Guerra no Oriente Médio ameaça empurrar 45 milhões para a fome e expõe colapso humanitário global

A guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas mais um conflito regional. Aos poucos, ela começa a redesenhar o mapa da fome no mundo — e de forma alarmante. Um alerta do Programa Mundial de Alimentos (PMA) acendeu o sinal vermelho: se a escalada militar continuar até junho, até 45 milhões de pessoas podem ser levadas à fome aguda. Seria um salto brutal, capaz de empurrar o planeta a níveis históricos de insegurança alimentar.

Em Beirute, escolas viraram abrigos improvisados. Famílias inteiras vivem entre caixas de mantimentos distribuídas às pressas. Crianças dividem espaço com adultos exaustos, enquanto o som distante de explosões ainda ecoa.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, foi direto: a guerra precisa parar. Segundo ele, resoluções internacionais seguem ignoradas, enquanto o conflito se amplia com ataques envolvendo Israel, Irã e grupos aliados.

O sistema humanitário global, já pressionado desde a pandemia de Covid-19 e pela guerra na Ucrânia, volta a dar sinais de colapso. Cadeias de suprimento estão se desorganizando rapidamente. O custo do transporte de ajuda humanitária subiu cerca de 18% em poucas semanas. Parece pouco à primeira vista — mas, na prática, significa menos comida chegando a quem precisa.

Hoje, o PMA já enfrenta escolhas difíceis. No Sudão, rações foram reduzidas. No Afeganistão, apenas uma em cada quatro crianças gravemente desnutridas recebe apoio.

E há um ponto ainda mais sensível: fertilizantes. Cerca de um quarto do abastecimento global passa pelo Estreito de Ormuz, hoje praticamente paralisado. Sem fertilizantes, a próxima safra em regiões vulneráveis — como a África Subsaariana — corre risco real. E isso não é um problema para o futuro distante. É para os próximos meses.

Países dependentes de importação de alimentos, sobretudo na África e na Ásia, já sentem o efeito combinado de combustíveis mais caros e alimentos mais caros. Para milhões de famílias, isso significa uma conta simples: não dá mais para comprar o básico.

No Líbano, a crise humanitária se aprofunda em ritmo acelerado. Mais de 130 mil pessoas estão em abrigos improvisados. No total, porém, os deslocados podem ultrapassar um milhão — algo próximo de 20% da população do país. A maioria, cerca de 70% dessas pessoas não estão em abrigos formais. Estão espalhadas, invisíveis, muitas vezes fora do alcance da ajuda. Há idosos que se recusam — ou simplesmente não conseguem — sair de casa. Outros permanecem por medo de perder tudo o que construíram. São histórias silenciosas, mas cada vez mais comuns.

A situação piora com o colapso da chamada “ponte aérea humanitária”. Países do Golfo, que antes enviavam ajuda constante, praticamente interromperam o fluxo.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos aponta que ordens de evacuação em massa podem configurar deslocamento forçado — uma violação do direito internacional. Há relatos de ataques que destruíram prédios inteiros, matando famílias completas. Profissionais de saúde também estão entre as vítimas.

Declarações que sugerem repetir no Líbano o nível de destruição visto em Gaza são consideradas “inaceitáveis” por autoridades da ONU. Na prática, alimentam o medo de uma escalada ainda maior.

A guerra no Oriente Médio não está apenas redesenhando alianças ou territórios. Ela está mexendo com algo mais básico — e mais urgente: a capacidade das pessoas de se alimentarem.