Uma lição para Maria Corina Machado: quem não se respeita… merece o quê?

Dos meus tempos de criança trago a lembrança do meu avô, Zé, sentado em um caixotinho de madeira no portão do terreno onde a gente morava em Brás de Pina, no suburbio do Rio de Janeiro, sempre pitando um cigarrinho sem filtro e tomando um “capilé” (uma mistura de groselha e cachaça) que me mandava buscar no armazém do português Antônio. Lembro também de algumas lições que carrego pela vida:“Quem não se respeita, não merece ser respeitado”, com aquela mistura de sabedoria rústica e sabatina moral que só os avós sabem ter. E apoiado no caixotinho, entre uma pitada e um gole, ele me olhava sério sempre que alguém fazia papel de palhaço sem perceber. Hoje, desde Oslo até Washington, eu quase o vejo reunir os cabelos brancos e declarar: “Essa aí se abaixou demais…”

Sim, falo de María Corina Machado, a venezuelana que virou Nobel da Paz. Teve o prêmio, e não foi pouca coisa: reconhecimento internacional, holofotes, discurso, missão simbólica e o peso histórico de um comitê prestigioso endossando sua luta pela democracia na Venezuela.

Agora imagine: em vez de usar essa honra para fortalecer sua causa, ela resolveu… entregar a medalha a Donald Trump — sim, entregar literalmente o prêmio físico nas mãos de um dos políticos mais polarizadores do planeta — em um encontro na Casa Branca.

Pausa. Respira.

Isso gerou espanto até entre os noruegueses acostumados às cerimônias em meio ao rigoroso inverno escandinavo. Especialistas em Oslo disseram o óbvio: a medalha não pode ser transferida ou compartilhada.

Mas o gesto — simbólico e teatral — foi feito mesmo assim.

E aqui está o cerne da crônica: que tipo de diplomacia é essa que soa a bajulação de gala? Que ato estranhamente melancólico é esse de uma líder mundial que, ao invés de suspender alto a bandeira que lhe foi concedida, a entrega a outro que nunca precisou dessa honra para alimentar seu próprio ego?

Meu avô teria acrescentado com desdém: “quem muito se abaixa mostra o rêgo. Olha os fundilhos dela ali, todo mundo vendo”.

Não se trata apenas de política ou de alianças estratégicas — trata-se de respeito à própria narrativa. O prêmio Nobel é um símbolo. É uma medalha forjada não só em metal, mas em aspirações universais: paz, direitos humanos, justiça.

Entregar um símbolo desses nas mãos de quem busca honrarias e aplausos fáceis, que já tem sua cota de controvérsias e ambições pessoais, mais parece uma capitulação do que uma oferta de gratidão. Às vezes, um presente revela mais sobre quem o oferece do que sobre quem o recebe.

E, no palco político global, o gesto de Machado foi recebido por muitos como um vergonhoso ato de desorientação estratégica — um tropeço público que fragiliza ainda mais sua própria trajetória. Inclusive entre os que inicialmente apoiaram seu prêmio e veem nessa dedicação uma oportunidade perdida de reafirmar a luta venezuelana sem subserviência.

No fim das contas, fica a reflexão: quem não se respeita, como dizia o véio Zé, não merece ser respeitado.

O Nobel da Paz é um símbolo de coragem na luta para tornar o mundo melhor, concedido a alguém com firmeza de princípios, e não a alguém superficial e bajulador. Machado derrubou sua própria biografia ao desrespeitar o prêmio que recebeu e mostrar sua verdadeira face oportunista.

Trump é um déspota, agressivo, moralmente falho, um bobo perigoso carregando gasolina em uma das mãos e fósforos na outra. Ele adora ser adorado e a ex-líder da oposição venezuelana desceu o máximo que pôde para atendê-lo. Mesmo assim recebeu apenas humilhação.

Levou pra casa uma dura lição, que o véio Zé assinaria embaixo: prêmios se ganham com luta — e se honram com dignidade. Ontem, Maria Corina Machado mostrou que nunca o mereceu!

Meu avô era filho de escravizados beneficiado pela Lei do Ventre Livre. Foi para o andar de cima aos 96 anos.