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Seca no Panamá ameaça canal que abastece o país; produtores vendem gado para sobreviver

Chuvas abaixo do esperado e o El Niño ameaçam o Canal do Panamá, que abastece 2 milhões de pessoas, e levam produtores a vender gado.

Por Roberto Andrade ·
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Foto: Pexels

A seca no Panamá já afeta a produção agropecuária e ameaça o Canal do Panamá, principal fonte de água e de receita do país. Na região de Azuero, no chamado Arco Seco, o produtor Robert Delgado vende animais para evitar perdas maiores, e a produção de leite de sua propriedade caiu pela metade.

O período chuvoso, que normalmente vai de maio a dezembro, trouxe pouca chuva neste ano. Bebedouros, riachos e rios não foram reabastecidos, e as pastagens, essenciais para alimentar o gado na estação seca, não se recuperaram.

Delgado afirma que ele e outros produtores precisaram abater ou vender animais de alto valor genético para evitar que morressem de sede ou de fome. Segundo ele, a falta de água já causou grandes prejuízos e deve continuar causando.

O país vive uma crise hídrica. Um período chuvoso marcado por estiagem, agravado pela crise climática, atingiu grandes áreas, e o El Niño deve prolongar os problemas. Em agosto, o governo decretou emergência nacional, válida até junho de 2027, e as autoridades projetam déficits de chuva superiores a 50% em algumas regiões até dezembro.

O ministro do Meio Ambiente, Juan Navarro, classificou a situação como dramática. Ele afirmou que a mudança climática aumentou a frequência e a gravidade do El Niño, que antes ocorria a cada 10 ou 20 anos. O último, em 2023, custou ao canal quase US$ 1 bilhão em receitas. Citando cientistas, Navarro disse que o atual fenômeno pode ser o pior já registrado. “Para o Panamá, isso é uma questão de vida ou morte”, declarou.

O canal, com cerca de 80 quilômetros, liga os oceanos Atlântico e Pacífico e por ele passa cerca de 5% do comércio marítimo global. Os lagos Gatún e Alajuela, que alimentam suas eclusas, também abastecem cerca de 2 milhões de pessoas, quase metade da população do país. Em setembro, o nível baixo da água levou duas vezes a restrições ao trânsito diário de embarcações.

Para enfrentar o El Niño, o governo destinará US$ 80 milhões a ações de resiliência. No longo prazo, investe cerca de US$ 1,5 bilhão em um reservatório no rio Indio, que deve abastecer o Lago Gatún pelas próximas cinco décadas. Navarro considera a obra o investimento mais importante do país.

O projeto, porém, enfrenta forte resistência. A barragem vai alagar terras de 550 famílias em 38 comunidades rurais, cerca de 2.500 pessoas, com perda de plantações, exumação de túmulos e desmonte de casas, escolas e igrejas. Moradores fizeram protestos, ações judiciais e bloqueios, mas as obras seguem, com conclusão prevista em dois a três anos.

Florentino Chirú, vice-presidente da Coordenadora Campesina por la Vida Contra los Embalses, diz que a mudança significa deixar para trás a história de gerações e perder terras férteis. Ele vive na área há 63 anos e afirma que a terra é a principal garantia de sustento da família.

A Autoridade do Canal do Panamá informa que o reassentamento incluirá indenização por moradias, terras, plantações e meios de vida, além de apoio para recompor a renda. As famílias poderão escolher entre opções de realocação, inclusive mudar-se em grupo para preservar os laços comunitários.

Especialistas avaliam que mais água não resolverá todos os problemas. Apesar de ser um dos países mais chuvosos do planeta, centenas de milhares de pessoas não têm acesso confiável à água potável, e, segundo o próprio governo, em algumas áreas cerca de 50% da água se perde em canos antigos e vazamentos. O governo anunciou um pacote emergencial de US$ 8,2 milhões para ração animal e irrigação, mas, para Delgado, as medidas de longo prazo pouco ajudam agora. Ele teme uma queda drástica do rebanho e afirma que o setor agropecuário corre risco de desaparecer.

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