No meio da Mata Atlântica preservada que cerca a represa histórica de Duas Bocas, um novo espaço começa a receber estudantes, pesquisadores e educadores ambientais. O governo do Espírito Santo inaugurou um novo Centro de Visitantes na Reserva Biológica de Duas Bocas, unidade de conservação localizada em Cariacica e administrada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema).
A iniciativa busca ampliar as ações de educação ambiental e fortalecer o contato da sociedade com a conservação da natureza — ainda que de forma controlada, já que o acesso à reserva continua restrito a atividades científicas e educativas previamente agendadas.
O novo espaço foi pensado para servir como ponto de acolhimento e orientação para visitantes que participam de programas educativos e pesquisas na unidade. Ali, painéis informativos, materiais expositivos e recursos didáticos ajudam a contar a história da reserva, explicar a biodiversidade local e apresentar os desafios da preservação ambiental no Espírito Santo.
A proposta é simples e direta: antes de entrar na floresta, entender por que aquele pedaço de Mata Atlântica precisa continuar de pé.
Um laboratório vivo de Mata Atlântica
A Reserva Biológica de Duas Bocas ocupa cerca de 3 mil hectares distribuídos entre os municípios de Cariacica, Viana e Santa Leopoldina. Trata-se de um dos fragmentos mais importantes de vegetação nativa preservada na região da Grande Vitória.
A história da área remonta a 1965, quando foi criada como reserva florestal para proteger os mananciais que abasteciam a população local. Décadas depois, em 1991, o espaço recebeu uma classificação mais rígida e passou oficialmente à categoria de reserva biológica — uma das formas mais restritivas de proteção ambiental no Brasil.
Nesse tipo de unidade de conservação, o objetivo é a preservação integral da fauna e da flora. Por isso, não há turismo convencional. As visitas são autorizadas apenas para estudos científicos, atividades educacionais e ações de monitoramento ambiental.
Dentro da reserva, a floresta protege espécies raras da Mata Atlântica e abriga uma fauna diversa, que inclui aves, mamíferos e insetos importantes para o equilíbrio do ecossistema. Pesquisas recentes também registraram na área espécies raras da flora, como a árvore conhecida como guapeba-imperial, considerada extremamente ameaçada.
Educação ambiental como porta de entrada
O novo Centro de Visitantes foi projetado justamente para fortalecer o papel educativo da unidade.
Estudantes que chegam à reserva participam primeiro de atividades de interpretação ambiental. Em seguida, percorrem trilhas monitoradas dentro da floresta, onde aprendem sobre biodiversidade, conservação de recursos hídricos e importância dos ecossistemas naturais.
Entre os trajetos utilizados nas visitas está a Trilha da Represa Velha, um percurso que leva até antigas estruturas históricas de abastecimento de água da região. Há também trilhas menores, utilizadas para atividades pedagógicas e observação da vegetação nativa.
Nos últimos anos, a reserva tem recebido regularmente grupos de escolas e universidades. Durante essas visitas, alunos têm contato com acervos didáticos que incluem exemplares da fauna local preservados para fins educativos e materiais sobre ecologia da Mata Atlântica.
Além das trilhas, o local também abriga projetos de educação ambiental voltados para escolas da região. Iniciativas como bibliotecas itinerantes e oficinas ambientais ajudam a aproximar estudantes da realidade da conservação da natureza.
A represa histórica que abasteceu a Grande Vitória
Dentro da reserva também está um marco histórico do abastecimento de água no Espírito Santo: a Represa de Duas Bocas.
A estrutura foi inaugurada durante o governo de Getúlio Vargas e, durante décadas, teve papel fundamental no fornecimento de água para cidades da região metropolitana.
Os rios Pau Amarelo, Panelas e Naia-Assú alimentam o reservatório — e justamente o encontro de dois desses cursos d’água deu origem ao nome “Duas Bocas”.
Hoje, além da importância histórica, a represa integra um sistema ecológico essencial para a proteção de nascentes e da biodiversidade da Mata Atlântica capixaba.
Um corredor ecológico estratégico
A reserva também faz parte do chamado Corredor Ecológico Duas Bocas–Mestre Álvaro, uma área estratégica para a conectividade de habitats na região central do Espírito Santo.
Esse tipo de corredor permite que espécies animais circulem entre diferentes fragmentos de floresta, mantendo populações geneticamente saudáveis e evitando o isolamento ecológico.
Para pesquisadores, o local funciona como um verdadeiro laboratório natural. Estudos sobre flora, fauna, clima e recursos hídricos são realizados regularmente na área.
Com o novo Centro de Visitantes, a expectativa é ampliar esse trabalho — aproximando ainda mais ciência, educação e conservação ambiental.
