Presas da indiferença: a tragédia silenciosa das orcas francesas e a crueldade de mantê-las em cativeiro

Duas orcas, mãe e filho, estão presas em um tanque na França. O parque onde elas viviam e davam shows está fechado há mais de um ano. O parque está caindo aos pedaços e os tanques das orcas já não apresentam condições ideais para a vida das orcas. Essa é a história de dois titãs dos mares: a mãe Wikie tem 23 anos e Keijo, o filho, tem 11 anos. As duas nasceram em cativeiro. E vivem em uma espera angustiante por liberdade que parece distante.

Quando o Marineland Antibes, um dos maiores parques marinhos da Europa, fechou suas portas em 5 de janeiro de 2025, ninguém imaginou que a verdadeira crise seria deixada para trás — e que ela teria nomes e consciências. Wikie e Keijo continuaram confinados nos mesmos tanques que já foram palcos de espetáculos.

Piscinas sem público. Vidas sem sentido.

Com a proibição francesa de manter golfinhos e baleias em performances, o parque sucumbiu. Mas as orcas ficaram. Escritores de cinema naturalistas poderiam escrever roteiros com menos drama. Hoje, as piscinas estão cobertas de algas, as arquibancadas desertas e os animais — cujos ancestrais selvagens percorrem até 160 km por dia nos oceanos — nadam em círculos, presos a um cotidiano monótono e desesperador.

É a caricatura cruel do que já foi tomado por simples entretenimento. Orcas são criaturas inteligentes, sociais e complexas. No mar, vivem em famílias, caçam, exploram, aprendem. Em tanques, vivem memórias curtas em espaços que mal cabem seus corpos.

Uma lei francesa de 2021 proibiu shows e a manutenção de cetáceos em cativeiro. Parecia uma vitória para os defensores dos direitos animais. Porém, a transição virou um pesadelo administrativo e moral. As questões logísticas e políticas empurram Wikie e Keijo de uma opção frustrada para outra — sem abrigo, sem esperança imediata. O prazo de adaptação à lei terminal no final desse ano.

Propostas para transferi-las para parques marinhos no Japão foram rejeitadas pelo governo francês, que citou falta de normas de bem-estar animal no país. Outros planos — como enviá-las ao Loro Parque nas Ilhas Canárias — também enfrentaram oposição de grupos ambientais e bloqueios legais.

O falso recanto do “santuário”

Alguns defensores clamam por um santuário marinho em águas abertas, como o proposto pelo Whale Sanctuary Project, no Canadá. Seria um retorno à natureza para Wikie e Keijo. Mas, infelizmente, esse projeto ainda não está pronto — e nem sequer possui instalações completas capazes de receber animais tão grandes e sensíveis.

Há, ainda, o risco real de que essa espera eterna em tanques decadentes acabe custando a vida deles — o destino silencioso que já acometeu dezenas de outros cativos ao redor do mundo.

A realidade brutal da vida em cativeiro

A vida de orcas em cativeiro raramente ultrapassa muito as duas ou três décadas. Na natureza, as fêmeas podem viver 80 anos ou mais, os machos até 60. Doenças, estresse, tédio, sistemas de águas tratadas quimicamente e o confinamento reduzem radicalmente essa expectativa.

Acrescente-se a isso que parques marinhos não são lares. São cenários onde curiosos pagam ingressos para ver animais enormes executarem comportamentos forçados. A promessa de enriquecimento ambiental e cuidados “especializados” pouco apaga a sensação de que estes gigantes marinhos nunca deveriam ter saído do oceano.

Olhando para Willie

Quem viveu a emoção do filme Free Willy lembra do poder de uma orca livre. Do vínculo entre humano e animal. Da injustiça de um ser criado para espetáculos. Wikie e Keijo representam uma história similar — desta vez sem aplausos e sem trilha sonora emocional. Mas com uma verdade incontestável: eles mereciam melhor.

A história de Wikie e Keijo ainda não terminou. Mas já diz muito sobre nós. Sobre a indiferença que pode nascer da complacência. Sobre a falha das leis quando não acompanham compaixão e ação. E, principalmente, sobre a urgência de repensar como tratamos criaturas que compartilham conosco a inteligência e a sensibilidade.