Uma mulher morre a cada dois minutos no mundo em decorrência de uma doença que poderia ser evitada. O câncer de colo do útero segue avançando de forma silenciosa, transformando falhas no acesso à prevenção em uma tragédia global. Apesar de a ciência já dispor de vacinas eficazes, exames de rastreio e tratamentos consolidados, a desigualdade ainda determina quem vive e quem se torna estatística.
O câncer de colo do útero é hoje o quarto tipo de tumor mais comum entre mulheres em todo o planeta. Em 2022, foram registrados cerca de 660 mil novos casos e aproximadamente 350 mil mortes. A quase totalidade dessas ocorrências está diretamente ligada à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), um vírus extremamente comum, transmitido principalmente pelo contato sexual.
Na maioria das pessoas, o organismo elimina o HPV naturalmente. O problema surge quando a infecção persiste por anos, especialmente pelos tipos mais agressivos do vírus. Nessas situações, alterações celulares silenciosas podem evoluir para o câncer, caso não sejam identificadas e tratadas a tempo.
Por trás dos números, há histórias interrompidas. Mulheres jovens, em idade reprodutiva, frequentemente recebem o diagnóstico de forma tardia, enfrentando não apenas o risco de morte, mas também impactos profundos na fertilidade, na saúde emocional e na estrutura familiar. O câncer cervical não escolhe classe social ou nacionalidade, mas a rapidez do diagnóstico e o acesso ao tratamento definem o desfecho.
Os dados globais escancaram uma desigualdade alarmante. Cerca de 90% das mortes por câncer de colo do útero ocorrem em países de baixa e média renda. Regiões como África Subsaariana, América Central e Sudeste Asiático concentram as maiores taxas de mortalidade, reflexo da falta de programas contínuos de vacinação, da escassez de exames preventivos e da dificuldade de acesso ao tratamento oncológico. Em contrapartida, países que investiram de forma consistente em prevenção já observam queda expressiva na incidência da doença.
Diante desse cenário, a comunidade internacional estabeleceu uma das estratégias mais ambiciosas da história da saúde pública. A meta é clara: eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública. Para isso, foi definido o chamado tripé “90-70-90”, que prevê vacinar 90% das meninas contra o HPV até os 15 anos, garantir que 70% das mulheres realizem exames de rastreio ao longo da vida adulta e assegurar que 90% das pacientes diagnosticadas tenham acesso ao tratamento adequado.
Se essas metas forem alcançadas, milhões de vidas poderão ser salvas nas próximas décadas. A prevenção, segundo especialistas, continua sendo o caminho mais eficaz. A vacina contra o HPV, indicada principalmente entre os 9 e 14 anos, protege antes do início da vida sexual. Já exames como o Papanicolau e o teste de DNA-HPV permitem identificar lesões ainda em estágio inicial, quando o tratamento é simples e altamente eficaz.
Hoje, o câncer de colo do útero está entre os tipos de câncer com maior potencial de cura, desde que diagnosticado precocemente. A persistência da doença, portanto, não é apenas um desafio médico. É uma questão de equidade, de políticas públicas e de acesso democrático aos avanços da ciência. O silêncio que mata pode ser quebrado com informação, prevenção e compromisso coletivo.
