersas começam a formar um desenho mais honesto do passado — e, por consequência, do presente.
A escolha pela disponibilização digital gratuita não é casual. Ela reconhece que o acesso à história ainda é desigual e que democratizar arquivos é uma forma concreta de justiça social. Estudantes, professores, pesquisadores e leitores comuns podem acessar o conteúdo sem barreiras.
A versão impressa da obra também vem sendo distribuída para bibliotecas públicas do Estado. E já há previsão de novos volumes, com foco especial em mulheres negras e suas trajetórias na educação capixaba — um capítulo essencial que, por muito tempo, ficou incompleto.
No fim das contas, este livro funciona como um espelho que foi limpo depois de décadas embaçado. Ao olhar, a sociedade capixaba se reconhece melhor. Com mais camadas. Mais verdade. E menos silêncio.
Porque contar essas histórias não é apenas revisitar o passado. É decidir, conscientemente, quem merece permanecer na memória coletiva.
