Privatização dos Correios volta ao debate: por trás do déficit, o risco de um erro estratégico nacional

Nos últimos dias, voltou à tona o déficit operacional dos Correios — um rombo que somou R$ 597 milhões em 2023 e saltou para cerca de R$ 2,6 bilhões em 2024, o pior resultado desde 2016. Diante disso, vozes conhecidas do mercado financeiro, jornalistas alinhados a grandes corporações e economistas que falam a partir da lógica da iniciativa privada ressuscitaram um discurso antigo: “os Correios dão prejuízo; portanto, devem ser privatizados”.

O argumento parece simples. Parece lógico. Mas não é — porque ignora o papel estratégico das estatais, a lógica de investimentos de longo prazo, as falhas estruturais impostas por décadas de desmonte e competição desigual, e, sobretudo, os impactos sociais e territoriais que uma privatização apressada traria para o país.

Este artigo investiga por que a privatização dos Correios representa riscos concretos, relaciona esses riscos ao mito do prejuízo das estatais e mostra por que reduzir empresas públicas a planilhas é um erro de compreensão sobre desenvolvimento nacional.

O mito do prejuízo das estatais: por que lucro imediato não é parâmetro para empresas públicas

Há uma narrativa que se repete: se uma estatal dá prejuízo, é sinal de que está mal administrada — e que deveria ser entregue ao setor privado. Mas essa interpretação parte de uma premissa falsa: a de que estatais existem para gerar lucro trimestral. Elas não existem para isso.

Estatais não nascem para enriquecer acionistas. Nascem para construir o país.

O paradigma do investimento estatal: além do lucro rápido

Empresas privadas operam sob a lógica da TIR e do VPL: retornos rápidos, riscos baixos, fluxo de caixa positivo e projetos que pagam em poucos anos.

Estatais operam sob outra lógica: missões de longo alcance, muitas vezes de décadas, com impacto sistêmico na indústria, no território e na sociedade.

Quando se usa a régua privada para medir empresas públicas, comete-se uma distorção metodológica. Projetos de 30, 40 ou 50 anos — essenciais para ciência, infraestrutura e inovação — simplesmente não entrariam no funil de investimento de uma empresa privada, mas entram na agenda estratégica de um país.

O papel do Estado desenvolvimentista

Não é coincidência que China, Japão, Coreia do Sul, Alemanha e até os Estados Unidos — ícone do capitalismo — tenham estatais fortes ou agências públicas estratégicas.

Sem a DARPA, agência de defesa dos EUA, não haveria internet, GPS, telas sensíveis ao toque ou metade das tecnologias que hoje movem o mundo. Nenhuma empresa privada financiaria pesquisas tão longas, caras e incertas.

Estatais são, portanto, incubadoras de futuro.

O valor dos investimentos “perdidos”: o papel do sunk cost

O Estado financia pesquisas, projetos experimentais e tecnologias que podem levar anos para gerar frutos. Muitos fracassam — mas os que dão certo transformam setores inteiros. O mercado só aparece depois, quando o risco já foi pago pelo setor público.

Assim funciona a ciência, a tecnologia e a infraestrutura no mundo inteiro.

Quando o prejuízo gera valor sistêmico

Dizer que uma estatal “dá prejuízo” é olhar apenas a folha contábil, e não o valor sistêmico gerado.

O caso da Embrapa

A Embrapa registrou déficit bilionário.
E ainda assim, sem ela, não existiria o agronegócio brasileiro tal como conhecemos.

Sua pesquisa criou a soja tropical, tecnologias de plantio, variedades resistentes, pecuária de alta produtividade. O Brasil se tornou potência agrícola porque uma estatal assumiu riscos que o privado jamais assumiria.

É prejuízo contábil.
Mas é lucro estrutural para o país.

Estatais de insumos hospitalares

Algumas empresas públicas de insumos para hospitais universitários têm déficits enormes. Porque atendem quem não gera lucro: populações vulneráveis, tratamentos de alta complexidade, serviços gratuitos.

Sem elas, o SUS colapsaria.

Prejuízo?
Não. Política pública.

A crise dos Correios: desmonte, competição desleal e perda do “filé”

Os Correios enfrentam um ciclo de perdas recentes — mas esse quadro não nasceu do acaso, muito menos de um suposto “modelo estatal falido”.

1. A perda do filé

Quando o monopólio do segmento lucrativo caiu, as empresas privadas correram atrás de entregas em capitais e grandes centros. A estatal ficou com o “osso”: cartas, interior, Amazônia, sertão, eleições, provas do ENEM, urnas, livros didáticos.

A equação virou inviável: o privado lucra no fácil; o público custeia o difícil.

2. Competição desleal

Amazon, Mercado Livre e plataformas de e-commerce usam exércitos de entregadores precarizados, sem CLT, sem piso salarial, sem encargos.

Os Correios têm custo trabalhista, estrutura fixa, obrigação de universalidade. Não há como competir em preços com quem simplesmente não cumpre regras.

3. O paralelo internacional: até os EUA aceitam prejuízo

O USPS, correspondência estatal dos Estados Unidos, acumula déficits gigantescos há anos.
E não é nem cogitado ser privatizado.

Porque cumpre serviço público essencial, atende zonas rurais, viabiliza voto por correspondência, mantém coesão territorial.

Se os EUA — referência global do capitalismo — toleram o déficit, é porque entendem o valor estratégico do serviço postal.

Cinco cenários concretos de risco com a privatização dos Correios

Agora, com a devida contextualização, é possível entender por que privatizar os Correios não é apenas vender uma empresa — é alterar profundamente a lógica de integração territorial do Brasil.

1. Abandono de municípios pequenos e zonas rurais

Privadas não têm obrigação de atender localidades remotas.
Mais de 2 mil municípios podem ficar sem serviços básicos de entrega, sem agência física e sem acesso a logística essencial.

2. Tarifas muito mais altas para milhões de brasileiros

Sem subsídio cruzado, enviar encomendas pode ficar até três vezes mais caro em regiões pobres.
Microempreendedores, agricultores familiares e pequenas lojas seriam esmagados por custos logísticos.

3. Colapso de serviços públicos dependentes dos Correios

ENEM, eleições, vacinação, distribuição de livros escolares — tudo isso ficaria mais caro, mais lento ou inviável em várias regiões.

4. Perda de soberania logística e dependência de corporações estrangeiras

Dados sensíveis, comunicações judiciais, documentação estatal e logística estratégica ficariam nas mãos de grandes empresas — muitas multinacionais.

5. Precarização em massa e queda drástica de qualidade

Terceirização ampla, demissões, metas agressivas e redução de rotas críticas tendem a degradar o serviço.
O Brasil já viu isso acontecer em outros setores.

Gestão, governança e o risco do curto prazo

Outro problema pouco discutido: governos que querem privatizar buscam “maquiar” resultados.
Cortam investimentos, reduzem capex, diminuem pessoal via PDVs — o lucro sobe artificialmente.
Mas a capacidade operacional despenca.

Foi assim com várias estatais antes de sua venda.
É assim com certas empresas privadas também — basta lembrar do colapso recente de gigantes varejistas.

Cortar investimento pode dar lucro no trimestre, mas mata a instituição no médio prazo.

Privatizar os Correios é renunciar à missão do Estado e ampliar desigualdades

Os Correios não estão em crise porque são estatais.
Estão em crise porque foram desmontados, submetidos a concorrência desigual, privados de áreas rentáveis e usados como instrumento político.

Privatizá-los agora seria completar esse ciclo de erosão — entregando a soberania logística do Brasil ao interesse privado e deixando milhões de brasileiros no abandono postal.

O debate necessário não é sobre vender a estatal.
É sobre reestruturá-la, fortalecê-la e reorientá-la para a missão que sempre cumpriu: integrar o país, reduzir desigualdades e atuar onde ninguém mais quer atuar.

No fim das contas, trata-se de um projeto de nação.
E não de uma planilha.