Levantamento da emissora inglesa mostra mais de 2 mil mensagens extremas em um único fim de semana na Inglaterra.
Mais uma vez, Vinícius Júnior virou notícia por causa de racismo. O atacante do Real Madrid foi alvo de um suposto ataque racista envolvendo o jogador argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, em partida da UEFA Champions League. O episódio reacendeu um debate que já deveria estar superado.
Vinícius se transformou em símbolo da luta contra o racismo no futebol europeu. Denuncia. Cobra. Pressiona autoridades. Só que, apesar da visibilidade, ele não é caso isolado. O problema é estrutural. E está longe de se limitar à Espanha.
O retrato alarmante revelado na Inglaterra
Reportagem especial da BBC Sport revelou que durante o fim de semana de 8 e 9 de novembro de 2025, quando foram disputadas 10 partidas da Premier League e seis da Women’s Super League (WSL), mais de 2.015 postagens foram classificadas como abuso extremo nas redes sociais.
A análise monitorou mais de 500 mil publicações no X, Instagram, Facebook e TikTok. Inicialmente, 22.389 mensagens foram sinalizadas por inteligência artificial. Após revisão humana, 2.015 foram confirmadas como ameaças graves, discurso de ódio ou incitação à violência. Entre elas, ameaças de morte, estupro, insultos racistas e homofobia. Os técnicos foram os principais alvos.
Técnicos na linha de fogo
O treinador do Manchester United, Ruben Amorim, recebeu ameaças explícitas de morte. O comandante do Liverpool, Arne Slot, também foi alvo de ataques. O mesmo ocorreu com Eddie Howe, do Newcastle.
No futebol feminino, a técnica do Chelsea, Sonia Bompastor, concentrou metade das mensagens abusivas registradas na WSL naquele fim de semana.
Jogadores negros receberam emojis de macaco. Familiares foram ameaçados. Parte do conteúdo permanecia online mesmo após denúncias.
Segundo a investigação, 61% das contas responsáveis estavam sediadas no Reino Unido e na Irlanda.
“É muito fácil fazer isso sem consequências”
O técnico do Chelsea, Liam Rosenior, resumiu o sentimento ao comentar os ataques sofridos por atletas como Wesley Fofana:
“É muito fácil escrever o que quiser sem consequências quando se está nas redes sociais.”
A organização Kick It Out informou que as denúncias de abuso online atingiram níveis recordes nesta temporada. A Unidade de Policiamento do Futebol do Reino Unido fala em aumento de 115% nos registros.
O cenário se repete no futebol feminino. A atacante galesa Hannah Cain relatou que recebe mensagens ofensivas “praticamente após todos os jogos”. Segundo ela, o impacto na saúde mental é real.
O problema é global
O caso de Vinícius Júnior ganhou repercussão internacional porque ele decidiu não se calar. Mas os dados mostram que a violência digital se espalha pela Europa.
Campanhas contra o racismo existem. Leis também. No Reino Unido, a Lei de Segurança Online obriga plataformas a remover conteúdos ilegais. Mesmo assim, os números seguem subindo.
O futebol, que deveria ser espetáculo, virou também campo de batalha nas redes sociais. E a sensação de impunidade ainda é o combustível principal.
