Projeto Abá Sepiákatu oferece oficinas gratuitas para jovens e adultos das aldeias; curtas serão exibidos na Teia Nacional dos Pontos de Cultura. Inscrições vão até sexta (27).
Aracruz vai virar set de filmagem. Mas não daqueles montados de fora para dentro. Desta vez, as câmeras estarão nas mãos de quem vive o território todos os dias.
Estão abertas até 27 de fevereiro as inscrições para as oficinas do Projeto Abá Sepiákatu – Mostra Audiovisual Indígena, iniciativa voltada à formação de jovens e adultos indígenas das aldeias do município. As atividades começam em 5 de março e são gratuitas. O cadastro deve ser feito por formulário online.
O projeto vai selecionar participantes para três oficinas de formação audiovisual. Ao final, os próprios alunos vão produzir curtas-metragens que serão exibidos durante a Teia Nacional dos Pontos de Cultura, marcada para acontecer entre 24 e 29 de março, também em Aracruz.
É a imagem que sai da aldeia para o país.
Formação com foco em território e identidade
Cada oficina oferece 15 vagas, preenchidas por ordem de inscrição. Se houver alta procura, a organização poderá formar lista de espera ou redirecionar candidatos para outras atividades do projeto.
A proposta não é apenas ensinar técnica. É construir narrativa.
As oficinas abordam Introdução ao Audiovisual — com ênfase em Linguagem e Território —, Produção e Direção, além de Edição e Finalização de Curtas-Metragens. O conteúdo será conduzido por profissionais da área e por mestres indígenas.
Entre os formadores está o cineasta tupinikim T-Kauê (Tiago Mateus), que já desenvolveu produções a partir da própria vivência em território indígena. A ideia é simples, mas potente: quem vive a história é quem conta a história.
Você já percebeu como, durante décadas, a imagem indígena no cinema brasileiro foi construída quase sempre por olhares externos? Agora, o movimento se inverte. A câmera deixa de ser instrumento de observação distante e passa a ser ferramenta de afirmação.
Cultura como política pública
O projeto é realizado pelo Núcleo de Projetos da Associação Indígena Tupinikim e Guarani, entidade que atua na defesa de direitos e na valorização cultural dos povos indígenas da região.
A iniciativa foi selecionada por edital da Prefeitura Municipal de Aracruz, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, mecanismo federal de incentivo à cultura que tem financiado projetos em todo o país após o período mais crítico da pandemia.
Em diferentes estados, editais da Aldir Blanc vêm ampliando o acesso de comunidades tradicionais à produção cultural. No Espírito Santo, iniciativas voltadas a povos indígenas e quilombolas têm ganhado espaço nas políticas públicas recentes, sobretudo em ações de formação e circulação cultural.
O audiovisual como ferramenta de memória
Nas aldeias de Aracruz vivem povos Tupinikim e Guarani, que mantêm práticas culturais, língua, rituais e modos próprios de organização social. Registrar essas experiências não é apenas produzir um filme. É criar um arquivo de memória.
E memória, a gente sabe, não é passado parado. É território em movimento.
Os curtas produzidos no Abá Sepiákatu serão exibidos durante a Teia Nacional, evento que reúne representantes de Pontos de Cultura de todo o Brasil. A expectativa é que as produções dialoguem com temas como natureza, identidade, desafios contemporâneos e resistência cultural.
Sem filtros externos. Sem tradução apressada.
A exibição em um evento de alcance nacional amplia o alcance das narrativas e insere os realizadores indígenas em uma rede mais ampla de circulação cultural.
Como participar
As inscrições seguem até 27 de fevereiro e são gratuitas. O início das aulas está previsto para 5 de março. As vagas são limitadas.
Mais informações podem ser acompanhadas pelo perfil oficial da Associação Indígena Tupinikim e Guarani nas redes sociais ou pelo telefone disponibilizado pela organização.
No fim das contas, o que está em jogo não é só aprender a editar vídeo ou enquadrar uma cena.
É assumir o próprio enquadramento.
E talvez essa seja a maior mudança de roteiro.
