Petróleo, poder e guerra: ataques ao Irã elevam risco global e reacendem debate sobre interesses econômicos

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Os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra alvos estratégicos no Irã, neste 28 de fevereiro de 2026, recolocaram o petróleo no centro da geopolítica mundial. A reação não foi apenas diplomática ou militar. Foi imediata nos mercados.

O Irã produz mais de 3 milhões de barris de petróleo por dia e está ao lado do Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no planeta. Quando há ameaça militar nessa região, o mercado reage automaticamente. Não por ideologia, mas por cálculo de risco.

A história recente comprova. Em 2019, ataques às instalações da Saudi Aramco provocaram alta de quase 15% no Brent em um único dia — a maior variação diária em décadas. Em 2020, após a morte do general iraniano Qassem Soleimani, o petróleo subiu cerca de 4% no primeiro pregão. Em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o barril ultrapassou US$ 120.

O mecanismo é simples: se há risco de interrupção na oferta, o mercado incorpora um “prêmio de risco” ao preço futuro do barril. O temor de bloqueio no Estreito de Ormuz, retaliações iranianas ou ataques a petroleiros é suficiente para pressionar os contratos internacionais.

Além disso, o custo logístico aumenta. Em cenários de conflito, seguradoras aplicam o chamado “war risk premium”. Após ataques a navios no Golfo de Omã em 2019, o seguro marítimo chegou a subir até dez vezes para embarcações na região. O custo extra é repassado ao frete, que encarece o petróleo na ponta final.

Guerra lucrativa

Em 2022, com o petróleo em alta, a ExxonMobil registrou lucro recorde superior a US$ 55 bilhões — o maior de sua história. A Chevron também reportou ganhos históricos no mesmo período. O motivo é matemático: o custo de extração não sobe na mesma velocidade do preço de venda. A diferença amplia a margem.

Se um exportador vende 1 milhão de barris por dia e o preço sobe de US$ 75 para US$ 90, a receita diária cresce US$ 15 milhões. Em um mês, são US$ 450 milhões adicionais.

O setor militar também se beneficia de cenários de escalada. O orçamento de defesa dos Estados Unidos supera US$ 800 bilhões por ano. Em contextos de tensão, aumentam contratos para reposição de estoques, sistemas de defesa e logística. Empresas como Lockheed Martin e Raytheon Technologies tradicionalmente registram crescimento de encomendas em períodos de conflito.

Trump repete no Irã o mesmo discurso conta Nicolás Maduro. Diz que luta para mudar o regime em defesa do povo, mas está mesmo de olho no Petróleo

A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, acima de 300 bilhões de barris. Durante o governo de Donald Trump, os Estados Unidos adotaram estratégia declarada de “mudança de regime” contra Nicolás Maduro. Foram impostas sanções à estatal PDVSA, bloqueios financeiros e restrições severas às exportações.

O regime não caiu. Mas o controle sobre fluxos de exportação passou a depender de licenças e autorizações específicas concedidas por Washington. Em termos práticos, quem controla as autorizações controla o fluxo de receita.

Com Cuba, a política seguiu lógica semelhante. O embargo foi reforçado, mas com permissões pontuais para que empresas privadas negociassem petróleo sob condições específicas. Pressão econômica combinada com abertura seletiva de mercado.

A consequência global de uma alta prolongada no petróleo é conhecida. Em 2022, a inflação nos Estados Unidos chegou a 9,1%, com energia entre os principais vetores. Diesel mais caro encarece transporte. Transporte mais caro encarece alimentos. Fertilizantes sobem. Indústria sobe.

Nesse contexto, chama atenção o fato de que o próprio Donald Trump já declarou publicamente que merecia o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação internacional. Ao mesmo tempo, seu governo adotou políticas de pressão máxima contra Irã, Venezuela e Cuba, além de ações militares pontuais no Oriente Médio.

Os fatos econômicos mostram um padrão recorrente: tensão em região produtora relevante gera risco de oferta; risco de oferta eleva o preço; preço elevado amplia margens no setor energético; conflitos ampliam contratos militares; e a inflação global sente o impacto. Não é uma tese ideológica. É uma sequência econômica observável. No centro dessa engrenagem continua o mesmo elemento que molda guerras e alianças há mais de um século: o petróleo.