Saúde das crianças: o que a escola pode fazer
Quem percebe primeiro, muitas vezes, é o professor. A criança passa boa parte do dia na escola. Ali aparecem sinais que em casa passam despercebidos: tristeza, falta de apetite, dificuldade para enxergar o quadro. A escola não diagnostica. Mas pode avisar a família a tempo.
A menina sempre comeu o lanche inteiro. Agora devolve a lancheira cheia. O menino que corria no recreio passou a ficar encostado no muro. Outro aperta os olhos para ler o quadro. Em casa, ninguém notou. Na sala de aula, a professora notou.
É assim que muita coisa começa. Não com um exame, mas com um adulto atento que convive com a criança quatro, cinco horas por dia. E que a vê ao lado de outras da mesma idade.
A escola vê, a família conhece
O professor não é médico. Não deve rotular, nem dar diagnóstico. O papel dele é observar, anotar e conversar com os pais. A família, por sua vez, sabe o que acontece fora da escola: como a criança dorme, come, se comporta em casa.
Quando as duas pontas conversam, o pediatra recebe uma informação mais completa. Quando começou? Acontece todo dia? Piorou?
Sinais que pedem atenção
Mudança brusca de humor. Isolamento. Queda nas notas sem motivo aparente. Choro antes da aula. Recusa em ir à escola. Nada disso, sozinho, prova que há um problema. Mas tudo merece uma conversa.
Um estudo publicado em 2025 pelo D³e, grupo que reúne dados sobre educação no Brasil, trata exatamente disso. A autora, a psicóloga Vládia Jucá, professora da Universidade Federal do Ceará, defende que escola, saúde, assistência social e justiça trabalhem juntas no cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes. Entre as propostas: aproximar a escola das famílias e criar espaços para os alunos serem ouvidos.
O bullying que não é contado
Apelido que humilha. Exclusão do grupo. Empurrão repetido no corredor. A criança raramente conta. Os sinais aparecem de lado: material que some, dor de barriga na hora de sair de casa, medo de um colega específico.
Parar a agressão é só o começo. Quem sofre e quem pratica precisam de acompanhamento.
Nem todo aluno distraído tem problema de aprendizagem
A criança que não acompanha a aula pode estar dormindo mal. Pode não estar enxergando o quadro ou ouvindo a professora. Pode estar passando por algo em casa. Antes de qualquer conclusão, vale um exame de vista, de audição e uma conversa com o pediatra.
Altura também é sinal
Criança da mesma idade tem altura diferente. É normal. Mas uma criança muito menor que os colegas, ou que parou de crescer no ritmo de antes, deve ser levada ao médico.
O pediatra analisa a curva de crescimento. Se houver suspeita de problema, pode pedir um raio-X da mão e do punho. O exame mostra a idade óssea, isto é, o quanto os ossos já amadureceram em comparação com a idade da criança. O protocolo do Ministério da Saúde para deficiência do hormônio do crescimento inclui esse exame.
Não é exame de rotina. Só é indicado quando há suspeita de alteração no crescimento ou na puberdade. Quem decide é o médico.
Hábitos que vão para casa
Lavar as mãos antes do lanche. Escovar os dentes. Experimentar um alimento novo no refeitório. Correr, pular, dançar na educação física. O que a criança aprende na escola acompanha ela fora dos portões.
Funciona melhor quando o adulto explica o porquê, em vez de só mandar. E sem comparar uma criança com a outra.
O que os pais podem fazer
Ler os bilhetes da professora. Responder. Perguntar como o filho tem se comportado. Contar à escola quando algo muda em casa. E manter as consultas ao pediatra em dia, mesmo quando a criança parece bem.
A professora pode perceber primeiro. Mas é a conversa entre escola, família e médico que faz a diferença.
Exames de imagem, como o raio-X de idade óssea, também podem ser analisados a distância por radiologistas, a chamada telerradiologia. A Telelaudo é uma das empresas que fazem esse tipo de laudo.



