Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico após 25 anos de negociações

Tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo e ainda depende de ratificação nos parlamentos.

Após mais de duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia assinaram neste sábado (17) um acordo comercial considerado histórico. A cerimônia ocorreu em Assunção, no Paraguai, reunindo representantes dos países sul-americanos e da União Europeia. O tratado cria uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas.

A assinatura encerra um processo iniciado em 1999, marcado por impasses políticos, mudanças de governo e forte resistência de setores produtivos, sobretudo na Europa. Apesar do avanço, o acordo ainda não entra em vigor. Para valer, precisará ser ratificado pelos parlamentos nacionais dos países do Mercosul, pelo Parlamento Europeu e pelos legislativos dos Estados-membros da União Europeia.

O texto prevê a eliminação gradual de tarifas sobre a maior parte dos produtos comercializados entre os dois blocos. Do lado europeu, a abertura se concentra em bens industriais, como automóveis, máquinas, equipamentos e produtos químicos. Já o Mercosul passa a ter acesso ampliado ao mercado europeu para produtos agrícolas e alimentos processados, com prazos diferenciados e cotas para itens considerados sensíveis.

Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o acordo é visto como estratégico. A expectativa é de ampliação das exportações de carne bovina, aves, açúcar, etanol, café e produtos industrializados, além de maior previsibilidade para investimentos estrangeiros. O tratado também tende a reduzir custos de importação de máquinas e insumos europeus, o que pode aumentar a competitividade da indústria brasileira e gerar efeitos positivos sobre emprego e renda no médio prazo.

Do outro lado do Atlântico, porém, o clima está longe de ser de consenso. Agricultores europeus, especialmente franceses, reagiram com críticas duras ao acordo. Produtores rurais alegam que enfrentarão concorrência de alimentos produzidos a custos mais baixos no Mercosul e com regras ambientais e sanitárias consideradas menos rígidas. Na França, o tema provocou protestos, pressão sobre o governo e forte debate político, com sindicatos agrícolas acusando a União Europeia de sacrificar o campo em nome do livre comércio.

Além da redução tarifária, o acordo inclui capítulos sobre sustentabilidade, compromissos ambientais, direitos trabalhistas e mecanismos de solução de controvérsias. Esses pontos foram decisivos para destravar a assinatura, mas continuam sendo alvo de questionamentos durante o processo de ratificação.

No curto prazo, a assinatura tem peso político e simbólico. Ela sinaliza uma aposta no multilateralismo em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e avanços do protecionismo. No médio e longo prazos, o desafio será transformar o texto em resultados concretos para empresas, trabalhadores e consumidores.

Enquanto isso, o acordo Mercosul–União Europeia segue no centro das atenções. O texto agora deixa o campo diplomático e entra no terreno mais sensível da política interna, onde interesses econômicos, ambientais e sociais tendem a colidir.