Há um debate que incomoda. Não porque seja novo — mas porque voltou com força, desta vez alimentado por fatos concretos, manchetes internacionais e análises de especialistas que prefeririam não estar fazendo essas comparações.
Nos últimos meses, uma parte crescente da imprensa mundial começou a mapear semelhanças entre certas práticas da política externa dos governos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu e estratégias adotadas por potências expansionistas na década de 1930, antes da Segunda Guerra Mundial. A comparação é controversa. Historiadores sérios alertam para seus limites. Mas ela não vai embora — e talvez não seja por acaso.
Enquanto os fatos acontecem em sequência fica difícil estabelecer o que virá a seguir. A história só mostra seus verdadeiros contornos depois. Análises sobre os fatos que geraram as primeiras duas guerras mundiais mostraram claramente o passo a passo da gênese do conflito. Atualmente, estamos vendo os ataques de Trump, Putin, Netanyahu e pensando: estariam eles gerando um terceiro conflito mundial? Quem estaria em cada lado do conflito?
Capturar, bombardear, controlar
Em janeiro de 2026, forças apoiadas pelos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação militar em Caracas. Dias depois, autoridades americanas já discutiam a reestruturação econômica do país — com foco explícito no setor de energia.
O presidente Trump foi direto: os Estados Unidos poderiam controlar as reservas de petróleo venezuelanas por anos enquanto reorganizam a economia do país. A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, cerca de 17% do total global. Não é detalhe. É o centro da questão.
The Guardian noticiou que Venezuela estaria “transferindo” dois bilhões de dólares em petróleo aos EUA. A Euronews foi mais longe: os americanos poderiam administrar o país e explorar suas reservas por tempo indeterminado. A Reuters confirmou que Washington queria o petróleo venezuelano fluindo novamente — com as receitas depositadas em contas americanas.
Para analistas de relações internacionais, a sequência é conhecida: intervenção militar, troca de regime, controle de recursos. Não é a primeira vez na história que essa lógica aparece. E quando aparece, raramente termina rápido.
Teerã em chamas
No Oriente Médio, outro capítulo se abria simultaneamente. Ataques aéreos contra áreas de Teerã foram descritos por moradores como os mais violentos desde o início do conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã. A Reuters registrou explosões sacudindo a capital iraniana. A Al Jazeera alertou para o risco de uma guerra mais ampla. The Guardian foi mais sombrio: o conflito no Oriente Médio corria o risco de sair do controle.
O Irã não é apenas um adversário ideológico. O país controla o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo exportado no mundo. Autoridades iranianas chegaram a ameaçar bloquear o estreito caso os ataques continuassem. Uma ameaça que, se concretizada, afetaria mercados em todos os continentes.
A revista Time, na reportagem intitulada “Trump’s War”, descreveu a operação que resultou na morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei como parte de uma estratégia deliberada de mudança de regime apoiada por Washington. Uma escalada sem precedentes — e sem retorno simples.
O México na mira
Enquanto isso, na América Latina, outro front se abria. O governo Trump passou a discutir publicamente a possibilidade de realizar ataques militares contra cartéis de drogas dentro do território mexicano. A manchete da Euronews foi direta: “Trump says US will start hitting land in Mexico targeting drug cartels.”
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum rejeitou a proposta com veemência, classificando qualquer intervenção estrangeira como violação da soberania nacional. Ela também cobrou dos Estados Unidos medidas concretas contra o tráfico de armas que, saindo do território americano, abastece os próprios cartéis que Washington diz querer destruir.
No Caribe e no Pacífico, a campanha americana contra o narcotráfico marítimo já havia deixado mais de 150 mortos em operações contra embarcações suspeitas — segundo reportagens internacionais. Operações sem autorização formal dos países em cujas águas ocorreram.
O que a história tem a dizer
É aqui que o debate fica mais delicado — e mais importante.
Analistas de relações internacionais identificam ao menos cinco elementos que, quando aparecem juntos, historicamente sinalizam períodos de forte instabilidade geopolítica: intervenções militares para derrubar governos estrangeiros; operações de eliminação de lideranças adversárias; bombardeios intensos contra centros urbanos; pressão militar sobre países menores; e disputa por recursos estratégicos — especialmente energia.
Esses cinco elementos estão presentes, simultaneamente, no cenário internacional atual.
A comparação com os anos 1930 não é automática nem tranquila. Historiadores são categóricos: o regime nazista combinava expansionismo territorial com ideologia racial e totalitarismo — características que não se reproduzem nas democracias contemporâneas. Fazer uma equivalência direta seria um erro histórico grave.
Mas o que analistas apontam não é equivalência. É padrão. É a lógica de grandes potências que usam força militar, pressão econômica e eliminação de adversários para reorganizar o tabuleiro geopolítico a seu favor. Isso não é exclusivo dos anos 1930. É, infelizmente, uma constante da história das potências.
A linha que vai ficando mais tênue
O que torna o momento atual diferente — e mais tenso — é a combinação de fatores. A velocidade das operações. A escala dos conflitos. A simultaneidade das frentes abertas: Venezuela, Irã, México, Caribe. E, acima de tudo, a disputa por energia em um mundo que ainda não encontrou substituto à altura para o petróleo.
Tanto Washington quanto Tel Aviv argumentam que suas ações fazem parte de estratégias legítimas de segurança nacional e dissuasão. Para Israel, o objetivo central é impedir que o Irã fortaleça aliados regionais como Hezbollah e Hamas. Para os Estados Unidos, a equação é mais complexa: conter China e Rússia em áreas estratégicas, combater redes de narcotráfico e pressionar governos considerados hostis.
O problema — e aqui está o cerne do debate — é que estratégias de dissuasão e escaladas militares raramente são fáceis de distinguir enquanto acontecem. A diferença entre as duas só costuma ficar clara depois.
E é exatamente isso que preocupa quem estuda o período entre guerras.
Guerras raramente têm uma única causa. Segurança, rivalidade entre potências, ideologia e controle de recursos estratégicos costumam caminhar juntos. Quando esses fatores se combinam — como a história já mostrou mais de uma vez — o risco de escalada deixa de ser hipótese e passa a ser cálculo.
