Especialistas apontam que hábitos modernos, estresse crônico e falta de acompanhamento médico estão por trás do aumento de ataques cardíacos antes dos 40 anos.
Você já percebeu como a palavra “infarto” deixou de soar distante? Não é mais uma história que acontece só com o pai do amigo ou com alguém acima dos 60 anos. Cada vez mais, ela aparece cedo demais. Aos 30. Aos 35. Às vezes antes disso.
Cardiologistas no Brasil e no exterior acendem o alerta. O ataque cardíaco, antes associado ao envelhecimento, passou a atingir adultos jovens em ritmo preocupante. E não há mistério nisso. Há rotina. Há escolhas. Há um modo de vida que cobra a conta sem avisar.
Para a cardiologista Olga Souza, diretora nacional de Cardiologia da Rede D’Or, o ponto central é claro e direto: prevenção. “É a palavra-chave”, resume. Não como discurso abstrato, mas como prática diária. Segundo ela, boa parte dos casos poderia ser evitada com acompanhamento médico precoce e atenção aos fatores de risco, mesmo em pessoas que se consideram saudáveis.
Um problema que cresce em silêncio
O infarto agudo do miocárdio acontece quando o fluxo de sangue para o coração é interrompido, geralmente por obstrução das artérias coronárias. O músculo cardíaco sofre. E o tempo vira inimigo. Quanto mais demora o socorro, maiores os danos. Em muitos casos, irreversíveis.
No Brasil, dados recentes mostram aumento nas internações por infarto em pessoas com menos de 40 anos. O fenômeno não é isolado. Também aparece em levantamentos internacionais, especialmente em países onde a vida urbana impõe jornadas longas, alimentação desregulada e pouco espaço para o autocuidado.
O que assusta é o fator surpresa. Jovens raramente se veem como pacientes cardíacos. Ignoram sinais. Normalizam o cansaço extremo. Atribuem dores no peito à ansiedade ou ao estresse. E seguem em frente.
Até não dar mais.
O coração sente o peso da rotina
Não existe um único culpado. O que há é uma soma de excessos e ausências. Excesso de ultraprocessados, açúcar, gordura e álcool. Ausência de atividade física regular, sono de qualidade e acompanhamento médico.
Pressão alta, colesterol elevado, diabetes e obesidade aparecem cada vez mais cedo. O tabagismo, inclusive com cigarros eletrônicos, entra nesse pacote. O estresse constante, esse companheiro invisível da vida moderna, completa o cenário.
Pense no coração como um motor que trabalha sem pausa. Se o combustível é ruim e a manutenção não acontece, ele falha. Não por acaso, estudos internacionais indicam que a maioria dos primeiros infartos está diretamente ligada a fatores de risco que poderiam ser controlados.
Há ainda hábitos que passam despercebidos. Pular refeições, comer sempre tarde da noite, viver à base de cafeína. Tudo isso desorganiza o metabolismo e favorece o acúmulo de placas nas artérias.
Jovem, mas mais vulnerável
Existe um detalhe pouco conhecido. Em pessoas mais velhas, o organismo costuma desenvolver uma espécie de “rota alternativa” de circulação, chamada circulação colateral. Em jovens, isso quase não existe. Quando uma artéria entope, o impacto tende a ser mais abrupto.
O resultado são quadros graves, muitas vezes com maior risco de complicações.
Entre as mulheres jovens, o avanço do problema também preocupa. As mortes por infarto nessa faixa etária cresceram de forma significativa nas últimas décadas, derrubando o mito de que o coração feminino está naturalmente protegido.
Prevenção não é luxo, é necessidade
A mensagem dos especialistas é direta. Não espere sintomas graves para procurar um cardiologista. Check-ups regulares, especialmente a partir dos 30 anos, fazem diferença. Medir pressão, acompanhar colesterol e glicose não é exagero. É cuidado básico.
Atividade física regular, alimentação simples e menos industrializada, redução do estresse e abandono do cigarro salvam vidas. Literalmente.
No Espírito Santo, cardiologistas reforçam que o Sistema Único de Saúde e a rede privada oferecem exames e acompanhamento capazes de identificar riscos precocemente. O desafio está em mudar a cultura do “só vou ao médico quando algo dói”.
Porque, quando o coração dói, o tempo costuma ser curto.
