Há 1,4 milhão de anos, um meteoro rasgou o céu do Ártico canadense e cravou-se na Península de Ungava, no extremo norte de Quebec. O impacto liberou uma energia equivalente a 8.500 bombas de Hiroshima. Quando a poeira assentou e o gelo recuou, nasceu uma das formações naturais mais simétricas do planeta: a Cratera Pingualuit.
Quase perfeitamente circular, com 3,44 quilômetros de diâmetro, essa cicatriz cósmica guarda em seu interior um lago de águas tão puras que rivalizam com as do Lago Mashu, no Japão. A salinidade de apenas 3 partes por milhão — contra 500 ppm dos Grandes Lagos norte-americanos — transforma o local em um dos reservatórios de água doce mais cristalina do mundo.
A descoberta que mobilizou o planeta
Em 20 de junho de 1943, durante um voo meteorológico de rotina, a tripulação da Força Aérea dos Estados Unidos avistou algo extraordinário. Lá embaixo, perdida na vastidão gelada de Quebec, uma formação circular perfeita refletia o céu como um espelho compacto incrustado na tundra.
A fotografia aérea circulou discretamente entre militares durante a Segunda Guerra Mundial. Pilotos usavam a cratera como auxílio à navegação, mas o segredo só vazou ao público em 1950, quando o mundo finalmente conheceu o fenômeno.
Jornais de diversos países estamparam a descoberta. Muitos a chamaram de “oitava maravilha do mundo”. A simetria perfeita, o isolamento extremo e o mistério de sua origem conquistaram a imaginação popular.
A caça aos diamantes e o batismo científico
Fred W. Chubb, garimpeiro de Ontário, foi um dos primeiros civis a se interessar pela formação. Convencido de que se tratava de uma cratera vulcânica, ele vislumbrou jazidas de diamantes similares às da África do Sul. Chubb convenceu o Dr. V. Ben Meen, diretor do Museu Real de Ontário, a investigar o local.
Em 1950, Meen e Chubb sobrevoaram a região. Durante essa expedição, o geólogo propôs o nome “Cratera Chubb” — embora suspeitasse que a origem não fosse vulcânica. Um ano depois, em julho de 1951, uma expedição completa financiada pela National Geographic Society partiu para a cratera em um hidroavião PBY Catalina.
Os pesquisadores buscaram fragmentos de níquel-ferro do meteoro usando detectores de minas do exército americano, mas os altos níveis de magnetita no granito local frustraram a busca. Ainda assim, um magnetômetro detectou anomalias sob a borda norte da cratera, indicando material metálico enterrado.
A hipótese dos diamantes foi descartada. A origem meteorítica confirmou-se aos poucos, por meio de análises petrográficas que revelaram metamorfismo de choque e características microscópicas típicas de impactos cósmicos.
Nomes múltiplos, identidade única
A cratera mudou de nome três vezes ao longo das décadas. Após “Cratera Chubb”, tornou-se oficialmente “Cratère du Nouveau-Québec” (Cratera do Novo Quebec) em 1954, a pedido do Conselho Geográfico de Quebec.
Em 25 de janeiro de 2001, recebeu finalmente seu nome inuktitut: Pingualuit, que significa “espinhas” ou “botões de acné” — uma referência às colinas que pontuam a região. Mas para os inuítes que habitam essas terras há milênios, sempre existiu outro nome, muito mais poético: Olho de Cristal de Nunavik.
Um laboratório natural preservado pelo gelo
A cratera tem 400 metros de profundidade. Suas paredes rochosas, com inclinação de 40 a 45 graus, erguem-se 160 metros acima da superfície do lago. O próprio lago mergulha 267 metros, fazendo dele o mais profundo de Quebec e um dos mais profundos da América do Norte.
Durante a última era glacial, o gelo protegeu os sedimentos do fundo do lago da erosão. Isso significa que as camadas de lama preservam um registro climático de pelo menos dois períodos glaciais — informação rara e preciosa.
Em 2007 e 2010, o professor Reinhard Pienitz, da Universidade Laval, liderou expedições para coletar amostras de sedimentos. Diatomáceas — algas unicelulares cujas comunidades mudam com o clima — contam histórias de eras em que a região já foi livre de gelo, muito antes do Holoceno.
Cientistas da Universidade de Arkansas confirmaram que a cratera viveu pelo menos dois períodos interglaciais. Esses registros ajudam a entender as mudanças climáticas do passado e, por extensão, a prever as do futuro.
Vida em isolamento absoluto
O Lago Pingualuit não tem conexão com nenhum outro corpo d’água. É alimentado exclusivamente por chuva e neve derretida. Nenhum rio entra ou sai. Esse isolamento torna o local único — e misterioso.
Dentro das águas geladas vive uma única espécie de peixe: o omble chevalier (Arctic char). Como esses peixes chegaram lá permanece um enigma. Sem fluxos de água conectando o lago ao mundo exterior, teorias especulam que aves migratórias possam ter transportado ovos presos às patas ou penas.
Isolados por mais de 6.500 anos, esses peixes desenvolveram comportamentos extremos para sobreviver. Estudos indicam que recorreram ao canibalismo — os maiores devoram os menores para garantir a continuidade da espécie. É um laboratório natural de evolução, adaptação e resiliência genética.
A maravilha que não foi (oficialmente)
Embora tenha sido celebrada como a “oitava maravilha do mundo” pela imprensa da época, Pingualuit nunca recebeu reconhecimento oficial de organizações internacionais como a UNESCO ou iniciativas privadas como as Novas Sete Maravilhas do Mundo.
Seu isolamento extremo — fica a 88 quilômetros da comunidade mais próxima, Kangiqsujuaq — certamente contribuiu para isso. Apenas expedições bem planejadas, geralmente de hidroavião, conseguem alcançar o local. No inverno, a neve transforma tudo em um deserto branco homogêneo, onde até a cratera parece desaparecer.
Mesmo assim, a formação conquistou status de área protegida. Em 1º de janeiro de 2004, tornou-se o coração do Parque Nacional Pingualuit, administrado pela Société d’Établissement et de Protection de l’Environnement du Nunavik (SÉPAQ).
Turismo extremo e memória ancestral
Hoje, aventureiros que enfrentam o frio cortante e a logística desafiadora são recompensados com paisagens lunares e vistas de tirar o fôlego. Guias inuítes conduzem expedições de caminhada, esqui cross-country, caiaque e pesca no gelo.
Pierre Philie, geógrafo cultural francês que se apaixonou por Kangiqsujuaq há quatro décadas, relembra que os inuítes sempre conheceram a cratera. Não precisaram de aviões militares ou expedições científicas para descobrir o Olho de Cristal — ele sempre esteve ali, gravado em suas histórias e rotas de caça.
Markusie Qisiiq, diretor e guia do Parque Pingualuit, reforça: os povos originários conheciam e respeitavam esse lugar sagrado muito antes dos ocidentais chegarem em busca de diamantes ou glória científica.
Legado científico e inspiração cósmica
A identificação da Cratera Pingualuit como estrutura de impacto meteorítico pavimentou o caminho para a descoberta de mais de 20 outras crateras no leste do Canadá. Hoje, Quebec reconhece oito estruturas de impacto — Pingualuit é a menor delas. A maior é a famosa Cratera Manicouagan, com 100 quilômetros de diâmetro.
Pingualuit pertence ao seleto grupo de crateras pleistocênicas — apenas uma dúzia no mundo têm cerca de 1,4 milhão de anos. É também uma das mais bem preservadas globalmente, graças ao clima polar e à ausência de atividade humana intensa.
Comparada às crateras lunares visíveis por telescópio da Terra, Pingualuit tem dimensões modestas. Mas sua beleza, simetria e histórias científicas compensam qualquer comparação cósmica.
O futuro de um passado distante
Pingualuit segue atraindo pesquisadores, turistas extremos e curiosos. Cada visita ao Olho de Cristal é uma viagem no tempo — literalmente. As águas que brilham sob o céu ártico guardam memórias de eras glaciais, segredos de evolução biológica e a marca indelével de um visitante cósmico que transformou para sempre a face da Terra.
Embora não tenha se tornado oficialmente uma das maravilhas do mundo, Pingualuit prova que alguns lugares dispensam títulos. Basta estar lá, sob o vasto céu do Ártico, diante de um lago circular que reflete o infinito, para entender que certas belezas não cabem em listas.
