Em um movimento inesperado no cenário de preços do país, o índice tradicionalmente usado para corrigir contratos de aluguel — o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) — voltou a cair em fevereiro de 2026, interrompendo uma sequência recente de aumentos. Segundo dados divulgados nesta quinta-feira pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o indicador registrou queda de 0,73% no mês — um recuo que merece atenção de inquilinos, proprietários e economistas.
O resultado de fevereiro contrasta com a alta de 0,41% observada em janeiro e sinaliza um cenário de deflação acumulada. No acumulado de 2026, o IGP-M já apresenta recuo de 0,32%, e no período de 12 meses a queda chega a 2,67%, uma reversão significativa frente aos índices observados no ano passado.
A mudança no índice tem impacto direto no mercado imobiliário, sobretudo nos contratos de aluguel que costumam ser ajustados anualmente com base no IGP-M. Para quem tem contrato com data de reajuste próxima, como em março, a expectativa é que não haja alta no valor das mensalidades ou até que o contrato seja corrigido para baixo.
O que está por trás da queda
A maior influência nesse recuo foi o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa cerca de 60% da composição do IGP-M. Este componente mede a variação de preços no atacado e registrou queda de 1,18% em fevereiro, revertendo a alta de 0,34% de janeiro. A redução foi puxada pela diminuição dos preços de importantes commodities, como minério de ferro (-6,92%), soja (-6,36%) e café (-9,17%).
A desaceleração das matérias-primas indica redução da pressão de custos na cadeia produtiva, um sinal de enfraquecimento das pressões inflacionárias ao longo do processo de produção e atacado.
Outro componente do índice, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) — que mede a inflação no varejo — também desacelerou em fevereiro. O IPC subiu 0,30%, abaixo dos 0,51% registrados em janeiro, com menor ritmo de alta em categorias como alimentação, saúde e transportes.
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que integra o IGP-M com peso menor, avançou 0,34%, mas também mostrou desaceleração em relação ao mês anterior.
Implicações para o mercado de aluguel
Com o IGP-M a caminho de fechar o mês no negativo, muitos contratos de locação com aniversário em fevereiro e março poderão ter reajustes zerados ou reduzidos, dependendo das cláusulas contratuais. É importante destacar, contudo, que mesmo com a queda do índice, a maioria dos contratos não permite redução do valor pago pelo inquilino — apenas a manutenção ou ajuste inferior ao que vinha sendo praticado.
Especialistas em economia ressaltam que a tendência de queda no IGP-M reflete fatores conjunturais de mercado global, como menor demanda por commodities e despesas industriais mais controladas. Isso pode influenciar contratos de aluguel, mas não necessariamente indica uma queda generalizada nos preços de imóveis ou na demanda por locação.
Analistas alertam ainda que é preciso acompanhar os próximos meses para entender se o movimento de retração do IGP-M será sustentável ou se outras pressões — como custos de mão de obra na construção civil ou reajustes de serviços — poderão virar novamente a direção dos preços.
