Manuscrito Voynich pode ter sido encadernado fora de ordem, aponta estudo
Pesquisadores propõem que o manuscrito Voynich foi encadernado com páginas fora de ordem, o que pode ajudar a entender seu enigma.
Um estudo publicado nesta segunda-feira (19) na revista Digital Medievalist sugere que o manuscrito Voynich, um dos maiores enigmas da história do livro, pode ter sido encadernado de forma incorreta ainda no século XV, deixando suas páginas fora de ordem. Segundo os autores, essa desorganização ajudaria a explicar por que o texto resiste a todas as tentativas de decifração.
O códice medieval tem cerca de 240 páginas, cobertas por aproximadamente 38 mil palavras de uma escrita própria, chamada “Voynichese”, além de ilustrações de pessoas, plantas e símbolos astrológicos. Conhecido também como manuscrito Beinecke, ele esteve nas mãos de um imperador do Sacro Império Romano, foi comprado por Wilfrid Voynich em 1912 e está desde 1969 na biblioteca de livros raros da Universidade Yale.
Há mais de um século, decifradores, linguistas e estudiosos de literatura medieval tentam ler o conteúdo do documento, sem sucesso. A nova hipótese surge de uma pista física, e não de uma leitura do texto.
Ao pesquisar quantos copistas trabalharam no documento, a pesquisadora Lisa Fagin Davis, coautora do estudo e diretora executiva da Medieval Academy of America, percebeu que a letra alterna de maneira que não faz sentido. Ela também notou ilustrações que atravessam a dobra central de uma página e reaparecem do outro lado, mesmo havendo várias páginas entre elas.
Junto com Colin Layfield, pesquisador de sistemas de informação da Universidade de Malta, Davis propõe que essa estrutura seria resultado de alguém que encadernou um material que não conseguia ler. Em manuscritos medievais, folhas de pergaminho eram dobradas ao meio, formando bifólios. Cerca de cinco deles eram aninhados num caderno, chamado de quire, e vários cadernos eram costurados na lombada para formar o livro.
Os pesquisadores sugerem que o Voynich seria, na verdade, um conjunto de folhas soltas, os chamados “singulions”, que nunca deveriam ter sido unidas em um livro. Para testar a ideia, Layfield aplicou a análise semântica latente, técnica de processamento de linguagem natural criada no fim dos anos 1980 para encontrar padrões ocultos em textos. Como o volume de texto é pequeno, ele explica que os métodos modernos de inteligência artificial não se aplicam bem, porque precisam de quantidades enormes de dados para treinar.
A análise mostrou que algumas páginas têm baixa semelhança entre si, o que sugere que não pertenciam ao mesmo conjunto, enquanto outras são muito parecidas e teriam sido feitas para ser lidas juntas. Para Davis, a hipótese resolve problemas como o de cada copista ter escrito apenas uma folha e o de ilustrações que cruzam a lombada.
Os autores deixam claro que o trabalho não traduz o texto. Nas palavras de Davis, a pesquisa “não nos leva até lá”, mas faz o campo avançar, já que não é possível dar sentido a um livro com as páginas embaralhadas. Os estudos anteriores que partiam da ordem tradicional do manuscrito precisarão ser revistos.
Como exemplo de que enigmas desse tipo podem ser resolvidos, Davis cita o Cain’s Jawbone, quebra-cabeça linguístico dos anos 1930 formado por 100 páginas de uma trama de assassinato dispostas na ordem errada, que foi decifrado por um pequeno grupo de pessoas. Agora, a equipe pretende comparar o formato de uma grande mancha de água na margem superior de algumas páginas, que deveria ser simétrica de uma folha para outra, o que pode ajudar a reordenar o material.


