Israel ampliou nas últimas semanas ações administrativas e coercitivas na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, movimento que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), aprofunda a apropriação de terras palestinas por colonos judeus e compromete de forma grave as perspectivas de uma solução de dois Estados.
Em declaração divulgada em 9 de fevereiro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou “grave preocupação” com a alegada decisão do gabinete de segurança israelense de autorizar medidas nas chamadas Áreas A e B da Cisjordânia — regiões que, pelos acordos existentes, deveriam estar sob controle civil e administrativo palestino. De acordo com relatos citados pela ONU, as ações facilitam a tomada de terras palestinas e ampliam o poder territorial de Israel.
“O curso atual no terreno está corroendo ainda mais a perspectiva de uma solução negociada de dois Estados”, afirmou Guterres, segundo comunicado de seu porta-voz. Ele reiterou que todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, “não possuem validade legal” e constituem “uma violação flagrante do direito internacional”, em desacordo com resoluções das Nações Unidas e com decisões do Tribunal Internacional de Justiça.
Expansão territorial e contexto político
O movimento ocorre em um contexto de alinhamento político entre o governo israelense e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos desde janeiro de 2025, cuja gestão anterior ficou marcada por decisões favoráveis a Israel, como o reconhecimento de Jerusalém como capital israelense e a validação de assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional. Trump, que mantém interesses no setor imobiliário e vínculos históricos com grandes incorporadoras, voltou a defender publicamente uma postura de apoio irrestrito a Israel desde o início da atual guerra em Gaza.
Dados de organismos internacionais indicam aumento significativo na aprovação de novos projetos habitacionais para colonos israelenses e no deslocamento forçado de famílias palestinas. O alerta ocorre em meio ao avanço visível de assentamentos e ao aumento de despejos forçados de famílias palestinas, especialmente em bairros como Silwan, em Jerusalém Oriental, onde comunidades inteiras enfrentam ordens de remoção e demolição de imóveis.
Durante coletiva de imprensa em Nova York, o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou que as recentes decisões israelenses “não estão nos levando na direção certa”. Segundo ele, as medidas afastam cada vez mais a possibilidade de um Estado palestino viável e enfraquecem a capacidade da Autoridade Palestina de exercer controle efetivo sobre seu território e seu próprio futuro político.
Justificativas e reações
O governo israelense afirma que as medidas atendem a “necessidades de segurança” e ao “direito histórico do povo judeu”, argumento rejeitado pela Autoridade Palestina e por entidades como a ONU, que classificam os assentamentos como violação da Quarta Convenção de Genebra. Para a ONU, essas práticas não apenas desestabilizam a região, mas consolidam uma ocupação considerada ilegal pelo direito internacional.
Para diplomatas europeus, a aceleração do processo compromete qualquer negociação futura e consolida uma ocupação permanente. O governo palestino acusa Israel de usar o conflito em Gaza como cortina de fumaça para avançar na Cisjordânia, ampliando o controle territorial e reduzindo ainda mais as perspectivas de um Estado palestino viável.
Impacto humanitário no terreno
No terreno, o impacto é imediato. Além da escalada de confrontos entre colonos e palestinos, agências humanitárias alertam para o agravamento da crise social e econômica nos territórios ocupados, com acesso limitado a água, trabalho e serviços básicos. Comunidades inteiras têm sido afetadas por demolições de casas, restrições de mobilidade e expansão de áreas militares ou de uso exclusivo de colonos.
Enquanto a tensão aumenta na Cisjordânia, a crise humanitária segue grave na Faixa de Gaza. A ONU informou que, apesar de restrições operacionais e de segurança, agências humanitárias continuam a atender centenas de milhares de pessoas diariamente com a distribuição de refeições, transferências de dinheiro digital e rações mensais. Ainda assim, a escassez de água permanece crítica, especialmente na Cidade de Gaza, onde apenas cerca de 6 mil metros cúbicos de água chegam diariamente à população, volume considerado insuficiente.
Para mitigar a situação, parceiros humanitários intensificaram a produção de água e o transporte por caminhões a partir de poços subterrâneos e usinas privadas de dessalinização. Desde o fim de janeiro, mais de 100 mil galões de água foram distribuídos, além de centenas de milhares de itens de higiene, como sabão, kits sanitários e latrinas domésticas.
A ONU também alertou para o risco contínuo de artefatos explosivos não detonados. Desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em outubro do ano passado, foram registrados 33 incidentes envolvendo munições explosivas, com nove mortes e 65 feridos. Apenas na última semana, equipes especializadas realizaram mais de 200 avaliações de risco e alcançaram mais de 10 mil pessoas com ações educativas sobre o perigo desses materiais.
Restrições e apelo internacional
Segundo o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), as operações de ajuda continuam sendo prejudicadas por restrições impostas por Israel, incluindo limitações à entrada de itens classificados como de “dupla utilização”, cancelamento do registro de ONGs internacionais e restrições à atuação da agência da ONU para refugiados palestinos, a UNRWA.
A tensão aumenta em um cenário de isolamento diplomático crescente de Israel e de pressão internacional por um cessar-fogo duradouro e pela retomada de negociações políticas. Diante do cenário, Guterres apelou para que Israel reverta as medidas adotadas e instou todas as partes a preservarem “o único caminho para uma paz duradoura”: uma solução negociada de dois Estados, baseada no direito internacional e nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
