A Imprensa não larga do seu pé por conta do maior crime de pedofilia da era moderna? Seu nome aparece mais de um milhão de vezes nos arquivos? Suas tentativas de mudar o foco da Imprensa e dos Congressistas de oposição não estão surtindo efeito? Ataque um país. A Venezuela nem deu pro cheiro? Escolha outro: que tal o Irã. Motivo: tirar a Imprensa do meu pé. Mortos? E daí, contanto que não seja eu. Essa é a lógica para o ataque ao Irã e o assassinato a sangue frio de suas lideranças. Basta olhar o noticiário americano e perceber que Epstein nem existe mais.
O Manual já foi Escrito
A estratégia tem nome técnico na ciência política: wag the dog — abanar o cachorro pelo rabo. A cauda — o escândalo doméstico, a investigação criminal, o nome nos arquivos — passa a controlar o cão, que é o Estado e toda a sua máquina bélica. O roteiro é simples e eficaz:
Pegue um país. Qualquer país que já tenha história de antagonismo com os Estados Unidos. Que já seja vilão no imaginário coletivo. Que a população esteja condicionada a odiar sem precisar de muita explicação. Ataque. Com espetáculo. Com míssil. Com morte de liderança. Com imagem de explosão ao vivo. E espere. A imprensa, que é voraz por natureza, vai seguir o sangue novo. Vai esquecer o sangue velho.
Crime e castigo
Os arquivos Epstein estavam voltando. Com força. Com nomes. Com detalhes que não davam para ignorar. Mais de um milhão de referências. Congressistas fazendo perguntas incômodas. Jornalistas que não estavam largando o osso. Ataque o Irã. E bye-bye Epstein!
Trump sabe bem como funciona. Não precisa de censura escancarada é só dar outra pauta para a Imprensa. Os apresentadores que passavam horas nos arquivos passaram a falar de mísseis. Os analistas que conectavam pontos ligando Trump e Epstein, foram trocados por outros que explicam a importância estratégica do Golfo Pérsico. O ciclo de notícias virou. Novas vítimas estão no foco.
Mortos e vítimas
Os mortos da guerra têm corpo. Têm família. Têm funeral. São iranianos, são soldados, são civis que dormiam quando o míssil chegou. Morreram porque alguém precisava de uma distração.
Os mortos da impunidade não têm funeral. São as vítimas de Epstein que continuam sem justiça. São os nomes nos arquivos que respiram aliviados a cada dia que a imprensa não fala no assunto. É o crime original — o abuso sistemático de crianças por uma rede que envolvia o mais alto escalão da política, das finanças e do entretenimento mundial — que se afasta mais um pouco da punição a cada nova notícia sobre o Oriente Médio.
Impunidade orquestrada
Toda guerra de distração tem um ingrediente essencial: o esquecimento. Sem ele, não funciona. Se as pessoas não esquecem, a estratégia desmorona. Por isso, lembrar é, nesse caso, um ato político.
Não devemos cair na esparrela do golpe midiático e esuecer os documentos liberados que a mídia parou de comentar assim que os primeiros mísseis cruzaram o céu. Temos que continuar perguntando o que eles não querem que você pergunte: quem são os nomes nos arquivos? Por que a investigação nunca chegou onde devia? Quem tinha interesse em que Epstein não falasse? Porque ninguém foi preso ainda?
E a pergunta que amarra tudo: qual é a relação entre a urgência repentina dessa guerra e o calendário das revelações que ameaçavam carreiras muito específicas?
As vítimas de Epstein não têm exército. Não têm porta-aviões. Não têm como mudar o ciclo de notícias com um único gesto. Têm só a esperança de que o mundo não se distraia. São duas notícias importantes: a primeira, um crime continuado com vítimas sem justiça; a segunda, uma guerra sem sentido, com centenas de mortes desnecessárias e assassinatos covardes, na verdade outro crime! Ambos precisam de holofotes e responsabilização. Não podemos sobrepor e apagar os crimes de Epstein.
Enquanto a guerra de distração se desenrola e as mortes aumentam, é preciso não esquecer do crime que motivou a distração e seus criminosos.
