Pena de morte avança em 2025 mesmo com pressão global por abolição — e EUA entram na lista dos que retrocedem

Você já reparou como, em pleno século XXI, o mundo ainda oscila entre o progresso e o retrocesso? Pois é. Enquanto mais de 170 países já aboliram ou congelaram a pena de morte, um punhado de nações deu marcha à ré em 2025 — e fez isso com força.

O Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH) soou o alarme: o ano passado marcou um aumento “alarmante” nas execuções, concentrado em poucos países, mas com consequências globais. E não foi só por homicídio. Muitas dessas mortes foram aplicadas por crimes que nem sequer entram na definição internacional de “mais graves” — como tráfico de drogas, delitos cometidos na infância ou até atos políticos.

Volker Türk, alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, foi direto: “A pena de morte não reduz a criminalidade. Pelo contrário: abre espaço para erros irreversíveis, injustiças e abusos.”

Onde está acontecendo?

No Irã, pelo menos 1.500 pessoas foram executadas em 2025 — quase metade delas por crimes relacionados a drogas. Na Arábia Saudita, o número bateu recorde: 356 execuções, sendo 78% também ligadas a drogas. No Afeganistão, execuções públicas continuam, apesar de serem proibidas pelo direito internacional.

E nos Estados Unidos? Sim, lá também. Foram 47 execuções — o maior número desde 2009. Enquanto isso, Israel debate propostas que imporiam pena de morte obrigatória… só para palestinos. Isso mesmo: uma lei com dois pesos.

Mas nem tudo escureceu

Houve luz, sim. O Zimbábue aboliu a pena de morte para crimes comuns no fim de 2024. O Quênia iniciou uma revisão legal da prática. A Malásia revisou milhares de sentenças, tirando centenas do corredor da morte. O Vietnã reduziu os crimes puníveis com morte, e o Paquistão eliminou duas penas capitais para delitos não violentos.

É como se o mundo estivesse dividido entre quem olha para frente e quem insiste em voltar ao passado.

Enquanto isso, nos EUA…

A mesma nação que retoma execuções também intensificou a repressão contra migrantes. Türk denunciou operações do ICE (agência de imigração americana) que invadem escolas, igrejas, hospitais — e até casas — com uso excessivo de força. Em janeiro de 2026, uma mulher foi baleada até a morte durante uma operação em Minneapolis.

“O uso letal da força só é legítimo como último recurso, contra ameaça iminente à vida”, lembrou Türk. “Mas o que vemos são abordagens arbitrárias, sem avaliação individual, sem respeito ao devido processo.”

E as famílias? Despedaçadas. Crianças deixam de ir à escola com medo de que os pais não voltem. Pais desaparecem em centros de detenção sem informação, sem contato, sem defesa. Até agora, 30 mortes sob custódia do ICE foram registradas em 2025 — e já são seis em 2026.

A voz da ONU em Davos

Enquanto isso, em Davos, Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral da ONU, fez um discurso contundente: “Não negociamos fatos. Não negociamos verdades.” Ela comparou a Carta da ONU a um “seguro de vida coletivo” — algo que só funciona se todos pagarem a mensalidade, mesmo quando dá trabalho.

Baerbock alertou: instituições multilaterais estão sob ataque. E não por acaso. Quando governos usam desinformação como arma, quando silenciam diante de violações óbvias, quando tratam refugiados como ameaças… a confiança desaba. E sem confiança, não há cooperação. Sem cooperação, não há paz.

O que fica?

É duro dizer, mas o retrocesso existe. A pena de morte, longe de ser um resquício histórico, está sendo reativada — muitas vezes como ferramenta de controle, intimidação ou vingança política. E os EUA, tradicionalmente vistos como guardiões de certos valores democráticos, hoje aparecem tanto na lista dos que matam quanto na dos que perseguem.

Mas também há resistência. Há países que avançam. Há juízes que barram execuções. Há comunidades que acolhem migrantes. Há vozes — como a de Türk e Baerbock — que insistem: o mundo não precisa ser assim.

A pergunta que fica não é jurídica, nem técnica. É humana: que tipo de sociedade queremos construir? Uma que mata por vingança ou uma que protege a vida — mesmo quando é difícil?