Setor retoma fôlego no início do ano, mas economistas alertam que o cenário de juros elevados ainda pode frear o avanço nos próximos meses
O Brasil começou 2026 com notícia boa no setor produtivo. A indústria nacional cresceu 1,8% em janeiro na comparação com dezembro de 2025 — o melhor desempenho para o mês desde 2022. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início de março.
O resultado veio acima do que boa parte do mercado esperava. Em doze meses, o crescimento acumulado chegou a 3,2%, sinal de que o setor vem sustentando uma trajetória de expansão mesmo em um ambiente econômico que ainda impõe obstáculos — entre eles, a taxa Selic mantida em patamar historicamente elevado.
Quatro categorias, quatro avanços
Dos quatro grandes grupos que compõem o índice industrial, todos registraram alta em janeiro. Os bens de capital — máquinas e equipamentos usados para produzir outros bens — lideraram o crescimento, com expansão de 5,3%. É um sinal relevante: quando as empresas investem em equipamentos, em geral estão apostando na continuidade da produção.
Os bens intermediários, que entram como insumo em outras cadeias produtivas, subiram 1,9%. Já os bens de consumo duráveis — geladeiras, automóveis, eletrônicos — avançaram 2,7%, enquanto os semiduráveis e não duráveis ficaram com alta mais modesta, de 0,6%.
Entre os 25 ramos industriais monitorados pelo IBGE, 16 apresentaram crescimento no mês. Os destaques ficaram com a fabricação de veículos automotores (alta de 6,1%), a indústria farmacêutica e a produção de máquinas e equipamentos elétricos. Do lado negativo, a indústria extrativa recuou 1,4%, puxada principalmente pela queda na extração de petróleo e gás natural.
O que está por trás desse desempenho
Parte da explicação para o bom começo de ano está no efeito calendário — janeiro de 2026 teve mais dias úteis do que dezembro de 2025, o que naturalmente favorece a produção. Mas analistas ouvidos por veículos como o Valor Econômico e o G1 apontam que há fatores estruturais também contribuindo.
O mercado de trabalho brasileiro fechou 2025 com taxa de desemprego abaixo de 7% — o menor nível em décadas — e isso manteve o consumo das famílias aquecido. Com mais gente empregada e, em muitos casos, com renda real crescendo, a demanda por bens industrializados seguiu firme.
Além disso, a agropecuária teve um 2025 robusto, o que impulsionou a demanda por máquinas agrícolas e insumos, segmentos que puxaram parte do crescimento de bens de capital registrado em janeiro.
O alerta que vem junto com a boa notícia
Nem tudo é tranquilo no horizonte. A taxa Selic — que o Banco Central manteve acima de 14% ao ano ao longo de 2025 e que só recentemente começou a ser discutida para um ciclo de cortes mais agressivo — segue como um peso sobre o crédito e o investimento. Financiar máquinas, ampliar plantas industriais e estocar matérias-primas fica mais caro quando os juros estão nesse patamar.
Economistas consultados pela CNN Brasil e pelo UOL destacam que o crescimento de janeiro é encorajador, mas que a continuidade depende de dois fatores: a velocidade com que o Banco Central conseguirá afrouxar a política monetária sem reacender a inflação, e o comportamento da demanda externa, especialmente num momento em que a economia global ainda patina em instabilidade.
A indústria de transformação, que é o coração do setor e responde pela maior parte dos empregos industriais, cresceu 2,1% em janeiro. É um ritmo razoável — mas distante do potencial que o setor teria se o custo do dinheiro fosse mais baixo.
Regionalmente, o interior avança
A expansão industrial não ficou concentrada apenas nas regiões tradicionais. Estados do Centro-Oeste, que abrigam uma cadeia agroindustrial cada vez mais sofisticada, registraram crescimento acima da média nacional. O Sul do país também contribuiu positivamente, com destaque para a produção metal-mecânica e o setor alimentício.
No Sudeste — ainda o maior polo industrial do Brasil —, o desempenho foi positivo, mas um pouco mais contido, pressionado pelos custos operacionais e pela concorrência de produtos importados, que ficaram mais competitivos com o câmbio relativamente valorizado no início do ano.
